por Carol Canabarro
Todos aqueles que se dedicam à escrita almejam, em algum grau, obter sucesso. Seja virar um best-seller, vencer um Jabuti (foto) (Nobel a gente sabe que é outro patamar), tornar-se patrono da FLIP ou ? por que não? ? conquistar meio milhão de seguidores. De preferência, tudo isso antes dos quarenta, para dar tempo de comemorar e, claro, postar bastante.
Não serei hipócrita: também almejo esses marcadores. Como diz a sabedoria popular, "quem desdenha quer comprar". Longe de mim desdenhar de um reconhecimento tão expressivo.
A questão é que, ao mirar apenas os degraus mais altos da escada, podemos nos cegar para os degraus já pisados ? ou tropeçar neles. O risco é não valorizar o conquistado e, assim, enfraquecer a base que nos levará mais alto.
Como disse, aquela lista de marcos tradicionais é uma fração do que pode ser sucesso. São risquinhos em apenas uma parte da régua. A própria definição do dicionário é ampla: "consequência feliz de um empreendimento". Por que, então, aceitamos um marcador compacto, imposto por outros, e não definimos a nossa própria medida de "empreendimento feliz"?
Parafraseando o Dalai Lama: deveríamos medir nosso sucesso também pelas coisas às quais renunciamos para alcançá-lo. É um chacoalhão, né? De repente, a régua não só se expande, como se torna única, sob medida para a nossa história, porque seu sucesso pode ser:
Há incontáveis tipos de sucesso. E se você só tem olhos para um ? o mais distante e barulhento ?, perde a chance de celebrar todos os outros que já aconteceram ou estão acontecendo. Pior, pode paralisar diante da imensidão da montanha, achando que nunca chegará ao topo, e esquecer-se de apreciar a vista única do caminho percorrido.
Foi uma conversa com a escritora Flavia Neves que me deu as lentes para enxergar essa cartografia mais ampla. "Você sabia que, além do reconhecimento e do dinheiro na conta, existem outros tipos de sucesso?", ela me perguntou, depois de eu dar respostas rasas. Daquele diálogo, saí com um mapa mais generoso para medir nossa trajetória:
1. Sucesso Cognitivo: A Vitória do Aprendizado
"Quanto você sabe agora sobre narrativa, personagens ou ritmo que não sabia ano passado? Cada aprendizado, cada técnica dominada, é uma vitória." É o prazer tangível de ver a própria evolução no ofício.
2. Sucesso Social (ou de Impacto): A Conquista da Conexão
"Quantas pessoas leram algo seu e expandiram um pouco sua visão de mundo? Quantas compartilharam um trecho com alguém que amam?" Tocar um leitor, por menor que seja o círculo, é uma conquista imensurável e autêntica.
3. Sucesso Estético: O Êxtase do Ofício
"Aquele orgasmo literário de encontrar a ordem exata das palavras, a frase perfeita. De reler um parágrafo seu e, depois de um tempo, quase não acreditar que saiu da sua cabeça." É o triunfo íntimo sobre a página em branco.
4. Sucesso Ético: A Integridade Intacta
"E que tal o sucesso de manter-se fiel a si mesmo? A consciência tranquila de que, em nenhuma vírgula, você traiu seus valores ou sua voz para agradar a um algoritmo?" Essa integridade é uma das maiores e mais silenciosas conquistas.
5. Sucesso da Vida que Sustenta a Escrita
"E quando você consegue escrever nos dias que se propôs, cuida do corpo, compartilha tempo de qualidade com quem ama e dorme o suficiente para acordar no dia seguinte e fazer tudo de novo?" É o sucesso retumbante de uma vida que nos permite continuar criando.
Lembre-se, só escreve um livro digno de ser premiado quem arrisca escrever um (ou vários) que não eram. E, mais importante: quem, durante a difícil escalada, soube se alegrar com o elogio sincero do pai ao ler aquele primeiro capítulo.
Isso também é sucesso. E ele é só seu.
colaboração de Flavia Neves
Carol Canabarro, apaixonada por literatura e animais. Foi atleta, garçonete, especuladora financeira, professora. Morreu duas vezes, ressuscitou em ambas. Hoje é escritora, egressa do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose, autora da narrativa longa "Mirando o gol, acertando as estrelas", colunista no próprio site, aluna na pós-graduação em Literatura, Arte e Filosofia da PUC-RS e serva de quatro gatos.