por Ana Cristina Sampaio Alves
Quando Maria chegou ao hospital, já não havia o que fazer. O médico explicou que, durante a cirurgia de safena, a aorta de sua mãe havia se rompido. A equipe controlou o sangramento e tentou retirá-la da circulação extracorpórea, mas o coração não conseguiu assumir o comando. Diante da instabilidade, abriram o tórax uma segunda vez e constataram que o sangramento havia recomeçado e já não podia ser contido.
O cirurgião levou Maria para um canto da sala e convidou-a a sentar.
— A ruptura da aorta foi uma complicação grave. Se tivesse acontecido fora do centro cirúrgico, ela morreria em qualquer situação e só saberíamos a causa com uma autópsia — disse, enquanto o rosto pálido de Maria permanecia imóvel e seus olhos se fixavam na boca do médico, que mexia sem parar. — Se a família quiser um esclarecimento adicional sobre a causa do óbito, é possível solicitar uma necropsia. Sei que este é um momento muito difícil. Toda a documentação da cirurgia e do tratamento fica à disposição da família. Se, no futuro, vocês desejarem esclarecer qualquer aspecto do que aconteceu, têm direito de solicitar o prontuário e buscar uma avaliação independente.
Diante da possibilidade de um processo judicial sobre a morte prematura da mãe, aos 60 anos, Maria decidiu, sem nem mesmo ouvir os irmãos, que nada seria feito. Disse apenas que fechassem o peito dela e chamassem a funerária. Os três irmãos e suas famílias foram chegando e recebendo a notícia. Entre choros, questionamentos ao médico e o olhar direto para Maria, a irmã mais velha, foram recebendo as incumbências que ela determinava. A um, o contato com a administração do cemitério e liberação do jazigo. A outro, a busca de um padre para a prece antes do enterro. Ao terceiro, a entrega de roupas para a funerária cuidar do corpo. Deixou para si a pior parte: avisar todos os parentes e amigos de que o enterro seria dali a dois dias.
Uma semana depois, Maria foi ao hospital para assinar a papelada do plano de saúde. Descobriu que, se sua mãe tivesse vivido, a conta seria dez vezes mais cara. Estava tudo programado para a UTI, depois o quarto e todos os gastos com nutricionista, cardiologista, fisioterapeuta e outros profissionais. Enquanto a atendente cancelava uma a uma as autorizações futuras, Maria deparou-se com o prontuário da falecida, um calhamaço de umas cem páginas. Começou a folheá-lo e a atendente pediu licença para reavê-lo, pois se tratava de documento interno do hospital. Maria não se conteve:
— Esse documento pertence à família. Aqui tem toda a história da doença e óbito da minha mãe. Quero ficar com ele.
Após uma espera de duas horas e vários papeis assinados, ela saiu do hospital com o prontuário, tendo tido o cuidado de observar que a pasta não saíra de sua frente em momento algum. O que lhe chamou a atenção ao folheá-lo foi uma frase lida rapidamente ao final do documento: "Durante a manipulação da aorta ascendente observou-se lesão longitudinal da parede vascular, seguida de sangramento maciço". Leu novamente: "manipulação", "lesão". Estava convencida: aquela aorta não se rompeu sozinha.
Nas semanas seguintes, leu todo o relatório, técnico demais para sua compreensão, fez uma cópia e enviou pelos Correios para seu tio, professor da Universidade de São Paulo, para que o enviasse a alguns colegas cardiologistas que talvez pudessem lhe dizer se sua desconfiança fazia sentido. Meses depois, recebeu o documento de volta com o recado do tio de que nenhum colega quis se manifestar. O caso era complexo demais para emitir opiniões sem conhecer a paciente.
Tempos depois, em um jantar com amigos, foi apresentada aos donos de um grande hospital da cidade, por acaso, cardiologistas. Não se conteve e narrou todo o episódio da morte da mãe e sua desconfiança de erro médico. Notou que um deles ensaiou uma resposta, mas o outro tomou a palavra:
— Não é possível saber o que de fato aconteceu.
Os anos se passaram e Maria sempre narrava a morte da jovem mãe como um grave erro médico em um dos melhores hospitais da capital. Começou a se culpar por não ter aberto um processo junto ao Conselho Regional de Medicina tão logo sua mãe morrera. A ideia, que antes lhe parecera tão dolorosa e inútil, com o passar do tempo lhe corroía as entranhas. Em seu favor, refletia que seria uma batalha solitária, pois nenhum dos irmãos jamais compartilhara de suas dúvidas. Como poderiam apoiá-la na empreitada de enfrentar uma classe que, aos seus olhos, era tão autoprotegida?
A culpa por uma decisão tomada em meio à dor crescia a cada ano. Havia um lugar, no entanto, do qual se mantinha ainda mais distante: o túmulo da mãe. Não o visitara desde o enterro, pois sua crença era que os mortos não precisavam daquele lugar. Mesmo indo a funerais vez por outra, nunca tivera curiosidade em buscar a lápide dela, afinal, o cemitério crescia tão rapidamente que era impossível reconhecer onde fora enterrada. Porém, duas décadas depois, no velório da mãe de uma amiga, teve a ideia de buscar o número da campa junto à administração. Enquanto caminhava em direção ao que, vinte anos antes, era a parte nova do cemitério, observou o mato alto tomando conta de tudo. O abandono saltava aos olhos.
Lápides velhas, muitas quebradas e sem cuidado algum. Talvez a maioria das famílias não se importasse em mantê-las em ordem, como ela, que acreditava que a memória dos mortos não morava ali. Por que não a cremaram na época? Não era um hábito tão conhecido. Pensou que ela própria seria cremada, garantindo que nenhum dos filhos e familiares tivesse que visitá-la em meio ao mato grande e o perigo de escorpiões. Só não iria morrer tão jovem. Isso não, pois já se encaminhava para a meia idade em melhores condições de saúde do que sua mãe. Mas nem tudo era desolação. Aqui e ali, flores em túmulos feitos de granito, com os nomes e as datas de nascimento e morte de seus ocupantes em grandes letras douradas, mostravam que muitos, sim, se importavam com seus mortos.
Começou a caminhar devagar por elas, observando as fotos antigas, as frases de saudade. Sentiu a velha culpa voltar: como pudera abandonar também aquele último vestígio da mãe? A lápide dela estava rachada ao meio, o mato quase a cobria. O cimento era escuro, desgastado pelo tempo. O nome, as datas e a fotografia estavam praticamente apagados. Tudo ao redor significava desleixo.
Bem próximo da campa, à direita, um homem colocava flores em um vaso na lateral de um túmulo de mármore verde-escuro, que se destacava dos demais por estar muito bem cuidado. Era um senhor idoso, de boa aparência, corpo esbelto e ereto para a idade, que vestia um terno claro e um chapéu de palha elegante. Na mão, uma bengala de apoio, pois não parecia incapaz de caminhar até tão longe. Ele a cumprimentou com a cabeça e ajeitou as flores, parecendo concluir a arrumação. Antes de dar alguns passos em direção a ela, disse:
— Boa tarde — tirou o chapéu, encarando-a com um sorriso. — Está tudo muito largado aqui, não acha? — Caminhou até ela, olhou para a lápide e perguntou: — Visitando um parente?
— Boa tarde, sim, minha mãe. — Maria sentiu o rosto enrubescer ao responder à pergunta.
— Ah, ali está meu pai.
— Parabéns, o senhor toma muito bem conta dele. — Com a cabeça indicou o restante do local, praticamente em ruínas.
Ele acercou-se dela e observou a foto na lápide escura.
— Sabe, vejo que vocês são parecidas. Ela morreu jovem, né?
— Sim, sessenta anos. — Após alguns segundos de hesitação, completou — Foi um erro médico terrível, sabe?
— Foi mesmo? O que aconteceu?
— Morreu numa cirurgia de safena. Estávamos fazendo planos para a nova vida dela. Com exercícios e uma alimentação melhor, ela poderia estar viva hoje. Mas a aorta rompeu durante a cirurgia.
Maria aguardou alguns segundos, como se quisesse medir o efeito daquelas palavras. Então, emendou:
— Sabe, ninguém me tira da cabeça que algum bisturi passou por aquela aorta e ela não teve chance. Mas é difícil provar um erro médico.
— Entendo.
Maria baixou os olhos para a lápide e mirou a foto desgastada da mãe. Estava parecida com ela. Após um minuto de silêncio entre os dois, o senhor falou:
— A senhora chegou a perguntar isso ao médico?
— Não. — Ela manteve os olhos fixos na lápide.
— Às vezes a gente passa anos procurando um culpado, quando talvez devesse só ter feito uma pergunta.
O rosto de Maria voltou-se para ele de imediato, mas o homem já estava de saída.
— Bom, foi um prazer conhecê-la, desculpe se me intrometi na sua visita.
— Imagina, prazer também. Boa tarde.
Ele caminhou devagar em direção à entrada do cemitério, um longo percurso de volta. Maria ficou ali olhando para aquela foto e recordou quando a tirou do álbum para a confecção da lápide antes do enterro. Olhou mais uma vez para a figura do homem que se afastava e tomou a decisão.
Chegou em casa e buscou no armário do escritório a pasta onde guardara o prontuário e os documentos restantes. O que primeiro lhe apareceu foi a certidão de óbito, que dizia "Causa da morte: choque hemorrágico. Ruptura da aorta ascendente durante cirurgia de revascularização do miocárdio". Assinada pelo médico Álvaro Nogueira. Como nunca guardara aquele nome? Deu-se conta de que jamais o soube, pois a cirurgia fora de emergência e pelo jeito ninguém perguntou quem era o cirurgião. Lembrava apenas da conversa final no corredor do centro cirúrgico.
Maria abriu o computador e pesquisou pelo nome dele e a palavra cardiologista. Em poucos minutos encontrou alguns artigos científicos, homenagens e uma entrevista concedida a um jornal da cidade. Confirmou por telefone que ele se aposentara do hospital havia dois anos. Mais uma vez, chegara tarde demais.
Decidiu ler a entrevista. A fotografia ocupava o centro da página. Apertou os olhos. O senhor do cemitério reapareceu diante dela, agora sem chapéu e vestindo um jaleco branco.
Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita.
Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.