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Terror

Terror

por Marina Macambyra

Deve ter sido lá pelos meus 10 ou 11 anos que comecei a ser assolada por terrores noturnos. Não sei porquê. Eu já dormia num quarto só meu há vários anos, exceto, talvez, por um período em que minha avó materna morou conosco e dividíamos o quarto. Só sei que, de repente, o quarto escuro se encheu de presenças ameaçadoras. Dormir de costas para a porta não era uma opção, a cama precisava estar encostada na parede, protegendo minhas costas.

Acho que cheguei a chamar minha mãe uma ou duas vezes. E também arrastei meu colchão até o quarto dos meus pais pelo menos uma vez, morta de medo, sentindo uma ameaça às minhas costas. Eu tinha muita vergonha de fazer essas coisas e costumava sofrer por horas. Medo de quê, minha mãe perguntava. Eu não sabia ou tinha vergonha de responder. Fui uma criança muito cheia de vergonhas, sei lá eu porquê.

Um dia descobri os filmes de terror. As noites de sexta-feira eram do Cine Mistério, na TV Bandeirantes. Eu não perdia. Assisti a muitos clássicos e também a uma quantidade nada desprezível de puro lixo. Os melhores eram os da Universal Pictures, dos Estados Unidos, anos 30 e os ingleses da Hammer. A primeira nos deu o inesquecível Drácula de Bela Lugosi e a segunda a série com Christopher Lee, belo e sinistro, o vampiro mais charmoso que o cinema produziu. E não me venham com Gary Oldman, que também é ótimo, mas não é Christopher Lee, e muito menos com aquele mocinho esverdeado daquela série adolescente, que só é magro e feio.

Mas não só os vampiros povoavam minhas sextas-feiras pré-adolescentes. Havia os filmes de Roger Corman: O terror, com Boris Karloff e um muito jovem Jack Nicholson; A loja dos horrores e sua planta carnívora gigante engraçadíssima, que pedia comida o tempo todo; o precioso Orgia da morte (The mask of the red death), adaptação de Edgar Allan Poe; O corvo, com Karloff, Vincent Price e Peter Lorre. A noite do demônio, de Jacques Tourner, um dos filmes que mais me assustou, na época. A noite dos mortos-vivos, de George Romero, filme que inventou esses cadáveres que andam devagar e, mesmo assim, comem pessoas. A Hammer nos presenteou com uma das adaptações mais interessantes da história do médico que virava monstro: Dr. Jekyll and sister Hide (ótimo título) ou O médico e a irmã do monstro (título nacional engraçadíssimo). E muitos homens e mulheres serpente, lobisomens, monstros da Lagoa Negra, moscas de cabeça branca, bruxas chamadas Lavínia, casas mal-assombradas, fantasmas vingativos, maldições e canibalismo.

E por que diabos eu assistia esses horrores todos, se tinha medo de alguma coisa que não via, mas que me rondava na escuridão. Sei lá. Fascínio, talvez. O fato é que, embora as primeiras sextas-feiras de terror tenham piorado meus medos, depois de alguns filmes o sofrimento passou. Acho que, de tanto ver escancaradas na tela aquelas criaturas que me inquietavam no escuro, o medo perdeu o sentido. Nada como dar uma cara aos nossos terrores, com maquiagem discutível, máscaras de celofane e peles de monstro com zíper. Ou, melhor ainda, para alguém cujos hormônios começavam a atuar, rostos masculinos interessantes e corpos vestidos em trajes elegantes.

Meu gosto pelo terror não diminui com a idade, embora tenha ficado um pouco mais exigente. Até gosto de um terror vagabundo, mas não gosto dos subgêneros "filme para sádicos", aqueles baseados apenas em mostrar pessoas sofrendo as piores torturas, "filmes de mulheres gritando", aqueles cujas personagens femininas ficam berrando quando deveriam fugir ou atacar, e os "filmes de barulhos que assustam", que substituem o clima, a tensão e o bom roteiro por ruídos altos para fazer a gente pular na cadeira a cada 15 minutos. O problema de muitos filmes de terror é que foram feitos para o público infanto-juvenil, que gosta de sangue, gritos e barulhos.

Os meus prediletos são os filmes que sugerem mais do que mostram, como A bruxa de Blair, mas também curto cenas de horror explícito, desde que haja uma história interessante a ser contada. E gosto muito dos filmes nos quais o mal é absoluto e invencível.

Ainda me lembro quando O exorcista estreou na cidade horrível do interior de São Paulo onde eu morava. O filme era proibido para menores de 16 anos, se não me engano, e eu só tinha 15. Então convoquei minha mãe, que também apreciava um terrorzinho, vesti uma camisa dela, prendi o cabelo e passei batom, para parecer mais velha. Eu tinha esperanças de que a presença da genitora contribuiria para convencer o porteiro que eu estava apta a ver Linda Blair vomitar sobre os padres. E assistimos, nós duas, a esse clássico. Gostamos, mas não achamos nada excepcional e nem tivemos medo, bravas que éramos.

Na literatura, o gênero também me agrada muitíssimo, desde sempre. Gosto dos mestres Edgar Allan Poe, Stephen King e H.P. Lovecraft e continuo gostando desse último mesmo depois de descobrir o racismo e outros preconceitos do infeliz. Detalhe interessante é que eu sempre soube que o sujeito sofria de algum tipo de doença mental, mas só descobri o preconceito ao topar com um conto — não me lembro qual — no qual essa lama transborda. Como eu já havia lido vários livros dele sem notar nada, acredito que o racismo, a xenofobia e o horror à pobreza não estão presentes em toda a obra dele, ou sou uma leitora muito distraída.

Clive Barker, C.J. Tudor e Arthur Machen também moram em partes sombrias do meu coração, tendo esse último um lugar particularmente gelado. Fiz uma referência à sua extraordinária novela O grande deus Pã num conto meu que talvez saia no livro que estou preparando, se sobreviver à leitura crítica. O conto, não eu.

Atualmente, minha escritora predileta neste gênero é a argentina Mariana Enriquez, com sua escrita forte e original que mistura o horror real da história de seu país ao horror sobrenatural. Terror com fundo político, fortemente ancorado na realidade. Argentinos, assim como nós, sabem tratar do horror e do terror com muita propriedade. Para quem deixou de gostar de Lovecraft por causa do racismo, sugiro a leitura do conto Sob a água negra, da coletânea Coisas que perdemos no fogo. A mulher consegue criar uma história lovecraftiana, tão boa quanto o original, mas sem nenhuma porcaria racista. Um feito e tanto.

Horror ou terror? Ao que parece, existe uma distinção, que não me convence muito. Definições contraditórias, muito sutis ou simplesmente artificiais para duas sensações difíceis de separar. O terror estaria mais ligado ao medo de algo que está por vir, o horror é a desgraça toda esfregada na nossa cara. Não sei, estou em busca de fontes confiáveis para esses conceitos.

No momento estou lendo Ainda estou aqui, do Marcelo Paiva, uma experiência completa de horror e terror, totalmente real. O capítulo em que Marcelo narra a tortura e a morte do pai é algo que não vou, nem quero, esquecer tão cedo. Enquanto lia, eu pensava: estou lendo um ser humano contando a tortura e a morte do próprio pai. Isso não devia ser possível, mas foi e ainda é. Fazendo um paralelo entre alguns trechos do livro e os tais conceitos de terror e horror, terror seria 3 crianças trancadas em sua própria casa por agentes do Estado depois de seus pais terem sido levados e horror o que seu pai passou na tortura? Colocada diante dessa situação real horrível e terrível a distinção parece quase uma frivolidade. Sim, eu sei, são conceitos literários, não para serem aplicados à vida.

Há um documentário brasileiro intitulado Cidadão Boilensen, sobre um empresário que não apenas financiou a tortura, mas criou um aparelho para executá-la e costumava assistir às sessões na quais seu invento era utilizado. Esse filme começa como qualquer documentário convencional sobre um indivíduo mais ou menos conhecido, mas, à medida em vai desvendando toda a monstruosidade do biografado, vai se tornando praticamente um filme de terror, parte de um subgênero que ainda não foi identificado nem nomeado. Não estou falando só dos fatos narrados, mas do clima criado pela narrativa, que vai se tornando cada vez mais opressivo e sinistro.

No romance Nossa parte de noite, de Mariana Enriquez, famílias da classe dominante argentina, ligadas a cultos de bruxaria, sequestram crianças para usá-las em seus rituais. Algumas são mortas sob tortura, outras são mantidas vivas e deformadas, transformadas em criaturas quase inumanas. Uma ideia terrível que pode ser vista como referência aos sequestros de crianças tiradas de seus pais "desaparecidos" para serem criadas por pessoas ligadas ao regime. Ao injetar elementos sobrenaturais a uma realidade por si só bastante terrível, talvez fique mais fácil entender essa realidade transformada. O mal oriundo de demônios e seus adoradores, bruxos e seus feitiços é mais fácil de assimilar do que brutalidade de um ser humano contra outro, indefeso, dominado, atado a um pau-de-arara.

Não sei como Marcelo Paiva conseguiu escrever esse livro. Imagino que ele precisava.

Também não sei como, num texto tão curtinho, comecei com meu amor pelos filmes de terror e meus medos infantis e vim parar nesse assunto pesado. A gente cresce, o medo do que não existe desaparece, mas o horror e o terror (tanto faz) da realidade não. O pior horror é esse que não precisa de maquiagem nem de dentes pontiagudos e que apenas anda por aí.

 

Marina Macambyra

Marina Macambyra, escritora iniciante, nasceu em 1961. Mora em São Paulo (SP), desde 1979. É bibliotecária formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1981. Teve um conto publicado na revista Originais Reprovados, laboratório dos alunos de Editoração da ECA/USP,  e dois em coletâneas da Metamorfose, A vida aqui não é facil (2021) e Navalha, veneno, mistério: contos policiais, de suspense e investigação (2023).

Publica, ocasionalmente, na plataforma Medium e também escreve textos acadêmicos e técnicos ligados à sua área de trabalho na Biblioteconomia. Suas histórias têm sempre elementos dos gêneros fantástico e horror, em perspectiva feminista. Aluna do curso Formação de Escritores, iniciado em 2025.

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