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TRAVESSIA

TRAVESSIA

por Andreia Santiago

TRAVESSIA

Tudo estava organizado dentro do carro. Os stand ups seguiam firmes no rack, prontos para a jornada. Ele estava animado, talvez na melhor fase que eu já tinha visto. Aproximou-se, segurou meu ombro com a mão cheia, apertou e sacudiu levemente, num entusiasmo quase infantil. Contagiada, olhei para a minha amiga, que sorria.

— Valeu, Tati. Muito obrigada por guardar minhas coisas. Estaremos sempre conectadas. — Ela sorriu e me abraçou.

— Você sabe que eu estarei sempre à disposição. Vão com Deus.

Entramos na Rio-Santos e o céu mudou de humor. Nuvens escuras avançavam, densas,  engolindo a paisagem. De repente, o trânsito travou. Uma longa fila de carros com o pisca-alerta ligado se formou à nossa frente. Uma árvore havia caído no meio da pista.

— Caramba, parece que vai chover forte, hein ?

— Pois é — eu disse, olhando o céu pesado. — Me dei conta agora de que hoje é dia trinta e um de março.

Ele ergueu as sobrancelhas, com os olhos úmidos.

— Nossa, já faz um ano que sua mãe fez a passagem.

Senti o tempo se dobrar por dentro.

— E você aqui comigo mais uma vez — deixei escapar um sorriso leve. — Pelo menos estamos fazendo outro tipo de transição.

Rimos como quem compreendia a linguagem subjacente às coisas.

Quarenta minutos depois, o fluxo se abriu e seguimos. Mas o caminho já não era o mesmo.
Lá pelas tantas, o vento começou a girar com força. A chuva caiu densa, quase horizontal. A cada quilômetro, tudo se intensificava. A estrada desapareceu sob um véu de água.

— Estamos sendo conduzidos. — ele falou, olhando o vidro, onde a água escorria como um rio. Reduziu drasticamente a velocidade.

Sabíamos, sem dizer, que aquela viagem não seria de cinco horas. Um relâmpago rasgou o céu. O estrondo no teto do carro nos fez gritar.

— Que loucura! Uma cachoeira no meio da pista, em cima da gente!

O carro derrapou para a esquerda, depois para a direita e, por um segundo, tudo se suspendeu. Mas ele controlou.

A estrada estreita, na borda da Serra do Mar, era um território inóspito. A água começou a gotejar dentro do carro por causa da fita que prendia as pranchas no teto. Depois de incontáveis paradas por obstruções na pista, atravessamos Paraty. A estrada escura e com poucos carros denunciava a gravidade da situação. Talvez devêssemos parar por ali. Mesmo assim, seguimos.

De repente, um estrondo nos atravessou por dentro: a estrutura da polícia rodoviária desmoronou logo atrás de nós. Por poucos segundos, não fomos atingidos. Seguimos em silêncio absoluto, olhos grudados na pista, sem coragem de dizer qualquer palavra.

Já amanhecia quando chegamos ao lugarejo na beira da estrada, próximo à divisa  entre o Rio de Janeiro e São Paulo, e ficamos mais uma vez em choque. Diante de nós havia muito barro, pedras enormes, árvores inteiras arrancadas do chão. Cinquenta metros de lama formavam um barranco gigantesco, obstruindo completamente a passagem para Ubatuba. Ficamos sem sinal, sem luz, sem direção. Estacionamos ali, num canto da única praça. Caio não aguentou e dormiu dentro do carro, todo molhado mesmo.

No meio do caos, consegui fazer amizade com desconhecidos. Gente simples, atravessada pelo mesmo espanto. Consegui usar um banheiro, comprar água. Pequenas vitórias que pareciam imensas. Estávamos presos. Não dava para seguir ao destino, nem voltar até Paraty.

Quando retornei ao carro, ele estava se despedindo de um cara como se fosse seu melhor amigo.

— Valeu, irmão! — ele me viu e sorriu — Apareceu a margarida!

— E aí, conseguiu descansar um pouco?

— Sim. E também descobri um restaurante que está vendendo comida caseira, tem internet e aceita pix. Fica ali do outro lado da praça.

Ainda bem que o tal restaurante tinha gerador. O local virou um ponto estratégico de sobrevivência. Aquele prato feito ressuscitou nossos pensamentos positivos. Com a conexão funcionando, conseguimos avisar aos amigos que estávamos bem.

Já era tarde da noite quando ouvimos os bombeiros dizendo que o acesso de volta a Paraty havia sido liberado. No caminho, especulamos sobre as possibilidades de conseguir hospedagem. Procuramos muito e nada. Tudo lotado ou sem condições de receber hóspedes. Estacionamos em um posto de gasolina e tentamos dormir no carro, mas a noite não me permitiu descanso.

Para completar, um cachorro surgiu do nada e latia, pulava contra o vidro, insistia. A madrugada se arrastou como um delírio. Em vários momentos, quando eu abria os olhos, via o mundo girar. Aquele latido, a goteira no meu ombro, o Caio roncando, o barulho dos carros? Amanheceu.

Assim que abriu, entrei na lanchonete do posto, lavei o rosto, comi sem sentir o gosto. Foi quando chegou a mensagem da Yve.

— Amiga, que bom ter suas notícias, estava preocupada. Se precisar de ajuda, um lugar para ficar, manda mensagem para minha amiga Cátia. Ela vai te receber.

Era tudo o que precisávamos: um abrigo seco e limpo. Respirei fundo e mandei a mensagem. Ela veio ao nosso encontro cerca de cinquenta minutos depois. Nos levou para sua casa e, de repente, o simples se tornou sagrado: um chuveiro quente, fogão aceso, cama. Nunca isso valeu tanto. Dormimos como pedra naquela noite. Nem me importei de compartilhar a cama com o meu amigo.

No dia seguinte, vimos as notícias na televisão. As saídas de Paraty estavam todas fechadas. Deslizamentos por toda a Costa Verde. Estávamos presos, sem poder ir nem voltar. Compramos comida. Convivemos. Finalmente tivemos tempo para conversar com o casal — mas havia algo estranho. Eles estavam tensos. Ele a olhava de um jeito esquisito. Ela parecia extremamente ciumenta. Havia instabilidade ali.

— E me conta, vocês estão juntos há muito tempo? Esse traste aqui já me acompanha há cinco anos! — ela gargalhou, quase com raiva.

— Ah... nos conhecemos há uns vinte anos. Mas não somos... —

— Caramba! Esse tempo todo? Isso é raro na geração de vocês. — Desisti de explicar. Não fazia diferença.

— A Cátia fala alto demais, me desculpem.

— E você fala besteiras demais! Vai encher o saco da sua ex! 

Definitivamente, eles não estavam bem. Como não havia o que fazer além de esperar, no fim da tarde o casal nos convidou para caminhar até um bar perto da estrada. A chuva havia dado uma pausa.

O bar estava lotado de homens. Entre eles, o prefeito. Ele conversava de maneira informal, com a testa enrugada e olheiras profundas, sobre o estado de calamidade pública da cidade. Já estávamos no quarto dia de isolamento e a ansiedade crescia.

A mulher começou a beber uma pinga atrás da outra, saindo do controle. Insinuava-se para os homens, que pareciam zombar dela. O namorado ficou visivelmente constrangido.

— Cátia, vamos embora. Já bebemos demais.

— Me deixa conversar com meus amigos!

Ela sentou no colo de um dos homens. Nessa hora, ele virou as costas e foi embora. Caio foi atrás dele, tentando acalmar a situação. Eu não consegui deixá-la. Depois de muita insistência, arrastei-a dali. No meio do caminho, ela quis urinar e me pediu para segurar o copo. Tive um impulso e, sem pensar, joguei tudo fora.

— Menina, cadê minha cachaça?

— Achei que você não queria mais...

— Jogou fora? Tá doida?

Minha vontade era desaparecer.

— Me desculpe, é que você já está muito alterada.

— Você não tem esse direito! — Tive medo de ser expulsa. Mas naquela noite eles saíram novamente, e ficamos sozinhos em casa. Meu corpo doía. A cabeça também.

— Vem cá, Isa, deixa eu te fazer uma massagem. — Permiti que ele me tocasse.

— Nossa, que delícia, Caio, mais pra baixo — minha voz saiu baixa. O polegar dele encontrou o ponto exato. Quando pressionou, fechei os olhos e uma onda percorreu meu corpo.

Chegou mais perto e senti conforto no calor do seu corpo. O ambiente foi desaparecendo e, aos poucos, restaram apenas respirações, carícias e entrega. Depois, fiquei em silêncio, deitada ao lado dele.

— Parece até estranho, né? O mundo desabando e a gente aqui, em lua de mel. — Gargalhamos entre beijos.

No dia seguinte, o tempo firmou. Saímos após o café. Uma primeira via de saída, a mais longa, foi liberada. O que deveria ter durado cinco horas levou cinco dias. 

Senti que desde aquele primeiro instante, no meio da chuva e do caos, havia uma presença sutil me nutrindo de coragem. 

Foi no dia trinta e um de março, o mesmo dia em que completava um ano da morte de minha mãe que algo se abriu. Não na estrada, mas dentro de mim. 
 

Revisão de texto: Catarina de Fátima Machado



 

Andreia Santiago

Andreia Santiago é do Rio de Janeiro. Terapeuta Integrativa com mais de 30 anos de experiência. Produtora de cursos on-line, também é cantora e musicista/DJ, integrando som, arte e cura em suas práticas. Estudante de Baixo e Escrita Criativa.