por Guilherme Henrique Favaro
A chuva intensa cortava a noite quase escura. Ela que marcava o aniversário de vinte anos da filha de Carlos. Ele olhava pela janela da sua casa. As únicas luzes que existiam eram dos raios e da lareira.
A casa de madeira resistia bem à tormenta. O barulho das crianças correndo e brincando percorria os cômodos e corredores.
Carlos continuou tomando o seu chá. A mente dele estava impregnada com as memórias que passou com os seus filhos até aquele dia.
Vinte anos de memórias podem alterar o jeito que um homem vê o mundo.
E três filhos mudam mais ainda!
O relógio bateu. Era meia-noite e a sua filha acabara de fazer vinte anos. As crianças largaram os brinquedos e foram para a sala de jantar.
Ele seguiu, mas começou a desacelerar, parando na frente da mesa da sala de estar, onde colocou a sua caneca e pegou um jornal. Uma notícia, um acidente de carro. Muitos feridos.
Ele parou de ler.
E jogou o jornal na lareira.
A esposa o chamou para cortar o bolo. Ele continuou olhando para o jornal queimando. Ela continuou chamando, mas ele ouvia pouco. A imagem do carro, as pessoas gritando, uma cena que navegava pela consciência dele.
O frio preencheu o seu corpo, mesmo estando na frente da lareira.
Ele sentiu um toque no ombro. Virou-se e viu a sua esposa em um vestido branco e descalça. Ela pediu para que Carlos cortasse o bolo que ela fez para o aniversário. O bolo branco com vinte velas era grande e percorria quase toda a mesa.
A filha estava com um vestido parecido com o da mãe.
Hoje era um dia para sorrir.
Carlos chegou e todos começaram a aplaudir com o cântico de aniversário tradicional da região. O filho do meio acendeu as velas, uma por uma, enquanto eles cantavam.
A filha fez um pedido e soprou as velas.
Elas não apagaram.
Mas ninguém estranhou; continuaram aplaudindo a filha até que Carlos cortou o bolo, um pedaço igual para cada um. Era um talento natural.
Ele pegou o primeiro pedaço para si. O interior de chocolate estava virado para cima e ele colocou no prato.
A filha olhou torto para ele, que estava sorridente, mas com um olhar distante.
E ele beijou-a na bochecha. Ela aliviou o seu semblante na mesma hora.
O frio voltou, mas ele não podia pensar naquilo, não naquele momento.
Enquanto ele cortava, sentiu uma batida fraca no chão; a cadeira em que sua esposa sentou quebrou. Ela pediu para ele ir à garagem para trazer uma ferramenta para consertá-la.
Ele a beijou e foi até lá, mas travou na porta. Desceu a maçaneta, mas não se mexeu. A porta flutuou parada. A mão congelou. Ele largou a maçaneta e voltou para a sala. Velas apagadas. Sala escura. Ninguém presente.
Ele voltou e abriu a porta. A primeira coisa que se via era inegável: um carro antigo, com a parte da frente amassada, vidros quebrados.
Um acidente de carro pode alterar como um homem vê o mundo.
Guilherme Favaro é escritor de fantasia e realismo mágico. Suas histórias exploram temas como memória, identidade, perda e transformação, combinando elementos fantásticos com conflitos humanos. Autor de Memorial à Memória e Os Encantados, dedica-se ao aprimoramento constante de sua escrita e à criação de narrativas capazes de emocionar e permanecer na memória dos leitores.