por Patrícia da Fonseca Martins
O brigadeiro repousava sobre a forminha colorida, a massa brilhando por baixo do chocolate granulado. Ele me chamava, como se dissesse o quanto era saboroso e como eu merecia deliciar-me com um doce daquele tamanho. Sim, porque o tamanho daquele brigadeiro dos deuses era de encher os olhos. Eu nem precisaria devorá-lo inteiro. Só um pedaço, meu Deus, só um pedaço daquele doce para meu dia terminar feliz. Dane-se meu peso.
Estiquei a mão para dentro da geladeira e peguei o brigadeiro. Fechei os olhos e o levei aos meus lábios. O aroma do chocolate entrou pelas minhas narinas e o deixei por alguns instantes mais próximo do nariz do que da minha boca, numa satisfação antecipada pelo prazer que estava por vir.
Torturei-me (uma tortura boa) por mais alguns poucos segundos e quando não aguentei mais, dei a primeira mordida. Meus dentes, língua e bochechas se deliciaram com o chocolate cremoso se espalhando pela boca, ativando algo no meu cérebro muito próximo à felicidade. Não engoli imediatamente. Deixei que se dissolvesse, devagar. Apoiei minhas costas na parede e fui descendo até o chão, encarando o brigadeiro em total enlevo, na dúvida se deveria admirá-lo ou salvá-lo de mim, devolvendo-o, eticamente, à geladeira. Alguém guardou o doce para comer mais tarde e ele nunca me pertenceu. Mas estávamos só nos dois ali, como se fôssemos um só. Não era justo interromper aquele momento glorioso. Vivíamos, naquele momento, uma intimidade tão gostosa que seria um crime ele ir parar na boca de outra pessoa.
Estiquei minha língua para fora sentada no chão duro e frio da cozinha. Lambi o brigadeiro de cima a baixo, beijei-o como se fosse a boca de um homem sedutor e ousado. Eu só poderia retribuir todo aquele amor e devoção devorando-o. Devorando-o de uma vez só.
Coloquei o restante na boca. Eu nem abria mais meus olhos, pois o mundo ali fora me devolveria à vida real. Eu não queria a realidade. A única coisa que desejava era viver no mundo dos brigadeiros, onde cada um deles pegaria minha mão e me levaria para longos passeios através da Terra do Chocolate. O brigadeiro desceu garganta abaixo. Fiquei mais um tempo na mesma posição, sorrindo ante aquele prazer orgástico que só o chocolate pode causar. Ou me causar.
Um brigadeiro numa noite chuvosa. Daquela vez foi melhor que sexo.
Servidora pública estadual, Bacharel em Turismo. Tenho vários e-books publicados na Amazon, com foco no nicho da literatura feminina. Entre eles Um Amor de Plus Size, A Fonte, Noites Encantadas e Nós Queremos Transar com Você.
Fiz parte da primeira turma do Curso de Formação de Escritores entre 2015/2016, pela Editora Metamorfose.
Em 2026 iniciei o Curso de Formação de Revisores, também pela Metamorfose. Pretendo me especializar como Leitora Crítica.