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Um casamento feliz

Um casamento feliz

por Patrícia da Fonseca Martins

Meus tios estavam casados há 25 anos. Um relacionamento modelo que deu a eles três filhos, meus primos, a quem eu adorava. Tia Márcia e tio Rogério se davam superbem. Cúmplices, parceiros, sempre bem-humorados. Dava para ver o quanto se curtiam. Era como se nunca houvesse rotina naquele casamento de tantos anos. Sério, eu sentia inveja deles. Como queria um relacionamento assim.

Nunca tive.

Bem, num belo sábado pela manhã, minha tia acordou e meu tio, não. Ela só foi se dar conta de que o cara estava morto quando entrou no quarto com a bandeja do desjejum. Ela adorava mimá-lo. Segundo o médico que atestou o óbito, tio Rogério morreu de infarto fulminante por volta das três horas da manhã. Nunca vou me esquecer da tia Márcia, aos prantos, contando que tinha dormido de conchinha com ele. Bizarro. Tive que me trancar no banheiro para rir. De nervoso, de tristeza, de tudo. Eu adorava o tio Rogério, mas não achei justo ele morrer em casa e causar aquele turbilhão familiar. Pobre da tia Márcia.

Ele foi enterrado naquele mesmo dia. Meus primos estavam arrasados, mas conseguiam manter algum nível de controle. Tia Márcia, não. Quando minha mãe perguntou, logo depois do enterro, para quem ela daria as roupas do falecido, titia "montou num porco". Disse que nunca, jamais, nunca mesmo, faria aquilo. Manteria o closet dele igual, com todas as roupas, sapatos, lenços, cuecas, exatos como o tio deixara. Minha mãe decidiu não falar mais nada, nem mesmo quando a tia Márcia resolveu deixar suas próprias roupas de lado e andar com as vestimentas do defunto. Meus primos torceram o nariz, contudo respeitaram os seus sentimentos. Minha mãe fez que não viu, espantada com o comportamento da irmã. Afinal, cada um vivia o luto do jeito que dava.

Mas até aí, tudo bem. A merda aconteceu na missa de sétimo dia do tio Rogério.

O culto já havia terminado e os amigos e conhecidos se reuniram em volta da viúva. O dia estava frio e ela vestia uma jaqueta do marido. Ficou grande, desconjuntada, e todo mundo fez que não viu, como se tia Márcia estivesse vestida como gente normal. Então olhei para o lado. Até hoje não sei exatamente o que me fez voltar o rosto para a esquerda. Reparei numa mulher alta, bonita, com o cabelo loiro puxado para trás. Ao lado dela, um rapaz de aproximadamente 17 anos. Quase caí para trás.

O menino era a cara do meu tio.

Fiquei pasma e tensa. A mulher respirou fundo e veio em direção à minha tia, seguida pelo menino. Acertei uma cotovelada na minha mãe para lhe chamar a atenção. Tia Márcia só percebeu que aquelas duas figuras estavam ao lado dela quando a mulher a cumprimentou pelo nome:

— Boa tarde, Márcia.

Primeiro, titia fitou a mulher, tentando lembrar se a conhecia de algum lugar. Mas, quando pôs os olhos no rapaz, sua expressão mudou completamente.

Afinal, que merda era aquela?

— Te conheço? — Tia Márcia empalideceu.

— Meu nome é Suzane. — Ela estendeu a mão. — E este aqui é o Rogério Júnior.

— Quem?

A voz aguda da tia Márcia ressoou pela nave da igreja.

— Rogério Júnior. Meu filho. E filho do seu marido também.

Tia Márcia podia argumentar que era tudo mentira, mas o tal do Rogério Júnior era a cópia idêntica do meu tio. Era impressionante. Eu estava boquiaberta.

— Muito prazer. — Acho que minha tia não sabia o que dizer, abismada. — Ele... teve algum tipo de relacionamento com você?

Na verdade, ela não queria saber a resposta.

— Tivemos um filho. E não foi um relacionamento qualquer. Sinto muito lhe dizer isto justo na missa de sétimo dia dele. Nós éramos a sua segunda família.

— Ah, é? — Ela olhou para nós, tentando manter algum tipo de dignidade. — Ele nunca me contou.

— Imagino que não, embora eu tenha insistido nisso há anos.

Meus primos logo cercaram o novo irmão, curiosos, mas desconfiados.

— Eu só quero que meu filho tenha os mesmos direitos que os seus.

Suzane era uma mulher gentil, de fala mansa e educada. Apesar do inusitado da situação, nenhum de nós conseguiu sentir algum tipo de aversão por ela.

— Claro que sim. — Tia Márcia enfiou a mão na bolsa, pegou papel e caneta e fez uma anotação ali. — Aqui está o telefone do meu advogado. Sugiro que entre em contato com ele para deixarmos tudo em pratos limpos.

Também era nítido que minha tia estava surpresa com a semelhança do Júnior com o defunto. Não seria preciso nem fazer exame de DNA para confirmar a paternidade. Nos despedimos de Suzane e do meu mais novo primo e voltamos todos, calados, para a casa da tia Márcia. Sem dizer nada, ela subiu as escadas com dignidade, abriu a porta do quarto, avançou até o closet e jogou todas as roupas do tio Rogério dentro de duas malas. A própria peça de roupa dele que ela vestia teve o mesmo destino.

Eu e minha mãe assistimos à tia Márcia jogar as malas no meio da rua. Depois, ela entrou na casa, serviu-se de um cálice de vinho e fez um brinde:

— Que ele arda no fogo mais quente do inferno, enquanto eu continuo mais viva do que nunca.

Patrícia da Fonseca Martins

Servidora pública estadual, Bacharel em Turismo. Tenho vários e-books publicados na Amazon, com foco no nicho da literatura feminina. Entre eles Um Amor de Plus Size, A Fonte, Noites Encantadas e Nós Queremos Transar com Você.

Fiz parte da primeira turma do Curso de Formação de Escritores entre 2015/2016, pela Editora Metamorfose.

Em 2026 iniciei o Curso de Formação de Revisores, também pela Metamorfose. Pretendo me especializar como Leitora Crítica.