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Um gato, outro domingo

Um gato, outro domingo

por Bruna Dondé

Um gato, outro domingo

A Morte percebeu que ainda não era o fim. Pegou o pequeno gato cinza no colo e o levou até a saída do mundo espiritual. Com o portal já aberto diante deles, com um abraço de ossos, tocou a cabeça do gato. Alimente-se de almas — sussurrou a Morte. A tarefa era simples.

Caminhava de forma desajeitada entre buzinas, gritos grosseiros, carrinhos de feira e semáforos brilhantes. A cada esquina, alguém o queria. Não possuía requisitos ao selecionar suas vítimas, apenas sabia qual seria. Seguia, se oferecia, mostrava a barriga. Dentro de alguns dias, aparecia na casa da escolhida. Com seus olhos azuis, quase brancos, congelava emoções. Hipnotizava, absorvia outra alma, sentia o carinho suave da Morte e partia. Foi assim que garantiu mais de cem anos de vida. Porém, com o tempo, algo começou a incomodar. Após seu contato, todo humano se tornava o retrato da apatia.

Em um prédio antigo, de corredores estreitos e lâmpadas em meia fase, no meio de mais um domingo cheirando a café requentado, um homem sentia-se como o figurante da própria rotina. Com a cabeça cheia e vazia, observava o apartamento em silêncio quando ouviu um breve miado. Sentado no sofá, desligou a música para ter certeza do som externo. Abriu a porta, dando de cara com o olhar carinhoso de um gato. Era o quarto andar. Tentava entender como o gato tinha chegado até ali.

O gato notou o sorriso silencioso do humano. Encontro de almas perdidas. Foi nesse instante que decidiu doar um pouco da sua energia. Com o passar das estações, devolvia felicidade enquanto conhecia o amor. Mais um inverno ficou para trás. Naquele lar estava o sentido da sua vida.

Bruna Dondé

Bruna Dondé escreve textos breves sobre memória, imaginação e os pequenos estranhamentos do cotidiano. É autora do livro "resquícios de uma vida inexistente" e formada em fotografia,  atualmente aprofunda sua prática literária no Curso de Formação de Escritores. Entre rascunhos, leituras e a companhia de Cash e Christie, segue explorando histórias que transitam entre o íntimo e o inquietante.