por Bruno Banar
Primeiro foi a vela que rasgou, seguida da gritaria quando aquele resto de pano foi engolido pela tormenta. Então o Capitão tomou o leme e tentou desviar do paredão d'água. O alvoroço foi bonito de se ver. Patéticos. O Navegador berrava "sessenta nós, sessenta nós!" e aquele palhaço de Imediato pulava igual uma perereca enquanto corria para os salva-vidas.
Fiquei cego por um momento e um clarão explodiu no convés. Foi aí que percebi o mastro partido. Era hora de ir. Tentei subir, mas o maldito temporal queria me matar junto com os outros. De alguma forma, venci o peso das penas e alcei voo.
— Kadjampo!
Olhei uma última vez para o desgraçado. Ele estendeu sua mão para me agarrar com aquelas unhas podres e a cara desesperada. Sem o chapéu, a imagem era de um bárbaro qualquer. Piorou ao ser varrido por uma onda que limpou o piso. Até que o imundo não merecia morrer daquele jeito. Se não fosse por ele, aqueles miseráveis sequer teriam o que comer. Muito menos uma meta. Só que o redemoinho não pensava da mesma maneira.
Bati asas pra longe e venci as trovoadas da nuvem negra. O frio congelava, o cansaço aumentava e a morte se aproximava. De repente, trombei com alguma coisa e tudo escureceu. Era o mar que não me deixava escapar. Reze para nunca sentir sua fúria ou o sabor da espuma. A água salgada me levou. Fui puxado e girei não sei quantas vezes enquanto tentava respirar. Sem sucesso.
Mas o vendaval me presenteou com um pedaço de madeira que veio em minha direção. Biquei aquilo como se minha vida dependesse daquela lasca de navio. E dependia mesmo. Consegui respirar um pouco para logo em seguida me afogar novamente. Mas o que é um pouco de água para um pirata?
O problema é que não conseguia mais voar. Minhas penas encharcadas estavam entregues ao oceano. Acho que foi nesse momento que tomei a decisão, quando um raio iluminou o naufrágio. Apesar de tudo, não os abandonaria e guardaria comigo a memória maldita daqueles larápios. Levaria o sonho adiante. Se sobrevivesse àquela noite, viajaria até Elys e roubaria o tesouro da bruxa. Sim, foi naquele instante, enquanto era arrastado pela calamidade, que decidi buscar a Pedra da Verdade.
Acordei com a cara na areia. Senti os cortes arderem e vi os corais arrebentados. Me abriguei no alto de um coqueiro e descansei. Quando o sol enfim raiou, explorei a selva desconhecida. A viagem durou semanas. Lembrar dos mapas foi perda de tempo, eram mais inúteis que a tripulação. Então atravanquei o matagal. Passei por árvores gigantescas, serpenteei rios e corredeiras. Somente uma pista me guiava ao tesouro: estava na caveira.
Tudo isso por causa da lenda de uma mulher que queria conhecimento. Seu desejo foi atendido, mas em troca de lamento. Apesar de entender toda a verdade que existiu e existirá, foi aprisionada num diamante para nada revelar.
Nunca acreditei nessa cantoria ridícula, mas continuei minha jornada. E certa noite, depois de muito procurar, encontrei uma caverna peculiar.
Tinha cheiro de carniça. A vista também não era convidativa. Morcegos rodavam nos espinhos rochosos que, se olhasse com atenção, lembravam as presas de uma entidade maligna. Prestes a me engolir. Apesar do silêncio anormal no interior da gruta, algo espreitava por ali. Me acostumei com o breu e notei um longo corredor que me aguardava. O vento assobiou e, pelo verde de minhas penas, ouvi num sussurro: "Venha".
Me arriscar pra quê? Virei e voei pra fora, direto pra floresta. No entanto, encarei a caverna uma última vez. Merda, estava com medo? Impossível enfrentar a tripulação depois de um vexame desses. Danem-se, já tinham morrido mesmo, que diferença faria? Mas... como explicar? O tesouro estava ali. Todo meu esforço não podia ser em vão. Eu era um papagaio ou um pirata?
Tentei não pensar em mais nada. Firmei um resto de coragem e voltei. "Venha", repetiu o sussurro fantasmagórico. Fui o mais rápido que pude. Não enxerguei nada nas trevas da garganta. E nem queria. Só que bati em algo. Era pegajoso, gelado, um fedor de podridão me corroeu e percebi um corpo em minha frente. Seus olhos vazios me encararam com um sorriso mortal: uma adaga cravada no pescoço. De seu rosto jorrava um líquido preto, infestado por vermes esbranquiçados que se metiam na carne. Me afastei num susto, mas o pior aconteceu. Minhas patas ficaram presas. Tentei soltá-las e vi a mão que me agarrava. E não era do cadáver.
— Por que não me salvou?
Era a voz do Capitão. Olhei para trás e lá estava. As unhas podres, o rosto pálido em decomposição. "Venha". Do outro lado ecoou uma série de lamúrias. Gritos de arrependimentos, gemidos de dor e a arrebentação das ondas. "Venha!", diziam o Navegador, o Imediato, a tripulação inteira. Todos encharcados. Fui cercado pelo grupo amaldiçoado. Tinha que sair dali.
Biquei aqueles dedos inchados e me soltei. Voei até bater no teto da caverna e vi as carcaças saírem da escuridão. Estava encurralado. Um vento soprou e pensei na entrada da caverna, naquela boca que parecia ter se fechado. Era o fim, nada mais importava. Fugiria de uma vez por todas, dane-se! Não queria mais saber de tesouro algum. Que ele ficasse esquecido para sempre, enterrado com os demônios.
"Venha!" De novo aquela voz. Uma voz arrastada, rouca, vinda de lugar nenhum. Um sussurro que ecoava na alma. É isso, tinha enlouquecido. Aquela voz não parava de me atormentar. Os corpos ao meu redor tentaram me agarrar e ressoaram o mesmo chamado: "Venha".
Era um pesadelo. Só podia ser isso. Não era possível que aqueles malditos tivessem saído do fundo do mar para me atazanar. Mas... não era mesmo! A tripulação não deveria estar ali, pois jazia no oceano. Então, o que era tudo aquilo? Uma ideia me esmurrou. A lenda. Da mulher que queria conhecimento. A bruxa. A desgraçada estava ali! Uma figura medonha, de forma esquelética e postura enraivecida.
Vislumbrei o capitão. Estava sem o chapéu, que a essa hora boiava num canto qualquer. Essa criatura era diferente. Não era aquele miserável que estendeu a mão no último momento. Não era o desgraçado que me forçou a navegar. Que me pôs em seu ombro e me ensinou a falar. Bosta! Não podia fugir dali. Ainda tinha um dever a cumprir.
Voei na direção da bruxa mais rápido que nunca. Que os patéticos testemunhassem o terror de um pirata alado. Me atirei contra a entidade com a fúria de uma tempestade. Empurrei-a para o vazio, abraçando-a para o fim.
Rodei na escuridão. Enfim, me juntaria à tripulação. Pelo menos tentei. Me sacrifiquei como todos aqueles com quem velejei. Fui em busca do sonho. Mas quando pensei que estava tudo perdido, percebi um último ruído. Era o vento assobiando.
Olhei ao redor. Não havia mais nada, apenas eu e a caverna. O silêncio mortal. Então, senti um peso sobre mim. Um brilho emanou. Demorei para acreditar que era um diamante. Ainda me pergunto o porquê. Mas, de alguma maneira, ao enfrentar a entidade, conquistei a Pedra da Verdade.
Este texto foi publicado originalmente na coletânea "Contos Animais", em 2025.

Bruno Banar é um escritor e roteirista de fantasia que também atua como leitor crítico. Sua formação inclui o Curso Online de Formação de Escritores, bem como a Oficina de Contos e o Ferramentas e Teorias da Ficção, ambos pela Oficina Literária, além de ter participado das edições de 2025 e 2026 do Retiro Literário, dos professores Eduardo Spohr e Thiago Cabello. Estreou no mundo da escrita com a participação na coletânea Contos Animais, da editora Metamorfose, e atualmente trabalha em Soluna, um universo ficcional ambientado nos séculos XVII e XVIII que traz a temática de bruxaria e inquisição.