por Ana Cristina Sampaio Alves
Participar de um culto gospel no tradicional bairro do Harlem, reconhecido por ser o maior reduto afro-americano de Manhattan, é programa obrigatório para quem visita Nova York. O gospel é um estilo de música religiosa que expressa a fé cristã, com letras que louvam a Deus e falam sobre a vida de Jesus Cristo. Grande parte das igrejas presbiterianas que celebram cultos aos domingos têm uma entrada específica para turistas. Eu havia escolhido três delas, com endereços próximos, para escolher na manhã daquele domingo, mas quis a sorte que eu participasse como legítima congregante em uma delas.
Tudo começou no metrô, quando deixei cair o papel onde estavam anotados os dados das igrejas. Um rapaz preto de quase dois metros, sentado à minha frente, o pegou e, ao invés de devolvê-lo, passou a lê-lo enquanto eu permanecia com a mão estendida.
-- Essa igreja aqui você não deve ir! – me disse em tom tão ríspido que fiquei assustada. – Essa outra aqui também não – e apontou para o papel.
-- Eu ainda não escolhi, apenas anotei as que recebem turistas. Obrigada – respondi tão tímida quanto permitia o meu medo da sua reação. E como minha mão continuasse levantada, ele devolveu o papel.
-- Posso ver? -- perguntou uma senhora bem branca e magrinha, aparentando uns oitenta anos, que se sentava ao meu lado. Entreguei-lhe, desta vez sem hesitar, a anotação. Quando estamos em terra estrangeira, aparências e preconceitos se tornam rapidamente perigo ou refúgio. -- Estou indo para esta aqui, você pode vir comigo.
-- Posso?
-- Claro que pode. Sou judia, mas frequento há vinte anos essa igreja. São todos muito receptivos. Tenho muitos amigos lá. De onde você é?
-- Sou brasileira.
-- Perfeito, eu te apresentarei como minha amiga do Brasil.
-- E como devo cumprimentá-los?
-- Diga "God bless you". A que horas você precisa sair?
-- Preciso estar às duas da tarde em Wall Street. -- Para quem conhece Manhattan, trata-se do lado oposto ao Harlem, na parte de baixo da ilha, talvez uma meia hora de metrô.
-- Então você sai durante a segunda oferta.
Ela me explicou que existem dois momentos de contribuição voluntária que o congregado faz durante o culto. Na primeira, passam uma sacolinha (onde coloquei cinco dólares), na segunda você se levanta e segue até uma urna que fica logo abaixo do palco. Essa seria a minha deixa para sair do culto antes dele terminar.
Nossa estação de metrô chegou e segui aquela senhorinha frágil, judia, branca como cera, provavelmente rica e moradora do Upper East Side, que frequentava aos domingos uma igreja cristã de negros no Harlem, que só não é mais pobre que o Bronx. Nova York é mesmo um caldeirão cultural.
Em meio a esses pensamentos, chegamos à monumental entrada da Igreja, não sem antes passar pela fila dos turistas, que serpenteava pelo quarteirão. Não pude conter uma ponta de orgulho da minha aventura. Na porta, casais pretos bem altos -- as senhoras todas de chapéu, os senhores de terno -- a nos cumprimentar efusivamente com apertos de mão. A cada um deles eu dirigia um sorriso: God bless you! Minha mais nova amiga era um sucesso na congregação. Todos a recebiam com carinho e perguntas sobre como tinha passado a semana.
Nesse clima de harmonia adentramos ao salão, cujo palco já abrigava os músicos e o coral que fazem desse programa um dos mais imperdíveis de Nova York. Como em quase tudo naquela cidade, eu me sentia dentro de um filme, no caso daquele domingo, Mudança de Hábito, da comediante Woopi Goldberg. Ao me virar, pude ver acima a galeria onde estavam os turistas apinhados. Ao meu redor, as famílias se cumprimentavam de forma calorosa. As únicas pessoas brancas no auditório eram minha amiga e eu.
Teve então início o culto, que dura em geral duras horas. O ponto alto -- o Coral Gospel – mostrou-se poderoso e vibrante. Cantores e auditório entoavam juntos, numa demonstração de paixão e fervor contagiantes. Batiam palmas, soltavam a voz e deram um dos shows mais impactantes que já assisti. O pastor fez a pregação, todos se cumprimentaram – eu apertei mãos alegres e receptivas -- e chegou a hora da segunda oferta, quando agradeci imensamente à minha amiga, despedi-me e saí pela porta lateral do auditório, completamente embevecida pela experiência.
Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita.
Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.