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Uso de cartas em narrativas longas

Uso de cartas em narrativas longas

por Bruna Tessuto

Uso de cartas em narrativas longas

Em Salvador, Bahia, ao visitarmos a casa em que viveu Jorge Amado (foto), temos acesso a uma das maiores intimidades que uma pessoa pode ter: as cartas que recebeu ou enviou. Em uma das mais interessantes ali disponíveis, temos a enviada por Erico Verissimo. Nela, o autor de O Tempo e o Vento confessa para o amigo que está em crise com a obra. "Terá de aparecer em três volumes, por causa do número de páginas (1000), pois o preço dum único volume seria insuportável para o comprador. Há dez anos que esse livro me chateia, me preocupa, muda a minha vida. Devo a ele a ansiedade que determinou a alta da minha pressão arterial, que por sua vez originou o acidente cardíaco."

Todas as cartas são ridículas? Fernando Pessoa diria que as de amor sim, mas mais ridículas são as pessoas que nunca as escreveram. Podemos acrescentar, usando a carta de Erico como exemplo, que cartas são reveladoras, íntimas, apresentam ponto de vista e muitas vezes trazem fatos inéditos para o personagem que a recebe – ou para o leitor que a lê. São, por isso, bastante usadas em narrativas longas. Clarice Lispector, por exemplo, tem um livro só de cartas enviadas por ela. Afinal, as cartas também contam histórias.


DICAS PARA USAR CARTAS EM NARRATIVAS LONGAS

  • Uma das cartas mais conhecidas do Brasil, talvez a mais, foi escrita por Pero Vaz de Caminha e relata as primeiras impressões dos portugueses ao pisarem no Brasil. Dentro disso, é óbvio que traz um ponto de vista muito específico. Afinal, se um indígena escrevesse sobre a mesma situação, o quão diferente a carta seria? Pensando nisso, vale lembrar que ponto de vista é fundamental na escrita de cartas. É importante não ser genérico. Devemos explorar o ponto de vista de quem escreve, tornando aquele olhar único;
  • No livro Queria ver você feliz, Adriana Falcão, para contar a história dos seus pais, usa cartas reais que os dois se trocaram ao longo da vida. Mas usando um narrador fictício que vai costurando as cartas: o amor. O amor conta que estava por um bairro do Rio de Janeiro e, ao ver uma moça e mais adiante um rapaz, decidiu: ia juntar os dois. Depois de certas páginas do amor contando suas estratégias, recebemos a primeira carta. Vale, com isso, pensar que muitas vezes as cartas sozinhas podem acabar deixando lacunas na narrativa. Se só elas fossem publicadas, não teríamos acesso a várias partes importantes da história que elas não mencionam. Com isso, um narrador que vá as costurando e intercalando o contar junto com elas é um recurso;
  • O que diríamos em cartas que não iremos enviar? Carta ao pai, de Kafka, é um acerto de contas entre Kafka e seu pai através de uma carta nunca enviada. É um recurso que pode ser usado para entendermos o sentimento de determinado personagem e o seu ponto de vista sobre aquilo que ele não pode, não consegue, não quer ou não tem coragem de falar – nem de entregar. Carta ao pai, além disso, não conta com outro recurso: o livro inteiro é composto "apenas" pela carta;
  • Kafka e a boneca viajante, de Jordi Sierra i Fabra, é um livro que traz a ficcionalização de uma história que teria acontecido com Kafka: o escritor conhece uma garotinha que está chorando e a menina conta que está triste por ter perdido sua boneca. Ele, então, inventa que a boneca está viajando e enviou uma carta relatando isso. Kafka, então, passa a escrever essas cartas, em que a boneca conta suas aventuras pelo mundo, e a entregar diariamente para a menina. No exemplo, vale analisar que as cartas são inseridas no meio da ação. Conhecemos a carta quando o personagem está recebendo e a lendo, além de reagindo ao que lê, tornando a carta parte da cena. Outro fator que o livro traz: a história se passa em 1923. Se é uma carta escrita anos atrás, como é o caso aqui, é importante pesquisar elementos do tempo em questão, além de cuidar para não deixar escapar expressões e hábitos da atualidade;
  • Dentro de tudo isso, talvez fique o questionamento: mas quem escreve cartas hoje? Será que cabe usar em uma história que se passa em 2026? Bom, criando um contexto, cabe. Mas todas as dicas acima também valem quando, no lugar de cartas, vamos inserir nas nossas histórias os famosos textões enviados por mensagem.

Bruna Tessuto

www.brunaagratessuto.com.br

Bruna Tessuto formou-se em Teatro pela UFRGS e é graduanda em Letras pela mesma universidade. Atua como editora e promove mentorias em parceria com a Metamorfose, onde também coordena grupos de leitura e escrita e atua como professora no Curso de Formação de Escritores, do qual é egresssa. Lançou os livros "Os bastidores de Emma" (2018), "Pela voz delas" (2022) e "Até que o divórcio vos reúna" (2024), todos com ficcionalização de histórias reais. É vencedora do Prêmio Minuano de Literatura 2025 - categoria Juvenil. Desde 2020 interpreta a fantasma Dulce Miranda nas Visitas Guiadas do Theatro São Pedro.