por Bruna Tessuto
O livro "O uso da foto", de Annie Ernaux e Marc Marie (foto), é resultado de uma ideia do então casal: fotografar as suas peças de roupas pelo chão e depois escrever a partir dessas imagens. Mas que roupas? As roupas que iam deixando pela sala, pelo corredor ou pelo quarto antes do ato sexual. Geralmente no dia seguinte pela manhã, fotografavam a cena que encontravam. E, semanas depois, quando acabava o filme – vale pontuar que esse projeto ocorreu no início dos anos 2000 –, mandavam revelar e se desafiavam a criar e escrever a partir do que estavam vendo em cada fotografia.
"Toda vez era uma surpresa. Não reconhecíamos de primeira o cômodo da casa onde a foto tinha sido tirada, nem as roupas. Não era mais a cena que tínhamos visto, que desejáramos salvar e que logo se perdeu, e sim um quadro estranho, de cores muitas vezes suntuosas, com formas enigmáticas. Impressão de que o ato de amor da noite ou da manhã – já tínhamos dificuldade em lembrar a data – era ao mesmo tempo materializado e transfigurado", conta Ernaux.
Aqui no exemplo mencionado, o casal utilizava fotos próprias para produzir literariamente, com a importância de deixarem a memória "esfriar" para a criação fluir mais. Mas o recurso da fotografia como impulsionadora da criação pode ser feito com fotografias que não conhecemos, que não são nossas. É uma técnica utilizada no teatro, inclusive, com os atores tendo que iniciar uma cena a partir da imagem de certa fotografia, por exemplo.
DICAS PARA ESCREVER A PARTIR DE FOTOS
- Coloque uma palavra ou frase no Google Imagens e se proponha a escrever uma história a partir de uma imagem que aparecer. Ou peça para alguém lhe enviar uma foto com este propósito. É possível também que escritores se provoquem mutuamente, com um enviando uma foto para o outro. Neste último caso, também é interessante fazerem, posteriormente, a leitura juntos. Em grupos de escrita este desafio se torna bastante oportuno: enviar a mesma foto para dez alunos e perceber que recebemos de volta dez histórias bem diferentes.
- Sobre a produção a partir de imagens, Ernaux menciona que "sempre tem um detalhe na foto que prende o olhar, um detalhe mais comovente que outros". Experimente começar sua história a partir do detalhe em questão. Por exemplo, se a imagem mostra uma pessoa usando uma roupa amarela que chama a atenção, a história pode girar em torno disso, criando uma ficção em que um personagem não usava mais a cor por determinado motivo e, no dia daquela foto, algo o fez usar novamente, e se deixou fotografar assim. Ou seja, a história foi criada a partir do detalhe da imagem, a partir do detalhe da roupa.
- Um outro ponto interessante a se pensar é pontuado por Marc Marie. "As fotos mentem, sempre. Muitas vezes fiquei chocado com fotos de férias em que casais, no auge da felicidade veranil, se colocam ao lado de sua prole radiante. Pensamos que adoraríamos estar no lugar deles. Esquecemos que dez dias depois se separaram. Que passaram os seis meses seguintes brigando pela guarda da criança." Tendo nas mãos uma foto como essa, por exemplo, em que todos sorriem abraçados, podemos criar uma história que mostre a realidade sendo bem diferente daquilo que a imagem aparenta. Uma família, por exemplo, passando por alguma questão, mas que, na hora de se deixar fotografar, só mostra sorrisos.
Bruna Tessuto formou-se em Teatro pela UFRGS e é graduanda em Letras pela mesma universidade. Atua como editora e promove mentorias em parceria com a Metamorfose, onde também coordena grupos de leitura e escrita e atua como professora no Curso de Formação de Escritores, do qual é egresssa. Lançou os livros "Os bastidores de Emma" (2018), "Pela voz delas" (2022) e "Até que o divórcio vos reúna" (2024), todos com ficcionalização de histórias reais. É vencedora do Prêmio Minuano de Literatura 2025 - categoria Juvenil. Desde 2020 interpreta a fantasma Dulce Miranda nas Visitas Guiadas do Theatro São Pedro.