por Ana Cristina Sampaio Alves
— Vocês já se conhecem? — perguntou a dona da casa, antes de deixar escapar um sorriso.
Ele não disse: "Nos conhecemos, inclusive, no sentido bíblico. Foi o amor da minha vida."
Eu até teria gostado de ouvir uma frase tão ousada. Mas era esperar demais. Em vez disso, limitou-se a um lacônico "Já", e sentou-se ao meu lado.
Foi assim que nos reencontramos anos depois. Ele estava bem magro, a paralisia facial melhorara bastante após as cirurgias no rosto, porém mantinha uma bengala diante de si, como a me mostrar que aquela sequela permanecera e, provavelmente, o acompanharia até o fim.
O burburinho da festa seguiu para o jardim. Ficamos sozinhos. Por um instante, apenas nos olhamos. Então iniciei a conversa:
— Você está ótimo, seu sorriso melhorou muito, parabéns.
— Não estou como gostaria, mas essa parte está melhor, sim.
— Seu equilíbrio não melhorou?
Ele limitou-se a mostrar a bengala. Prossegui:
— Continua a fisioterapia?
— Continuo por minha conta. Cansei de fisioterapeuta, horário, clínica.
— Entendo. Já faz uns dez anos que você operou o tumor, né? E... está tudo bem? Espero que não tenha voltado.
— Ah... fiz a ressonância mês passado. Não tem nada.
— Graças a Deus.
Um silêncio se seguiu. Percebi que estava fazendo perguntas demais. Os amigos chegaram na sala e sentaram-se ao nosso redor. Levantei-me para buscar uma taça de vinho e perguntei se gostaria de uma bebida. Respondeu-me que não, que estava bem. Trouxe, mesmo assim, duas taças de Catena.
— É o nosso vinho, lembra?
Levantamos as taças num brinde.
— Ainda compro de vez em quando, mas quase não bebo mais — Ergueu a bengala num gesto bem-humorado.
— Sabe, tenho saudade de quando a gente comprava uma garrafa e dançava Disco Music na cozinha.
— Você quer dizer que você dançava na cozinha. Eu te acompanhava.
— Não, isso depois da cirurgia, né, porque antes você era um pé de valsa. Lembra que dançávamos bolero, salsa? E Luís Miguel? Caramba, você sempre gostou de música latina. Ah... e Jarabe de Palo?
Ele baixou a voz e cantou a estrofe:
— Por un beso de la flaca daría lo que fuera, por un beso de ella aunque sólo uno fuera.
Nossa risada saiu solta, relaxada, íntima. Pude reparar que o lado direito do rosto dele se contraía, formando quase uma boca de palhaço. Desviei o olhar.
— Você sempre me faz rir.
Eu também sorria. Era como chegar em casa.
— La Flaca, nunca vou esquecer.
Peguei na mão dele, que apertou a minha de imediato. Ficamos ali presos, emudecidos. Se os corações pudessem se sincronizar, os nossos batiam o mesmo compasso. Ele arriscou:
— Eu não te esqueço. Até tento, mas não consigo.
Respirei fundo, fixando aqueles olhos cor de mel que sempre achei tristes, as pálpebras caídas. Tirei a minha mão da dele.
— Você não vai fazer essa pálpebra? Não sei como enxerga por trás dessa pele toda. Já te disse que o plano de saúde paga, né?
Não respondeu, apenas tomou mais um gole de vinho e levantou a taça.
—Saúde.
Fui buscar algo para comer e retornei com dois pratos cheios de salgadinhos, queijos e pastinhas. Reparei que comia lentamente, usando um lenço tirado do bolso para limpar a boca, que salivava sem parar.
Levantei-me para buscar mais vinho. Quando retornei, ele caminhava em direção à porta com passos muito lentos, segurando nos móveis e nas paredes. Peguei a bengala, que ficara ao lado da cadeira, e o segui para lhe entregar.
— Você esqueceu. Não ia se despedir de mim?
Ele pegou a bengala e repeliu meu braço quando o ofereci. Não se virou até chegar à porta.
— Você tá dirigindo?
Não respondeu. O motorista do carro parado à frente desceu e lhe deu o braço, ajudando-o a entrar. Aguardei que descesse o vidro. Pigarreou, como sempre fazia quando a voz embargava, e me disse:
— Vai ficar tudo bem.
Após o carro partir, retornei à festa. Queria pegar minha bolsa e me despedir. A dona da casa chegou perto de mim e sussurrou:
— O tumor voltou.
Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita.
Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.