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Valor

Valor

por João Vitor Lucio Carvalho

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Ela acendeu as luzes e entrou. O homem veio logo atrás, com uma prancheta na mão. Seus olhos corriam pelos cantos do quarto, cobrindo cada detalhe por onde rolavam.

Todos os móveis daquele cômodo eram planejados. Não havia um sequer que não parecesse pertencer àquele pequeno mundo de quatro paredes amarelas.

— Isso com certeza vai valorizar bem o imóvel! — O homem escreveu algo em sua prancheta.

As pelúcias estavam organizadas por ordem de tamanho em uma prateleira sobre a cama. A lã dos bonecos brilhava como se eles nunca tivessem conhecido o toque de uma criança.

— Era o quarto da minha filha. Tínhamos acabado de reformar.

A mulher deu leves batidas no travesseiro e estendeu ainda mais o lençol da cama, até o limite.

— Perdão, dona Luana, mas não pude deixar de notar. — O homem fixou os olhos em um canto. — Aquilo ali é uma mancha?

Uma faixa escura e esfumada se estendia por pouco mais de um metro do rodapé. Entre o amarelo das paredes, os móveis impecáveis e as pelúcias enfileiradas, aquele borrão era impossível de ignorar.

— Ah, não é bem assim. — A mulher se abaixou diante da mancha. — Todas as semanas nos reuníamos aqui pra marcar sua altura na parede. Seus olhos brilhavam pra mim quando percebia que não tinha crescido. E enfiava a cabeça no meu colo pra enxugar as lágrimas. Foi só aos oito anos que ela começou a espichar. Cada semana ela crescia mais um pouco. Continuava me encarando. Os olhos permaneciam os mesmos, mas o brilho era diferente, agora acompanhado de um sorriso. Um metro e trinta e dois. Foi a última vez. Ela queria muito crescer.

O homem se curvou e correu a mão pelo borrão. Podia sentir as ranhuras deixadas pelos riscos sobre riscos.

— Entendo, dona Luana. Mas é melhor cobrir logo essa mancha. Vai desvalorizar o imóvel.

 

João Vitor Lucio Carvalho
João Vitor Lucio Carvalho
Sumare/SP

João Vitor Lucio Carvalho

João Vitor sempre demonstrou interesse por atividades criativas, participando de aulas de desenho e oficinas de teatro na infância. Foi, porém, na adolescência que descobriu seu interesse pela literatura. A partir de então, passou a escrever com maior frequência, explorando diferentes gêneros e desenvolvendo uma identidade própria como autor. Após concluir a escola, manteve a escrita como uma prática constante, buscando aprimorar suas habilidades e ampliar seu repertório literário. Entre seus principais interesses estão os contos, especialmente aqueles que exploram a complexidade psicológica dos personagens e seus conflitos internos.