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Vestidos

Vestidos

por Ana Claudia Farranha

Vestidos

Há alguns anos vi o filme Divã e me chamou muito a atenção uma cena em que a personagem principal, representado pela Lilian Cabral, compara o marido a um vestido Armani que deixou de servir nela. Achei bárbara a comparação e, muito recentemente, pensando com meus botões, compreendi que cada um dos amores/namorados/ caras que me apaixonei eram vestidos. Vestidos mais ou menos assim.
O primeiro deles era um vestido que cobriu minha pele num tempo que precisei de calor e aconchego. Esse vestido meio incomum, mas totalmente adequado para minhas necessidades. Quente, sem ser de flanela. Pronto, para todas as ocasiões e companheiro de boas e inesquecíveis horas. Um dia parou de caber. Acho que cresci, perdi o corpinho de menina, engordei, passei a sentir menos frio e, ai, deixei de usar.
Para o meu novo corpo, mais gordo e calorento, meu coube um vestido esvoaçado. Para usar em algumas ocasiões e, certamente, era um vestido que voava...Voou. Quase fiquei nua, mas há sempre um vestido.
Veio outro alegre e perfumado. Sorridente!!! Encantador. Coube por um pouquinho. Passou. Talvez as flores tenham murchado e o perfume sumido.
E, então, passei a usar um vestido lindo. Verde da cor do mar, mas como eu não sou chegada a mar, deixei em Vitória e mudei para o Cerrado.
Por aqui, vesti outros vestidos. Um formal, elegante, pouco adequado para esse meu jeito serelepe de ser. Veio outro que nem virou vestido, passou a morar no meu armário-coração e virou um dos meus grandes amigos.
Teve um que era um vestido de prenda. Engraçadíssimo!!! Mas, como sou uma carioca – meio mineira e meio baiana – não coube direito em mim e, resolvi deixar para os carnavais. Fantasia da avenida.
E, claro que apesar de boa-moça, tive um vestido devasso. Vermelho. Curtíssimo. Arrebatador. Mas, usado em tão poucas ocasiões, e às vezes eu ficava era meio sem jeito de sair com aquele vestido. Deixei num antigo brechó que sempre se agradou mais dele do que eu.
E, por fim tive um vestido da Bahia. Ótimo. Florido e colorido. A parte boa de Salvador. Mas, lá na Bahia ficou.
Nesse exato momento, vejo muitos vestidos. Pretinhos básicos – já usados, mas dignos de serem considerados verdadeiros Armanis. Outros, muitos simples. Outros, sofisticados. Outros sem muita vontade de entrar na liquidação. De tudo isso, tenho uma certeza, o vestido é sempre importante, sem dúvida, mas, o mais importante é a dona que veste, pois é nela que reside a beleza do corpo, da alma e das memórias e boas lembranças dos vestidos que vieram e de outros que estão por chegar.

Ana Claudia Farranha

Ana Claudia Farranha é escritora, pesquisadora e Professora Associada da Universidade de Brasília (FD/PPGD/ PMPD e PPGD/EAGU). Doutora em Ciências Sociais e mestre em Ciência Política pela Unicamp, com estágio  pós-doutoral realizado na  University of Oklahoma (EUA) e IESP/UERJ, acumula destacada atuação no Direito Público, na Administração Pública e em conselhos editoriais, como o do Senado Federal. Atualmente está em fase de conclusão da  graduação tecnológica em Gastronomia no SENAC/SP, expandindo sua produção autoral para a literatura de não ficção, crônica de costumes e narrativas de memórias culinárias, articulando reflexão social, cotidiano e afeto em torno da cultura alimentar. Publicou o livro Receitas e Risadas : memória, saúde e sabor à mesa em que relata suas histórias e vivências na cozinha. Se interessa também por poesia e crônicas e contos