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Violeta

Violeta

por Bruno Banar

Violeta

Uma bela flor murchou pelo calor. Uma violeta delicada, mais uma entre tantas no vaso, envolvida por uma incomum luz amarelada — mágica —, mas que não maravilhava; disseminava destruição. E assim, a flor virou cinzas. Ao redor, o casebre ardia, e o crepitar da madeira prenunciava o desabamento. A porta indicava a saída, barrada pelos destroços do telhado incendiado. Desistir, talvez, fosse o melhor a se fazer; contudo, o choro da filha fez Anna precisar sobreviver.

Ofegante, ela atirou uma panela contra a janela. Uma lufada de ar fresco aumentou as labaredas. Afastou-se do invasor que se debatia na sala, flamejando desesperado. Procurou pela filha, que tremia no canto com a mãozinha queimada, e tomou-a no colo.

— Calma, meu amor.

Tirou a menina pela abertura, cuidando para não arranhá-la no vidro.

— Mamãe está aqui!

Deixou-a na rua, longe do perigo imediato.

Antes de escapar, apanhou uma faca na cozinha e a escondeu nas roupas. Limpou a visão atrapalhada pelos cabelos soltos, vendo seu lar incinerado. Não se permitiu uma lágrima. Depois, saltou pela janela e agarrou a filha.

— Estão fugindo!

Correu por uma viela. Esbarrou em um morador desavisado e ziguezagueou pelo casario, mirando a cidade morro abaixo, mas não despistou as tochas. Os ipês balançavam na via principal; as folhas arrancadas pelo vento. Os transeuntes abriram caminho para a passagem da dupla em fuga, enquanto os perseguidores gritavam para que impedissem as bruxas.

Um forte impacto atingiu suas costas. Logo ouviu o disparo.

Vacilou, o coração palpitando um gosto amargo na boca. Perdeu o fôlego. Um buraco sangrava-lhe o peito, e tudo escureceu... Despertou, reunindo forças para se arrastar ao refúgio mais próximo: uma taberna. Tulipas a conduziram à entrada. No interior, um palco barulhento ofuscava as mesas tumultuadas.

Anna empurrou a criança para o salão:

— Alguém! Por favor... tire minha filha daqui!

Assustados, os clientes permaneceram imóveis. Alguns se afastaram.

Ela suplicou mais uma vez. Mas de repente um puxão a derrubou.

— Pronto, tá comigo. — Um lavrador corpulento suava aos montes. Esbaforido, tornou a falar: — Essas bruxas vão para julgamento.

Anna reagiu, pegou a faca que havia escondido e cravou-a nele.

— Puta!

Ele cambaleou, arfando violentamente.

Retirou a arma ensanguentada; furioso, arremeteu contra a moça e furou-lhe a carne. Então repetiu o movimento.

E de novo.

Sem forças, Anna só pôde olhar uma última vez para o amor de sua vida, como se o mundo inteiro se condensasse naquele rostinho. Percebeu aliviada que alguém a protegia, segurando-a pelos ombros. E mesmo aos prantos — de olhos arregalados e mão estendida —, ela continuava linda. Os cabelinhos bagunçados a lembravam das incontáveis vezes que os penteou, desembaraçando os nós com a escova e atando um laço amarelo. O toque macio das bochechas, a melodia da risada inocente... No fim, nada mais importava além daquele último vislumbre de sua passarinha.

Aos poucos, a agonia deu lugar à esperança, e a jovem mãe murchou em boas lembranças.

 

Um conto de Soluna

Bruno Banar
Bruno Banar
Resende/RJ

Bruno Banar

Bruno Banar é um escritor e roteirista de fantasia que também atua como leitor crítico. Sua formação inclui o Curso Online de Formação de Escritores, bem como a Oficina de Contos e o Ferramentas e Teorias da Ficção, ambos pela Oficina Literária, além de ter participado das edições de 2025 e 2026 do Retiro Literário, dos professores Eduardo Spohr e Thiago Cabello. Estreou no mundo da escrita com a participação na coletânea Contos Animais, da editora Metamorfose, e atualmente trabalha em Soluna, um universo ficcional ambientado nos séculos XVII e XVIII que traz a temática de bruxaria e inquisição.