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Yule

Yule

por Bruno Banar

Yule

O vendaval esmurrava a porta num frenesi, batendo-a como se tentasse me atingir; das frestas ressoava um assobio, nem um pouco convidativo. Meu casaco tentou fugir, no entanto agarrei-o com força e protegi o pescoço. Girei: lá estava a lareira, esperando acolhedora. Arrisquei dois passos, esperançoso de ficar mais um pouco, mas fui detido por uma mão gelada.

— Anda logo, moleque!

— Dane-se aquele velho estúpido! — rosnei.

Ah! Fui surpreendido por um tapa no rosto, que pegou do queixo à orelha.

Segurei o choro na garganta, mas só por um instante, até que explodi em um grito. Depois a encarei: estava diferente, uma outra mulher; rígida, parada à porta, com os cabelos ruivos esvoaçando. Os olhos avermelhados, a boca azulada e as sobrancelhas me repreendendo.

— Mãe...

Não... esse era um apelido muito gentil. Raposa? Soava melhor... Chamei-a de idiota e voltei para a lareira, só que ela me puxou. Não fazia sentido! Por quê? Justo quando me fez tomar banho, usar a melhor roupa e jantar um pratão de joelho de porco com polenta. Para onde mais iria senão para a minha cama? E agora queria me atirar no gelo? Louca!

— Ai! — Ela me puxou pela gola. — Eu não vou!

— Pare de perturbar, garoto!

Desabei na neve, que retribuiu um arrepio. Espirrei. Enfim estava fora, tentando me orientar enquanto batia o queixo. O vilarejo era um vulto esbranquiçado. Então, subitamente lembrei:

— E o frasco? — completei num murmúrio: — Idiota...

Ela voltou resmungando.

Fiquei sozinho, ouvindo um tilintar apressado. Era a placa da nossa casa, pendurada por correntinhas no telhado, que lutava para se manter firme contra o vento. Ela anunciava os Martel, a tradicional família de ferreiros, mostrando os nomes dos que moravam aqui.

Todos...

... menos o meu.

A raposa retornou com um baque da porta. Pôs um cachecol de lã em mim e me entregou um frasco de vidro, vazio e terrivelmente frio. Tive vontade de largá-lo, contudo o envolvi com as duas mãos, convencido de que não havia alternativa.

— Muito cuidado, menino.

Cuidado? Me cobrando por algo que não tinha comigo. E ela sequer me dava um nome... parecia até ser proibido! Por onde passava, era apenas "menino", "garoto", "ei, você". Ou pior, quando meus primos zombavam junto das outras crianças: "sujo", "esquisito". Idiotas. Que culpa eu tinha? De nascer numa terra de ruivos com essa droga de cabelo preto? E os adultos ainda cochichavam: "bastardo".

Pobre raposa, condenada a cuidar da aberração.

Dizem que fui largado aqui em Svarog, desprezado como um cão. Não fosse a tal "piedade" do comissário, não viveria assim... já estaria nas profundezas da Nãnilê! Mas não, ele insistiu... e deu à própria filha a missão de cuidar do bebê abandonado, tornando-a tão asquerosa quanto. O que o vô tinha na cabeça?

Ela acenou e seguimos pela alameda principal, forçando os pés na neve. A grama chacoalhava em folhas cristalizadas, quebradiças com a pisada. As construções pareciam amontoados de pedras, tão insignificantes se olhássemos para a cordilheira que nos envolvia. Os picos rasgavam a nevasca, fazendo a ventania uivar de nervoso.

Como eu odiava o inverno.

Subimos um monte, quase que escalando para chegar no topo. Era o caminho do hospital, o lar do velho. Mas o visitaríamos logo agora? Não havia nem luz nos postes, a não ser pelo lampião que a raposa carregava.

— Por aqui. — Ela desviou o rumo.

Atravessamos uma viela, acompanhados pelos tilintares das placas. Era a área dos Foelgard; da Sofia, que vivia debochando de mim. Na outra esquina ficava a pensão dos Hallberg; do senhor Oskar, que fazia questão de me expulsar dali. Precisávamos mesmo vir por aqui? Nos aproximamos de outra casa, diferente das demais, feita de painéis de vidro. No portal: "Estufa Kvetov".

Entramos. Não estava exatamente quente, só mais agradável. E exalava um cheiro de lavanda. A raposa examinou a estufa com o lampião, encostando em uma ou outra erva.

Havia uma plantinha fedorenta, cheia de pequeninas flores brancas, aglomeradas como nas hortênsias. Perguntei se era um dente-de-leão, mas não era. Com uma tesoura, ela cortou uma rama, só que hesitou um pouco: as mãos tremiam; realmente estava frio. Depois, guardou-a no frasco e voltou a vasculhar. Logo paramos em outra planta estranha, com um fruto gordo no caule e umas pétalas feias por cima.

— Não tem nada melhor?

— É para o remédio do seu avô — respondeu, pegando um canivete.

Ela fez um corte no fruto. Em seguida, posicionou o frasco para recolher o leite que escorria. Entediado, deixei-a sozinha e explorei os fundos da estufa. Nada demais, apenas mato murcho e um tanto de musgo. Além disso, três pinturas emboloradas, emolduradas na parede. Interessantes. A primeira mostrava uma moça de sorriso agradável, segurando uma pazinha:

Mila Kvetov, a Querida.

1619 – 1704.

Era um retrato bonito. Ela posava na frente da estufa, quando ainda parecia nova. O próximo mostrava uma senhora bem idosa, abraçando outra mulher grávida em um lavandário:

Danica Kvetov, a Rosa do Sul.

1640 – 1728.

Já o último desenhava uma menina tímida, segurando um cesto de vime:

Mila Kvetov, a Jardineira.

1704 – 1742.

Embaixo das pinturas, uma plaquinha dizia: "Nas brevidades e acasos, formamos nossas jornadas". A frase estava enferrujada, e tive que raspar um pouco do musgo. Antes que pudesse descobrir algo mais, a raposa me chamou: entregou-me o frasco, que agora continha um líquido espesso, com restos de flores flutuando no interior.

Deixamos a estufa.

De volta à rua, vagamos por caminhos afastados, menos óbvios e ainda mais íngremes. Fiquei ofegante, com a respiração cortada pelo esforço. Que Soluê me ajudasse... Acho que fui atendido, pois as nuvens deixaram escapar uma mostra turquesa do céu, sugerindo uma melhora no temporal.

Chegamos em um portão de madeira, xucro, de aldravas grosseiras. O prédio também era bruto, parecendo um pedregulho. Ali tremulava uma flâmula hospitalar, indicando o posto de tratamento. Encostei na maçaneta, mas fui repreendido pois era o lugar errado.

O velho não estava aqui?

Para onde iríamos, afinal?

E o remédio?

Nos afastamos.

A estrada nos levou aos muros do vilarejo, no início do cânion que rasgava a cordilheira. Só me lembro de ter passado por lá uma vez, quando tentei fugir, mas fui impedido por um guarda que me carregou de volta.

Por que era tão difícil me deixar em paz?

Porém, agora eles abriram a porteira. Bom... provavelmente porque estava acompanhado da raposa. Alcançamos a trilha de fora que escalava o Maciço do Fim.

Estranho...

Não era um lugar proibido? Onde Nãnilê recebia os moribundos? Não se ouvia falar de uma subida à montanha normalmente, só quando alguém estava muito doente. E eu não participava dos ritos. Encarei a raposa: ela continuava com a expressão rígida, determinada; entretanto, com algo de sombrio no olhar. E eu carregava o frasco gelado...

— Que foi? — ela perguntou.

O remédio... não era do vô?

Definitivamente fui muito burro por acreditar nessa mentira.

Fui puxado outra vez. Obrigado a afundar os pés na neve e escalar a encosta. Tá bem... Eles finalmente se livrariam de mim? O que eu tinha feito? Nada! Mas... estava na montanha! Travei. E então ameacei abrir o frasco:

— O que está acontecendo? — Encarei-a. — Pode falar!

— Não! Por que não entende?

— O quê?

— Eu não... — a voz falhou. — Ora, só fique quieto e me acompanhe!

— Para eu morrer? Para me expulsar? O que você vai fazer?

Ela não respondeu.

— Se você não me disser, juro que arrebento esse frasco agora mesmo! É veneno, não é?

— Então arrebente, seu ingrato! Depois de tudo o que o seu avô fez para te acolher... Jogue logo e vá embora de uma vez! Eu não aguento mais, seu bast...

Ela não completou.

E eu não respondi, apenas parei. Então ela voltou a caminhar, estacando mais à frente na trilha. Me olhou novamente, sem dizer qualquer palavra.

Eu não era mais bem-vindo. Nunca fui, na verdade. Todos já deviam estar no limite, não aturavam mais a aberração vinda de lugar nenhum. Que se danem... nem sei por que estava lutando; pedindo para ficar onde não me queriam.

Apenas a acompanhei.

A rapos... "minha mãe" abriu uma portinhola enferrujada, que gemeu um rangido. O morro era salpicado por pedregulhos, e a trilha de cascalho subia como se fosse em um labirinto. Até que chegamos no topo: um platô, que abria uma clareira na montanha parecendo uma arena rochosa.

Tive uma sensação esquisita.

Uma sensação de ser vigiado.

A arena tinha arquibancadas, ocupadas por uma plateia de fantasmas. Eram rostos pálidos, me encarando de longe. E estavam por todos os lados. Meus pés gelaram, eu precisava sair dali! Mas... nada se mexia. O que eram aquelas coisas? Esculturas? Malditas esculturas!

E tilintares.

O platô estava infestado de caveiras, penduradas nos pedregulhos e tilintando uma música sinistra. Eram animalescas, feias, com chifres e olhares vazios de alces e iaques decapitados. No chão, velas derretidas formavam um caminho até uma parede da cordilheira, onde uma caverna obscura se abria, guarnecida por uma das estátuas de pedra. No interior, somente uma cama de mármore, forrada por uma coberta e almofadas púrpuras.

Pulei quando me tocaram no ombro.

— Veja — minha mãe disse, apontando para o sopé da cordilheira.

A ignorei por um instante, pois me desviei para o céu evitando o cenário macabro. Seu esplendor, de certa maneira, me acalmou um pouco. O turquesa estava inigualável, profundo, estrelado. Mais impressionantes eram as listras que o rompiam. Deixavam um verde-jade brilhante, como serpentes voadoras.

— É a noite mais longa.

Ela me abraçou pelas costas, pousando o rosto em mim. Estranhei, pois ele parecia molhado. Depois, percebi o que ela queria me mostrar: no início da trilha, o portão do hospital estava aberto. De lá saiu uma coluna de tochas, formada por dezenas de pessoas enfrentando o vento, subindo pelo mesmo caminho de cascalho.

À frente da marcha estava um velho magérrimo, de cabelos ralos e pele manchada. Um poncho preto cobria-lhe o corpo, junto de uma grinalda de prata de louros e diamantes vermelhos. Seus passos vacilantes foram apoiados pelos homens ao redor: meus tios, primos e outros conhecidos.

A figura decrépita era meu avô.

Minha mãe se desesperou, chorando como nunca.

O velho abraçou-a com carinho quando chegou, dando-lhe três beijos: dois no rosto e um na testa. Depois, voltou-se para mim com feição tranquila, e afagou meus cabelos.

Por fim, falou à multidão:

— Acalmem-se... — Tossiu, as palavras saíram com dificuldade. — Pois há um novo começo...

Silêncio, apenas o vento assobiando.

Todos se uniram em um semicírculo para escutá-lo, me deixando ao centro junto dele e da entrada da caverna.

— Este é o nosso ciclo: para que um se abra, outro deve terminar. E não importa quão gloriosa tenha sido, toda era tem seu fim.

Ele fraquejou, mas apoiou-se na estátua que representava um guerreiro portando um martelo. Admirou-a por um momento.

— Eu fui Yule, o Vermelho. Lutei pela nossa liberdade... e a conquistei! Guiei-os na busca da paz; porém, tudo se desfecha... E pela tradição de nosso povo, para que se torne um de nós, este menino merece um nome!

De novo, aquela sensação esquisita.

— Foi-nos entregue pelo destino um menino abandonado. Sei que foram contra, mas peço que tenham outra visão, pois ele nos representa a mudança; e por mais intimidadora que seja, sempre nos será necessária. Nossa Svarog acolherá um novo sol!

O velho se curvou, me encarando nos olhos.

— Lembra-te de todos nós, garotinho: do Yule, o Primeiro; então, do Ferreiro... do Navegador; e por fim, do Vermelho.

Ele me estendeu a mão, como se esperasse algo.

Fiquei sem saber o que fazer, sentindo a testa arder. Então pensei melhor: o remédio! Tenso, entreguei-o ao meu avô. Ele retomou o discurso:

— Eu te nomeio Yule! A partir desta noite, tens mais que uma família... tens um povo! Que cuidará de ti e celebrará tuas vitórias. Faz do teu nome uma boa memória, e conquista um título que melhor te represente. Não te abstenhas pela dificuldade; honra primeiramente o teu legado.

Eu... As palavras não vinham nem na minha mente.

As tochas crepitavam. E ecoava um choro abafado.

Com movimento ensaiado, meu avô abriu o frasco e bebeu em um só gole. Depois ergueu-se, ajeitando a postura. Fitou a cama que o aguardava e, antes de deitar-se pela última vez, disse-me com um sorriso:

— Aproveite a jornada, Yule.

 

Um conto de Soluna

Bruno Banar
Bruno Banar
Resende/RJ

Bruno Banar

Bruno Banar é um escritor e roteirista de fantasia que também atua como leitor crítico. Sua formação inclui o Curso Online de Formação de Escritores, bem como a Oficina de Contos e o Ferramentas e Teorias da Ficção, ambos pela Oficina Literária, além de ter participado das edições de 2025 e 2026 do Retiro Literário, dos professores Eduardo Spohr e Thiago Cabello. Estreou no mundo da escrita com a participação na coletânea Contos Animais, da editora Metamorfose, e atualmente trabalha em Soluna, um universo ficcional ambientado nos séculos XVII e XVIII que traz a temática de bruxaria e inquisição.