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Samantha

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O pobre rapaz, com os olhos esbugalhados e o sangue escorrendo pela boca, só conseguiu balbuciar suas últimas palavras. A falta da língua já não lhe permitia expressar as palavras com clareza.

— Por quê? por quê? — repetiu a pergunta algumas vezes, cada vez mais embolado e menos audível, até calar de uma vez por todas.

Um leve sorriso se desenhou no rosto impassível de Samantha, mas o olhar opaco e sem vida combinava com o do morto à sua frente.

— Achei que ele não ia parar nunca de falar — resmungou para si mesma. 

Agora ela precisava correr se não quisesse se atrasar para seu próximo compromisso. Todos os preparativos ali ainda iam tomar muito tempo e ela não podia confiar aquilo a nenhum dos seus auxiliares. Ouviu-se, ao fundo, o ladrar dos cães. "Meus amiguinhos vão ter comida para a noite toda".

Samantha abriu sua mala de instrumentos. Retirou um cutelo e uma serra. Seriam suficientes para fazer todo o trabalho. Infelizmente ela não tinha muito tempo para se divertir com todos os seus brinquedinhos afiados e pontiagudos. precisava ser objetiva. "Esse idiota atrapalhou tudo. Perdi pelo menos duas preciosas horas", refletiu Samantha.

Depois de terminar a limpeza do lugar, ela arrancou com velocidade em sua Mercedes AMG GT. Dirigir em alta velocidade pelas curvas sinuosas das montanhas era o seu maior prazer. Ainda mais do que ouvir aqueles infelizes suplicarem por misericórdia, de joelhos, choramingando feito crianças até ela lhes cortar a língua.

* * *

Passavam dez minutos das vinte horas quando Samantha chegou ao restaurante.

— Boa noite, Carlos! Tem alguém esperando por mim...

— Sim, senhora. Ele está ali, na mesa 17, no canto do salão, como a senhora prefere.

— Obrigada, meu querido. Mande lembranças à senhora sua esposa — disse ela enquanto colocava uma nota de cem dólares na mão do recepcionista.

— Obrigado pela gentileza, madame. Vou transmitir seu cumprimento a ela. A senhora é uma pessoa muito gentil e bondosa.

Samantha dirigiu-se à mesa indicada pelo recepcionista. Ainda de longe viu um homem jovem, cerca de trinta e cinco anos, cabelos escuros, boa aparência. O homem olhou para ela com um sorriso confiante. Ela ajeitou o cabelo loiro e comprido com uma das mãos. Era um hábito seu quando se aproximava de uma de suas vítimas. Assim ela começava a enredar suas teias.

O homem levantou-se e puxou a cadeira para Samantha, ajudando-a a sentar-se.

— John Smith, à sua disposição — disse fitando nos olhos azuis de Samantha.

— Encantada, Sr. Smith. Lamento pelo atraso. Meu compromisso anterior demorou mais que o esperado.

— Não foi incômodo nenhum. O local escolhido por você é simplesmente encantador. 

— Hmmm, muita gentileza de sua parte, Sr. Smith. Acho que vou prender você por um bom tempo aqui. 

Os dois riram do comentário.

* * *

O jantar foi regado a vinho, amenidades e muitos sorrisos descontraídos. Samantha interrompeu a conversa, convidando John para um passeio à luz da lua, no jardim em frente ao restaurante. O jardim se contorcia em volta de um bonito lago onde a lua cheia se refletia. A noite estava fresca, mas agradável. Os dois andavam juntinhos. Samantha apoiava-se no braço de John e vez por outra encostava a cabeça em seu ombro. Após algum tempo de caminhada, John começou abrir a boca.  

— Minha companhia começou a entediá-lo, John?

— Mil desculpas, Samantha. Não sei o que está acontecendo comigo. Não consigo manter os olhos abertos. Devo estar muito cansado do trabalho. Mais uma vez peço desculpas.

— Não é nada, querido. Sei como se sente. Vamos, você não pode dirigir nesse estado. Eu o levo no meu carro.

Samantha guiou John até o carro. Ele entrou com alguma dificuldade e recostou a cabeça no banco. 

— Vamos, querido John. Logo você irá descansar e não sentirá mais nada. "o calmante demorou muito a fazer o efeito", pensou ela com certa irritação.

— Obrigado por tudo, minha doce Sam — disse John com a voz trôpega — foi uma noite inesquecível, querida.

— Sem dúvida essa ainda será uma noite inesquecível. Principalmente pra mim, meu querido.

A Mercedes deslizou pela estrada. À medida que as curvas se sucediam, a lua às vezes se mostrava pela janela do carona e logo em seguida desaparecia novamente.

* * *

Meia hora depois eles chegaram à casa de Samantha. Era uma casa magnífica, com dois pavimentos, uma imponente fachada de vidro. A porta automática da garagem abriu-se. Lá dentro havia outros carros de luxo. Samantha estacionou, deu a volta e foi ajudar John a descer. Ao abraçá-lo, sentiu uma forte fisgada em suas costas e caiu. Ao recobrar a consciência, encontrava-se algemada na sala de estar. À sua frente, John a observava.

— Olha quem acordou!

— O que significa isso, querido? Quer brincar de polícia? — perguntou ela com expressão de dor. — Essas algemas estão me machucando, John.

— Então é aqui que a viúva negra devora suas presas! — continuou John.

— O quê... o quê você quer dizer com isso, querido?

— Ora, pare com isso, Samantha. Eu já sei de tudo — disse John exibindo um distintivo policial. — Não posso negar. Você é muito inteligente e dificultou nosso trabalho, mas agora acabou.

— Está perdendo seu tempo, bobinho — disse ela com uma gargalhada forçada. — Nenhuma comunicação sai dessa casa sem passar antes pelos meus homens. E só aquilo que eu quiser, pode sair.

— Você está blefando, querida Sam — disse John, olhando o celular como se estivesse aguardando alguma resposta.

— Vamos ver quem tem razão. Vocês, homens, são todos iguais. Sempre donos da razão. Sempre senhores de si. Sempre conquistando o coraçãozinho da donzela em perigo. Todos iguais. TODOS IGUAIS. Senti prazer na morte de cada um daqueles cafajestes e vou sentir ainda mais ao ouvir você suplicar piedade, de joelho, aos meus pés. Vou sentir o medo nos seus olhos. Mas você não verá nada nos meus. Apenas desprezo. 

Terminou sua fala cuspindo no rosto de John.

Logo em seguida a porta abriu-se e dois homens entraram com arma em punho.

— Agarrem esse inútil, mas lembrem-se que preciso dele vivo.

Os homens de Samantha renderam John, obrigando-o a soltar sua arma. Em uma última tentativa, ele reagiu chutando a mão do homem mais próximo. A arma foi parar do outro lado da sala. Mas antes que pudesse correr para pegá-la, sentiu uma pancada na cabeça. O mundo escureceu.

— Soltem-me logo — ordenou Samantha. — E levem esse abelhudo lá para baixo e o amarrem bem. Não quero ser surpreendida por outro de seus truques.

Os homens levaram John por uma porta escondida na estante. A passagem secreta levava a uma escada e daí até o porão. Uma sala ampla com muitos armários em volta. No centro, uma mesa de aço, onde os homens o colocaram e o prenderam. Mãos e pés foram presos por alças fixadas na mesa. A mesa logo se tingiu do sangue que escorria do ferimento na cabeça de John.

Samantha pegou sua maleta de instrumentos. Retirou dela uma serra, um alicate e um pequeno machado. Ela manuseava os instrumentos com certa displicência. Era uma tarefa da qual ela precisava se desincumbir o mais rápido possível.

John abriu os olhos, que aos poucos foram captando a cena de horror em que se encontrava. Samantha estava ao seu lado com um alicate em sua mão direita, enquanto a outra segurava-lhe o queixo.

— Por que vocês demoraram tanto, seus incompetentes? — perguntou Samantha enquanto aproximava o alicate do rosto de John. 

Os dois capangas olharam-se, confusos. Um deles adiantou-se a responder.

— Nós chegamos na hora exata de nossa ronda, madame, como todos os dias.

As mãos de Samantha pararam no ar.

— Vocês não interceptaram a mensagem do policial?

— Mensagem! Não, senhora. Não identificamos nenhuma mensagem.

O homem mal terminou de falar, ouviu-se uma explosão. Do meio da fumaça e da poeira, saíram cinco policiais fortemente armados. Ação e reação se deram em segundos. Os capangas atiraram contra os policiais e foram abatidos. Samantha apertou um botão e a sala se encheu instantaneamente de uma fumaça densa. 

Logo que a fumaça começou a se dissipar, os policiais vasculharam o lugar, mas Samantha havia desaparecido. Certamente havia alguma passagem secreta em meio a todos aqueles armários e portas ao redor da sala. 

— Vejam só isso — observou um dos investigadores enquanto batia no chão no lugar exato em que Samantha estava quando invadiram o local, — tem algo estranho nesse piso.

Mas por mais que procurassem, nada indicava a existência de algum tipo de alçapão.

O delegado se aproximou da mesa.

— André, você nos ouve?

O chefe soltou André e desligou o celular que se encontrava no bolso dele, ainda conectado. André o havia ligado desde que chegara ao restaurante.

Ainda se recuperando do golpe na cabeça, André deixou escapar um sorriso em meio à expressão de dor quando ouviu o delegado falar.

— Meu caro amigo, devemos mais essa à sua coragem, mas da próxima vez vou pensar duas vezes antes de transformar em isca um dos meus homens. Ana vai querer me matar quando souber que eu o coloquei nessa situação.

 

 

Alexis Rodrigues de Almeida

Alexis Rodrigues de Almeida é escritor apaixonado por grandes clássicos da literatura. Autor de alguns contos publicados em coletâneas, explora temas como relações familiares, dilemas éticos, sempre buscando contar uma boa história, que traga reflexão para os leitores de uma forma prazerosa. Participou de diversas coletâneas de contos, e atualmente dedica-se a escrever sua primeira narrativa longa.