por Ana Crís Wey
Eu ainda carregava o frescor da juventude, quando a cidade luz acendeu-se para mim. Pelas mãos de meu marido chegou a oportunidade de voar, para aquela que se tornou o centro do iluminismo. Eu, que lutava para compreender a língua mãe com maestria, não tinha a menor ideia de como pronunciar qualquer palavra, que ultrapassasse o bonjour. Mas sonho era sonho, e disso, eu não abriria mão.
Fiz o maior malabarismo da história da educação desse país, e consegui folga de uma semana no trabalho. Fomos de mala, cuia e esperança cruzar o atlântico que, além de azul, agora também era branco e vermelho.
Os anseios passeavam pelos clássicos; torre Eiffel, lagosta, café com croissant, crepe suzette, fromagerie com vinho local; para degustar. Navegar pelo Sena ao pôr do sol, Ponte das Artes com direito a cadeado de amor, e, claro: o Louvre, para apreciar. Das 600.000 peças que esta antiga fortaleza medieval ostentava, demandando meses para se absorver o seu universo cultural, meus olhos só buscavam os dela: Mona Lisa.
Terça-feira, caminhada longa, melhor conhecer a cidade a pé, com céu azul que o inverno estampava. Frio insistindo em atravessar o corpo aquecido por café e croissant, antes da desejada sobremesa em tinta óleo.
Entrada pelo acesso principal da estonteante pirâmide de vidro, também vista por dentro do museu; escadarias, obras de arte por todo lado me enfeitiçavam. Tesouros gigantescos da antiguidade e da escultura clássica. Psique reanimada pelo beijo do amor, código de Hamurabi e Vênus de Milo. Eu, caminhava como uma deusa, entre as esculturas que me contavam a história das grandes civilizações; com cores, traços e mármore.
Ala Denon, 1º andar, Salle des États; seguindo o mapa, cheguei. Seu sorriso enigmático me esperava, bem ao alcance das mãos, se fosse permitido tocar em alguma obra de arte. No afã de realizar meu devaneio, quase esqueci que eu também festejava. Minhas três décadas de vida, contra os 523 anos de Gioconda, se aproximavam. Quem diria, parecíamos ter a mesma idade, quase irmãs, o par perfeito.
Me afastei de minha quimera para olhar o mapa e o que vi foi um mar de gente à minha frente. Um guarda a esquerda, outro a direita, en français, orientavam a fila. Por instinto me pus ali também e depois de uns 10 minutos, estava de frente para a musa. Na verdade a 4 metros de distância de minha Mona Lisa. Que desapontamento quando a vi envolta em um vidro, que depois descobri ser a prova de balas. O reflexo roubava-lhe o melhor de sua expressão, antes mesmo do suposto furto. Em seus 77 cm de altura, pequena para o padrão de pinturas clássicas, ela, uma folha de formato A2 expandida, me observava de todos os ângulos, em perfeito esfumado. Imitando a pequena multidão, saquei o celular e fiz a pior self da minha vida; difícil registrar sonhos.
Era tudo o que poderia ser de nosso primeiro encontro, conclui quase que resignada.
Descendo as escadas do museu, olhava para as crianças, meio eufóricas e entediadas, e pensava que recordações teriam dessa vivência. Eu, que tantas vezes busquei nos olhos da Mona Lisa respostas, era toda indagação e comunicação estética. Chegariam aquelas crianças à idade de Gioconda? Impossível. Conservar o mesmo frescor, em frascos de juventude eterna.
Em meio as minhas elucubrações, pensava se todo aquele frenesi fora em decorrência do roubo do quadro em 1991, por um italiano, onde antes disso ela era apenas uma entre tantas obras renascentistas. A cobertura da mídia internacional promoveu foco à obra e ao magnífico artista. Mona Lisa se tornou uma lenda. E como tal, miríades de interpretações começaram a surgir. De todas, a ideia de ela ser o próprio Leonardo da Vinci é a que mais me inquietava. Para mim, somente uma figura feminina poderia ter olhos de medusa, assim como os dela.
A caminho do hotel, enquanto saboreava um crepe, Paris me pareceu dona de volúpia e vontade próprias. Os italianos que me perdoassem, mas não havia casa melhor para Gioconda seguir reinando. Contei ao meu marido as peripécias do dia, enquanto ele me narrava, sem emoção, sua rotina de escritório em Paris. Um dia típico de um executivo, dando-me a impressão de que a luz e a criatividade dos franceses, habitava mesmo em outro lugar.
No dia seguinte depois de caminhar na ponte das Artes, tendo o Sena como moldura, voltei ao museu do Louvre apostando que o segundo encontro, seria melhor que o primeiro, como em geral costuma ser.
Educadora com especialização e Pós graduação em Educação Infantil e Alfabetização, ao longo de mais de duas décadas, atuando na rede pública municipal de São Paulo e em diversas escolas particulares. Trabalhando como professora alfabetizadora na última década no Vietnã e naTailândia. Finalizando a Formação de Escritores pela Metamorfose, tendo participado da coletânea "Toda Forma de Amor". Atualmente em processo de finalização da primeira publicação.