por Ana Cristina Wey
Quero ainda parir um protagonista que me acompanhe, lado a lado feito sombra. Que tenha tanta voz narrativa que no mínimo me ensurdeça, caso eu não coloque seus predicados e verbos, nos lugares almejados.
Ambiciono também que sua presença, com traços fortes de caráter, me ajude a construir uma trama, uma tessitura dessas de aracnídeo, que quando menos se espera, envolve a presa no tempo exato da fome da aranha.
Não quero vestir meu personagem com qualquer palavra ou frase de métrica equivocada, correndo o risco de confundir belo com bonito. E sim, me demorar na abertura do primeiro parágrafo, com a cena perfeita, sem adjetivos ou advérbios penetras. Quero palavras nuas, adornadas de ações mostradas, e não de sumários mornos.
Quero trilhar uma narrativa com esse meu personagem esférico, de alta profundidade e múltiplas camadas, dando a ele boas companhias, algum antagonista, e, outros tantos de face plana, que o ajudem a iluminar, sustentar ações; com contrastes, conflitos adicionais, coerência e certo desconforto. Sim, quero um protagonista que também incomode, que perturbe e invada os pensamentos do leitor, quiçá lhe dê calafrios e alguma insônia.
Desejo que esse meu companheiro, enfrente conflitos clássicos e também contemporâneos. Que seja inundado por um querer e que tenha objetivos, motivações e conflitos internos. Que almeje ser amado e odiado, a depender da página lida. Talvez incompreendido; jamais esquecido.
Vou negociar com meu protagonista, que comecemos a narrar pelas impressões que queremos causar no leitor, que mergulhemos no universo de deleite e maestria de Edgar Allan Poe; com toda morte, loucura, culpa e sobrenatural, que possamos sustentar. Isso determinará nossos caminhos e também um final surpreendente. Pode ser que o enredo todo não seja lembrado, mas o que meu personagem fez, como fez e porquê o fez; não passará desapercebido pelo leitor.
Eu quero mais, quero beirar a insanidade ou atravessá-la com pitadas de realismo mágico; que é onde eu descanso e me alvoroço como escritora. Quero Úrsula Iguarán, Clara del Valle e Macabéa. Poder escrever, reescrever incessantemente; com precisão linguística, inspiração, método e maravilhamento. Criando a atmosfera certa para a atuação.
Que possamos, eu e ele, invadir o texto com muitas figuras de linguagem, em especial as metáforas, para que possamos deslocar, abrir camadas para a imaginação, para um subtexto e a subjetividade do leitor.
Quero por fim, um protagonista, que ao atravessar seu arco de amadurecimento, enfrentando seus demônios, me leve com ele nesse ofício de amor e cólera, que é ser escritor.
Educadora com especialização e Pós graduação em Educação Infantil e Alfabetização, ao longo de mais de duas décadas, atuando na rede pública municipal de São Paulo e em diversas escolas particulares. Trabalhando como professora alfabetizadora na última década no Vietnã e naTailândia. Finalizando a Formação de Escritores pela Metamorfose, tendo participado da coletânea "Toda Forma de Amor". Atualmente em processo de finalização da primeira publicação.