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Conto 4: Fora do Lugar

Conto 4: Fora do Lugar

Conto 4: Fora do Lugar

Era domingo quando Bárbara chegou a Belo Horizonte para o congresso de arquitetura. Foi direto do aeroporto para o Expominas. Assim conseguiria assistir à abertura e participar do coquetel. Havia vinte anos, naquele mesmo lugar, quando fizera sua primeira apresentação oral em plenária.

— Que medo eu senti naquele dia?

Sempre comentava sobre a insegurança do início da carreira, quando quase sempre era a mais jovem da sala e, muitas vezes, a única mulher apresentando trabalhos em congressos e seminários de sua área.

Os anos passaram, e os rostos deixaram de ser estranhos. Tornaram-se familiares, quase amigos de encontros anuais. Era uma alegria reencontrá-los, acompanhar promoções, mudanças de escritório, ver as fotos dos filhos crescendo ano após ano nos celulares exibidos entre um café e outro.

Mas, naquele ano, algo parecia fora de lugar.

Os rostos conhecidos apareciam cada vez menos. Alguns colegas haviam se aposentado; outros já não apresentavam trabalhos. Talvez não quisessem mais viajar. Talvez não se sentissem atualizados o suficiente para continuar frequentando congressos.

Durante a sessão de abertura, Bárbara reconheceu apenas duas pessoas. Acenou para uma delas de longe, sem certeza se havia sido vista.

No coquetel, a sensação piorou. A organização contratara uma banda pequena que tocava músicas sem melodia reconhecível para ela, marcadas por batidas eletrônicas secas que pareciam vibrar no chão do salão. Ela segurou uma taça de espumante enquanto observava rodas de jovens arquitetos iluminados pela luz azul dos celulares. Pela primeira vez em muitos anos, sentiu-se como uma visitante acidental naquele congresso.

Depois de circular sozinha por alguns minutos, decidiu voltar para o hotel. Afinal, apresentaria seu trabalho na primeira sessão da manhã seguinte.

Como sempre fazia antes de uma palestra, ligou o computador, revisou os slides e cronometrou a apresentação.

Dez minutos.

Era o tempo exato de sua fala. Depois viriam as perguntas. Normalmente a melhor parte. Bárbara sempre gostara do debate, das conversas que continuavam nos corredores, dos cartões trocados ao final das apresentações. Ainda guardava no escritório uma caixa cheia deles, organizados por ano do congresso.

Na manhã seguinte, entrou no auditório carregando o notebook em sua pasta. Dirigiu-se à mesa onde três especialistas já a aguardavam. Nenhum rosto lhe era familiar.

Bárbara seria a segunda de uma sequência de quatro apresentações. Observou os outros palestrantes organizando seus tablets, ajustando microfones sem fio, trocando comentários rápidos sobre aplicativos e automação. Todos pareciam ter a idade próxima de Fábio, seu filho mais velho.

Em menos de cinquenta minutos, os quatro trabalhos haviam sido apresentados, e os palestrantes se posicionaram à frente para responder às perguntas da plateia.

Dois temas monopolizaram imediatamente a atenção do público: o uso de inteligência artificial no detalhamento de projetos arquitetônicos e agentes autônomos para levantamento e previsão de custos. As mãos se erguiam em sequência. O mediador sorria animado. Alguém na plateia fotografava slides.

O trabalho de Bárbara abordava sustentabilidade urbana e tendências de ocupação humana nas cidades médias.

Nenhuma pergunta veio.

Ela esperou alguns segundos, ainda com o microfone nas mãos, enquanto o mediador percorria o auditório com os olhos.

— Acho que podemos encerrar por aqui — disse ele.

E passou imediatamente a anunciar os temas seguintes.

Bárbara voltou para sua cadeira em silêncio. Não saiu para o café no intervalo. Também ninguém veio falar com ela.

Sentada no fundo do auditório, lembrou-se de outro encerramento, anos antes, quando ouvira seu nome anunciado no prêmio de melhor trabalho do congresso. Naquela noite voltara para casa radiante, carregando uma placa de homenagem e tantos cartões de visita que mal cabiam na bolsa.

Agora, observando pessoas jovens discutirem apenas ferramentas, Bárbara sentiu algo diferente além da tristeza.

Era apagamento.

Naquele instante, percebeu que não era apenas ela que se tornara invisível. Seu trabalho também desaparecia diante do mundo.

No corredor vazio, pegou o celular e ligou para Ricardo.

— Ricardo, lembra aquela viagem sabática de volta ao mundo que eu tanto falo?

Ela olhou pela parede de vidro do centro de convenções, onde a chuva começava a cair sobre Belo Horizonte.

— Acho que o momento chegou.

Ana Lúcia Rodrigues da Silva

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Graduada em Física pela UNESP (1986), Mestrado e Doutorado em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp (1992 e 1998), onde também realizou o seu primeiro Pós-Doutorado finalizado em 2009. Pós-doutorada também na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp (2011). Sócia da empresa Sinerconsult - Consultoria, Treinamento e Participações Ltda, onde realiza trabalhos de consultoria e pesquisa nas áreas de energia e hospitalidade, com ênfase em gestão estratégica, otimização de processos, planejamento, pesquisa de mercado, perfil e comportamento do consumidor, comunicação e marketing. É professora do MBA Gestão de Riscos na Comercialização de Energia USP/CCEE. Autora de vários livros, onde se incluem Monografia Fácil, Marketing Energético, Comportamento do Consumidor de Energia Elétrica, Cruzeiros Marítimos (2017) e Cruzeiros: Empresas, Itinerários e Experiências (Synergia, 2023). Entre 2021 e 2025 realizou o seu terceiro pós-doutorado, no Departamento de Metrologia, Qualidade, Inovação e Sustentabilidade da PUC Rio, onde se especializou na indústria de cruzeiros. 

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