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A conspiração

A conspiração

A conspiração

revisado por Maria Teresa Stefani

Era madrugada de domingo. Estavam sentados na cama vendo televisão. O filme tinha acabado e João começou a peregrinação pelos canais em busca de qualquer coisa para assistir. Olga assistia à procissão de canais que o marido fazia desfilar na tela plana. Após alguns instantes, ele finalmente se exasperou:

– Eu odeio esses canais! Não tem nada para assistir. Justo quando a gente tem tempo de olhar algo na tevê, só tem esses programas de vendas na madrugada.

A mulher assentiu com a cabeça, enquanto um apresentador se esforçava por mostrar as qualidades da máquina de cortar batatas mais tecnológica da história da humanidade. João suspirou e sentiu o sangue esquentar.

– Tudo isso não passa de uma enorme conspiração. Isso mesmo, uma conspiração monstruosa para explorar a debilidade do ser humano. A angústia existencial, a falta de valores que preencham os espaços vazios que temos dentro de nós.

A esposa concordou com a cabeça e ele sentiu-se na obrigação de continuar discorrendo sobre a verdade oculta por trás daquele complô perverso.

– Aposto que neste momento há milhões de idiotas olhando este canal, coitados, desesperados, à procura de alguma coisa para preencher seu interior. Algo que lhes dê um sentido para a existência. Uma lava-roupas nova, um carro novo. Isso porque as propagandas fazem questão de mostrar como aqueles que não têm o novo produto são infelizes, inferiores. Nessa ânsia de superioridade, negamos nossa própria natureza para nos atirarmos numa jornada sem fim, na busca de coisas para substituir aquilo que somos, ou, que deveríamos ser. A esposa novamente assentiu com a cabeça. Ele continuou.

– Por acaso, não nascemos plenos? Quando somos crianças pequenas não queremos apenas o essencial? O amor, a atenção dos pais e o alimento. Coisas básicas e indispensáveis para viver. Depois disso crescemos e vamos tendo nossos cérebros lavados pela mídia. Os grandes mestres da humanidade não tinham apegos a luxos e bens materiais, nem eram fanáticos por futebol ou qualquer outra coisa, muito menos alienados. Mas os adolescentes de hoje só querem usar roupas de marca. As madames só andam em carros de luxo e assim por diante. E tudo isso para quê?

Olga o observava em silêncio. Na televisão, uma apresentadora saboreava batatas fritas feitas na hora. O marido continuou, depois de fazer um muxoxo:

– Para que sejamos seres artificiais, alienados, que não discutamos política ou os costumes. Que nossos cérebros retardados, idiotizados pelos programas dominicais, novelas e esportes de massa e as porcarias das propagandas só nos induzam a fazer o que a elite capitalista quer, que é comprar. Comprar como se nossa vida só dependesse disso! Embotados, topamos sempre ser aquilo que a mídia e a propaganda propõem que sejamos. Se você não é assim ou assado, se não compra isso ou aquilo, se não possui aquela marca ou aquele modelo, você é obsoleto, ultrapassado. Em resumo, um nada.

Exaurido e indignado, ele se calou. Por vários minutos, apenas o barulho da programação televisiva preenchia o ambiente. Até que Olga comentou, ao ver uma propaganda:

– Gostei dessa fritadeira. Poderíamos comprar. Estamos precisando e, além do mais, está em promoção, só R$ 999,00. Eu até já tenho o número dessa loja no celular.

Ele a encarou em silêncio. Não podia crer no que ouvira. Sua indignação não tinha limites. Ficaram em um silêncio incômodo novamente por um longo tempo. De repente, quando ele estava prestes a abrir a boca, o programa de vendas acabou e começou um filme. João olhou para a tela e murmurou:

– Acho que esse eu ainda não vi.

Ele se acomodou na cama, começou a assistir ao filme e se esqueceu da conspiração. Olga pegou o telefone e ligou para o 0800.

André B. Ferreira

André B. Ferreira é escritor, revisor em formação, servidor público, licenciado em Letras, especialista em Estudos da Linguagem, terminando o Curso de Formação de Escritores, da Metamorfose. Entende que boas histórias são capazes de transformar as pessoas e o mundo ao seu redor. Escreve Fantasia Urbana para jovens leitores, misturando realismo e imaginação em jornadas sobre coragem, pertencimento e transformação. Também escreve contos que vão do humor ao terror.

Teve contos publicados em antologias do concurso Histórias de Trabalho, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre/RS nos anos 2007 e 2012 e, em 2019, no livro Sementes, resultado do Primeiro Concurso Nacional de Contos do TRE/PR.

Atualmente, trabalha em uma nova história de fantasia urbana para publicação.