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A Socidedade dos Dragões

A Socidedade dos Dragões

por André B. Ferreira

A Socidedade dos Dragões

 

revisado por Maria Teresa Stefani

Ele mal percebia o zumbido que ressoava em seus ouvidos quando o grito agudo da sirene por fim se dissipou. Os alunos da Escola Preparatória para Elfos e Duendes Anões caminhavam para suas salas de aula. Parado em meio à multidão de adolescentes, Angus tinha o olhar fixo, ignorando os elfos menores e os duendes que passavam apressados carregando suas mochilas estilo besouro. Do outro lado do corredor, abraçada a um caderno com capa de veludo, uma jovem elfa conversava distraída com duas amigas. Angus a contemplava mais uma vez, admirando a pele verde-água. A garota riu de alguma coisa que uma das colegas disse. O zumbido nos ouvidos diminuía, mas era impossível saber o que a colega tinha falado por causa da cortina espessa de conversas e risadas no corredor. Aquele era o sorriso mais verdadeiro que ele já tinha visto. Enquanto ela ria, os olhos castanhos, raros e incríveis, se fechavam virando dois delicados crescentes. Quando ela alisou os cabelos cor de pérola com a ponta dos dedos, ele sequer percebeu um sorriso brotar no próprio rosto.

– Se liga, Recruta! – Um elfo com uma boina azul caída para o lado cutucou seu braço. – Essa aí não é pro seu bico, não! 

Angus virou-se num pulo. Depois, teve que se esforçar para não revirar os olhos. Não se acostumava com aquele apelido, mas era coisa da Sociedade. Não havia o que fazer.

– Essas garotas do terceiro ano só querem saber de caras mais velhos e bonitos – o outro prosseguiu, com um dedo levantado –, ou pelo menos fortões, como Kaden. Você é fortão por acaso? Porque se não for, esqueça! elas nunca olham pra caras como nós, ainda mais do primeiro ano. Temos sorte de estarmos na Sociedade dos Dragões.

Angus abriu a boca, mas a garganta seca dificultava. Forçou uma expressão de pouco caso, pigarreou e disse:

– Você tá viajando! Por que eu teria algum interesse naquela garota, Madoc?

– É Boina, cara! Me chame de Boina!

– Tá bom, tá bom – desculpou-se Angus.

O colega meneou a cabeça e disse:

– Tô só avisando. Não vai bancar o otário. Respeito é coisa séria. Lembre-se: Dragões, valeu? Vamos pra aula.

Enquanto Boina se distanciava, Angus olhou para onde a garota estava, mas ela já tinha ido embora. Suspirou e ainda demorou alguns instantes para ir atrás do colega, que tinha sumido no fim do corredor.

***

– Tô dizendo, o cara ergueu o carvalho inteiro, com os juízes e tudo! – dizia um elfo de óculos escuros, sentado em sua carteira, erguendo os punhos fechados em movimento de supino. – As provas de força, ele venceu todas! Fenjul é o elfo mais forte de todo o reino.

Murmúrios de admiração se ouviram. 

– Puxa, Kaden! – disse um garoto com sardas salpicadas sobre as bochechas verdes. – Aposto que você também conseguiria.

– É, Ferrugem. – Ele levantou os óculos escuros e forçou os músculos sob o colete grosso de lã marrom. – Quem sabe?

Quando Angus se sentou na carteira, Kaden virou-se para ele:

– Aí, Recruta! Consegui quatro ingressos pro espetáculo da trupe dos Duendes de Fogo amanhã.

Angus assentiu com um sorriso, enquanto os demais se levantaram das carteiras, aproximando-se de Kaden.

– Como você conseguiu?  – disse Boina. – Fiquei sabendo que acabaram tem dias!

Kaden encarou o amigo com cara de deboche, estufou o peito e disse em voz alta:

– Ora, meu caro Boina, consegui porque somos a Sociedade dos Dragões! Somos os caras!

Como de costume, os quatro amigos ergueram os braços, gritando em uníssono: Dragões, Dragões, Dragões, Dragões!

Naquele momento, Bridie Cogumelow, professora de Tecnologias Mágicas, que acabava de entrar, teve que acalmar os ânimos dos "Dragões". Durante toda a aula, enquanto ela apontava a varinha para o quadro negro, fazendo as letras luminosas surgirem com a matéria do dia, os membros da sociedade continuavam cochichando entre si. Ela até tentava ignorar. Mas, em dado momento, Kaden dizia alguma coisa virado para Ferrugem quando foi surpreendido pela professora bem diante de sua carteira:

– Kaden Gabhal, pode me dizer o que aconteceria se usássemos óleo de carvalho branco para abastecer um motor de caldeira?

Os cochichadores ficaram em silêncio. Ele a encarou com um olhar perdido. Era como se procurasse a resposta no ar. Depois de um momento, Cogumelow repetiu a pergunta e ele se limitou a balbuciar:

– Ahh? ehhh.

– Se você prestasse atenção nas aulas, saberia facilmente. – Ela franziu a testa enquanto falava, arrumou os óculos triangulares sobre o nariz pontudo e balançou a cabeça. – Enfim, o que se pode esperar?

Ela se virou na direção do quadro e começou a caminhar. Kaden abaixou a vista por um momento. Alguns risos abafados brotaram em pontos esparsos da sala. Nenhum dos membros da sociedade riu.

– Vejamos! – disse a professora, virando-se devagar para o lado. – Quem poderia me responder essa pergunta tão difícil?

Depois de um momento apreciando os olhares esquivos pela sala toda, dirigiu-se a um elfo pequeno, mirrado, com o cabelo vermelho penteado para o lado.

– Roy, você está conosco há apenas três semanas, mas será que pode me dizer o que aconteceria com esse motor?

– Sim, professora. – Ele ergueu a cabeça e continuou: – Acontece que o óleo de carvalho branco é um poderoso combustível, especialmente quando ativado com cristais vermelhos, muito usado em voadores de combate. Mas os motores de caldeira não são projetados pra esse tipo de combustível. O motor vai engasgar em pouco tempo e as partes móveis vão ficar todas emperradas.

Ela assentiu satisfeita. Depois, inclinou-se um pouco para ele e perguntou:
– E que combustível seria o mais indicado então?

– O óleo de bétula-processada.

A professora deu um sorriso e murmurou:

– Muito bem!

O sinal tocou e todos se levantaram, mas Cogumelow os impediu com um gesto ameaçador da varinha. Ninguém se atreveu a sair do lugar.

– Amanhã teremos a exposição semestral – ela disse. – Não se esqueçam de trazer os seus trabalhos. Nada de vulcões com gosma de sapo, ouviram?

Murmúrios decepcionados pipocaram pela sala. Angus observou o pequeno Roy, sua expressão, os ombros ligeiramente caídos para frente. Não se lembrava de tê-lo visto conversando com ninguém desde que tinha chegado à turma. Mesmo assim, desejou ser esperto como ele. Olhou para o lado e viu o rosto de Kaden, o olhar cravado no pequeno Pena de Pato, como ele o apelidara desde o primeiro dia.

***

Quando os integrantes da Sociedade dos Dragões chegaram na esquina da escola, Kaden murmurou:

– Exibido esse moleque. E a bruxa velha nem me deu tempo pra responder.

– Quem é que ia saber aquela resposta? – disse Boina, fazendo um gesto com as mãos espalmadas para cima. – Eu hein?

– Não esquenta – interveio Ferrugem. – A gente sabe que você sabia a resposta.

Kaden assentiu em silêncio. Depois sua expressão adquiriu um tom brincalhão ao dizer:

– Mas amanhã a gente vai se divertir, não é pessoal?

Os amigos riram e começaram a falar sobre o espetáculo da trupe, mas Angus se perguntava se era impressão ou se havia uma nota de maldade nas palavras de Kaden.

***

Angus caminhava rápido. Tinha perdido o bonde para a escola e foi a pé, o mais depressa que pôde. Segurava a pequena caixa de madeira firme contra o peito. Quando chegou no saguão, Boina veio apressado até ele:

– Kaden mandou você ir ao banheiro agora e distrair o Pena de Pato o máximo que puder. O máximo, entendeu?

– Mas o que eu? Por quê?

– Caramba, Recruta! Ele foi pro banheiro agora! – Apontava com o dedo para o corredor. – Faça logo o que o Kaden mandou!

Ante a hesitação de Angus, Boina completou:

– Pela Sociedade, cara!

Angus assentiu e saiu pelo corredor, levando consigo a caixa com seu projeto. Quando entrou no banheiro, o pequeno Roy lavava as mãos em uma das pias de quartzo rosa. Angus não sabia exatamente o que estava fazendo, mas Kaden tinha dado uma ordem. Pelas regras da sociedade, isso era o suficiente, ou deveria ser.

O menino esfregava as mãos com o algodão seca-rápido dos potes em forma de tartaruga quando Angus se aproximou:

– Oi.

– Tá falando comigo? – Roy o encarou.

– Tô, ora! – Angus forçou um sorriso. – Tudo bem com você?

– É que ninguém da turma ainda falou comigo.

O peito de Angus ficou pesado. Engoliu saliva, precisava seguir as ordens da Sociedade. Recompondo-se, disse:

– E-eu queria mostrar uma coisa pra você. Queria sua opinião sobre o? espere.

O menino o encarou curioso. Angus tirou a cobertura da caixa, expondo o seu projeto. Roy deu um passo, um sorriso desenhou-se nos lábios finos.

– Que legal, uma roda de giro eterno! – O garoto aproximou o rosto da caixa para ver melhor.

Protegida por uma redoma de vidro, a pequena roda girava sobre um eixo, aparentemente sem contato com qualquer coisa que a impulsionasse.

– Eu já tinha ouvido falar – Roy sorria, olhos fixos no artefato. – Meu pai me comentou, mas é a primeira vez que vejo uma dessas. Muito massa!

Angus forçou um sorriso e disse, com um gosto amargo na boca:

– Copiei o projeto de um livro do meu avô. É um truque simples, na verdade. É feito com ímãs de?

– Ímans de Sbun! – disse o menino sem desgrudar os olhos da roda girando.

– Isso mesmo – concordou Angus, assentindo.

– Eles são feitos dos ossos do Sbun – murmurou o pequeno. – Você já viu um?

–  Não, nunca vi – Angus sorriu contrariado.

– Meu pai viu uma vez. Disse que são criaturas enormes e preguiçosas que comem só terra, pedras e minerais. São cada vez mais difíceis de se ver.

– Onde foi que o seu pai viu?

– Nas falésias de Shull. No país do Norte.

– Isso é muito longe! O que o seu pai faz?

– Ele é diplomata. Trabalha em muitos lugares. Com refugiados. Sabe como é. Eles não têm com quem contar. Então, ele tenta ajudar. Por isso fica pouco tempo por perto, mas eu entendo.

Angus se perguntava o que Kaden pretendia. Porém, cada vez queria menos saber.

– O seu trabalho é ótimo! – Roy sorriu. – Vai ganhar uma nota excelente! Vamos pra exposição? Trabalhei no meu por duas semanas até ficar pronto.

Angus concordou em silêncio enquanto o pequeno ia para a porta. A pressão no peito crescia a cada momento. Quando Roy entrou no saguão, percebeu que o seu trabalho não estava mais sobre a mesa. Angus o observava de longe, as pernas chumbadas no chão. Nenhum "Dragão" presente no saguão.

O menino perguntou aos colegas e professores se alguém tinha visto o seu trabalho, mas ninguém parecia saber de nada. Em seguida, começou a procurar pelas salas de aula vazias, uma a uma, cada vez mais agitado, a respiração acelerada. Angus lutou até conseguir desgrudar as pernas do lugar. Não queria, mas precisava.

O pequeno elfo finalmente encontrou o que procurava. No canto de uma das salas, jogada no chão, a maquete do sistema solar ainda tinha um dos sóis flutuando sobre a base circular. O outro sol, os três planetas e as quatro luas estavam espalhados pelo chão, assim como vários pedaços de cortiça. Roy se ajoelhou, os olhos vermelhos. A base da maquete estava rachada. Angus entrou devagar na sala. A cada soluço que ouvia, sentia uma pontada no próprio peito. Quando esteve a poucos passos, Roy virou-se para ele:

– Por quê?

O peito de Angus doía de pontada em pontada. Os olhos do pequeno, cravados nos dele, deixavam escapar fios úmidos. Angus quis dizer algo, mas não sabia o quê. Só queria desaparecer. Nesse momento, risos ecoaram pelo corredor. Os membros da Sociedade apareceram na porta.

– A gente tava procurando você, Recruta! – disse Kaden. – Vamos embora! A trupe vai se apresentar daqui a meia hora.

Angus o encarou. Aquele apelido não era coisa da Sociedade, era coisa de Kaden. Sempre foi. Seu coração começou a martelar mais forte, a mandíbula se apertou sozinha.

– Não posso – respondeu sustentando o olhar.

– Como é que é? – Kaden inclinou a cabeça para o lado. – Por que não?

– Porque vou ajudar Roy a consertar o trabalho dele. – Esforçava-se para controlar o tremor que ameaçava tomá-lo.

– Roy? Ah! – Sorriu Kaden. – Quer dizer o Pena de Pato! Oi, Pena de Pato! Nem tinha visto você aí! Pensei que era um duen?

– Vocês não têm que ir ao show da trupe? – Angus interrompeu. – Vai começar logo.

– Você não vai com a gente? – Kaden deu um meio sorriso, fez um gesto apontando para si e para seus amigos e completou: – Com a Sociedade?

– Vem, cara – disse Boina, em voz baixa, enquanto Ferrugem permanecia indiferente.

– Não posso, Madoc – respondeu Angus, para logo se ajoelhar e começar a juntar as luas no chão. Depois, disse sem se virar para a porta:

– Podem ir. Vão perder o espetáculo.

– Ah, qual é? – Riu Kaden. – Tá com peninha do Pena de Pato? Vai adotar ele, Recruta?

– O nome dele é Roy e o meu é Angus! – disse, virando-se para a porta.

Depois de um instante, Kaden ergueu os óculos escuros e disse:

– Eu considerava você um irmão, sério. Pensei que tava com a gente. Que gostava de ser parte da Sociedade dos Dragões.

– Eu também – respondeu e juntou mais um pedaço de cortiça do chão.

– Que seja? – Kaden balançou a cabeça e abaixou os óculos. – A gente se vê por aí. Bora galera.

Eles começaram a caminhar, mas antes de sair de vista, Madoc ainda fez um aceno com a cabeça para Angus.

***

Quando Roy e Angus acabaram de juntar os pedaços, deixaram todos sobre a base da maquete. O pequeno secou um último resquício de umidade na bochecha.

– Eu não sabia o que ele ia fazer – Angus forçou-se a levantar a vista para encarar o garoto –, mas senti que não era bom. Eu sinto muito.

Ficaram em silêncio um instante, até que Roy disse com um sorriso triste:

– Tô acostumado.

Uma onda de calor tomou o rosto de Angus, seu peito ficou apertado como nunca. Meneou a cabeça devagar várias vezes em silêncio. Depois, pegou a caixa de madeira. Virou-se para Roy, mas antes de falar, teve que pigarrear:

– Por favor, fique com isto. Eu acho que você gostou.

Estendeu a caixa ao garoto, que hesitou um momento, mas aceitou a oferta. O pequeno ergueu a cobertura com cuidado. A roda seguia girando. Um sorriso tímido surgiu em seu rosto.

– Seus amigos não gostaram nada do que falou pra eles – disse Roy, colocando a cobertura no lugar.

– Eles vão superar, eu acho. – Angus deu de ombros. – Isso é problema deles.

– Não tem medo de ficar como eu, sem amigos? – o menino perguntou olhando direto para ele.

Angus encarou a porta por um instante. Logo, virou-se para o pequeno e meneou a cabeça. Por fim, disse:

– Tem coisa pior. Olha, eu posso ajudá-lo a consertar a maquete hoje de tarde, se quiser. O que acha?

O sorriso de Roy cresceu. Ele pareceu se lembrar de algo e perguntou:

– Você gosta de jogar Batalha Mágica - O duelo dos elfos?

Angus deu um meio sorriso, erguendo as sobrancelhas, e respondeu:

– Já faz um tempo que não jogo, mas sou muito bom. Minha mãe sempre reclamava do barulho e das explosões de luz pela casa. Até que o meu amigo dono do tabuleiro se mudou daqui.

– Se quiser, podemos jogar mais tarde, depois de consertarmos a maquete.

– Aceito o desafio. – Sorriu Angus.

Roy se levantou e Angus ergueu a maquete do chão, entregando-a para o pequeno.

– Minha tia vai vir me buscar hoje – disse Roy, encaminhando-se para a porta da sala. – Você quer uma carona?

A professora Cogumelow ficou penalizada quando viu o estrago no projeto do seu aluno favorito. Quis saber o que tinha acontecido, mas Roy insistiu ter sido um acidente, nada mais.

O período da manhã terminou. Eles foram até a sala de aula e o pequeno guardou o presente recebido na mochila. Desciam as escadarias da entrada da escola, quando apontou para um sedan rosa que flutuava baixo perto da calçada:

– Ela já chegou!

A porta de trás se abriu sozinha e eles entraram, sentando-se nos assentos macios, forrados com um tecido cor bege que pareciam couro de cobra. No banco da frente, uma senhora ainda jovem, com um rosto cheinho e simpático e cabelos curtos e brancos sorria para Roy:

– Fez um amigo, meu bem?

– Tia, esse é o Angus. Ele vai me ajudar a consertar a maquete do meu projeto da escola.

Ela cumprimentou Angus com um sorriso breve, para depois perguntar:

– O que aconteceu?

Angus olhou para a maquete e a pequena pilha de pedaços sobre ela. O sol ainda pairava sobre tudo. Sentiu novamente um peso no peito, mas Roy virou-se para ele e sorriu:

– Caiu no chão. Mas vai ficar tudo bem. O meu amigo vai me ajudar.

Angus sentiu um nó na garganta. Coçou os olhos para disfarçar e se esforçou para falar com a naturalidade:

– Vamos deixar ela novinha em folha. Eu prometo.

– Ora, ora, você ganhou! Chegou primeiro! – disse alguém aproximando-se do carro.

Angus olhou para fora e um calafrio tomou sua barriga. O que ela estava fazendo ali? A garota ajeitou os cabelos cor de pérola para trás do ombro, sorriu para Roy e se sentou ao lado dele, fechando a porta.

– Temos um carona extra hoje? – ela disse encarando Angus com aqueles olhos castanhos.

– Prima, este é o Angus. Ele vai?

– Eu sei, eu sei. – Ela estendeu a mão, retirou do ombro do pequeno um besouro metálico minúsculo e completou: – Gihi já me mostrou tudo.

Enquanto o carro partia, ela abriu um bolso da jaqueta e o besouro voou da palma da sua mão para dentro dele. Angus sentiu o rosto queimar. Ela sabia de tudo! O que estaria pensando dele agora?

– Então você já sabe que hoje de tarde vamos jogar Batalha Mágica! – disse Roy.

Ela sorriu e fez um carinho na cabeça dele. Depois, virou-se para Angus e disse:

– Eu vi o que você disse praqueles babacas. Me surpreendeu, até que enfim um cara legal.

Um fio de esperança surgiu no peito de Angus, mas nenhuma ideia de nada para dizer. Limitou-se a dar um sorriso tímido.

– Você também quer jogar com a gente, Gwen? – perguntou Roy.

Ela deu um meio sorriso e respondeu:

– É claro que sim. Quero ver se você achou um jogador à sua altura.

Depois olhou para Angus e completou:

– Você parece ser esperto, mas não vá se achando. Ninguém é capaz de vencer o meu primo naquele jogo. Ele pega pesado, eu já desisti de ganhar.

– Isso é verdade! – Sorriu Roy.

Com o rosto queimando, Angus conseguiu dizer:

– Então vou ter que fazer o meu melhor.

Aqueles olhos castanhos profundos o encararam novamente:

– Eu espero que sim.

Angus sorriu e desviou o olhar, ainda corado. O que aconteceria dali para frente? Não tinha a menor ideia, mas aquele calor no peito quando olhava para Roy e o frio na barriga cada vez que o olhar de Gwen se encontrava com o seu pareciam sinais muito promissores.

André B. Ferreira

André B. Ferreira é escritor, revisor em formação, servidor público, licenciado em Letras, especialista em Estudos da Linguagem, terminando o Curso de Formação de Escritores, da Metamorfose. Entende que boas histórias são capazes de transformar as pessoas e o mundo ao seu redor. Escreve Fantasia Urbana para jovens leitores, misturando realismo e imaginação em jornadas sobre coragem, pertencimento e transformação. Também escreve contos que vão do humor ao terror.

Teve contos publicados em antologias do concurso Histórias de Trabalho, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre/RS nos anos 2007 e 2012 e, em 2019, no livro Sementes, resultado do Primeiro Concurso Nacional de Contos do TRE/PR.

Atualmente, trabalha em uma nova história de fantasia urbana para publicação.