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Chá de bebê (Terror)

Chá de bebê (Terror)

Chá de bebê (Terror)

revisado por Marcelo Tacuchian

Renata observava a vegetação espessa da beira da estrada. Tinham saído da cidade há uns vinte minutos. Lúcia, a colega de trabalho, puxava conversa, sorridente, enquanto dirigia o automóvel pela sinuosa estrada.

– Você vai adorar, Renata! As meninas são muito divertidas! O chá do bebê da Verônica vai ser ótimo!

– Como ela mora longe da cidade, né? – perguntou Renata.

– Ela gosta de recolhimento. Na verdade, sempre fazemos chás de bebê na casa dela.

Renata assentiu com a cabeça e viu alegria e camaradagem no rosto de sua colega de quarenta anos, também grávida.

– Chegamos – disse Lúcia, manobrando o carro até passar por um portal aberto.

O crepúsculo agonizava, quando o veículo se aproximou da casa em estilo colonial com janelas amplas e dois andares. Em frente à construção, um poço cercado de pedras, pintadas de branco chamava a atenção. O carro estacionou, esmagando o cascalho da estrada. As amigas desceram e as janelas com cortinas que não permitiam ver o interior, chamaram a atenção de Renata. Subiram a curta escadaria até a porta de madeira antiga.

Lúcia bateu três vezes na porta, pausadamente. Renata achou estranho e a colega comentou, antecipando seus pensamentos:

– Como estamos em um lugar um pouco afastado e o marido da Verônica não tá em casa, por segurança, a gente combinou uma batida padrão.

– Boa ideia – aprovou a colega.

Renata já tinha ido a vários chás de bebê. Todos alegres e muito divertidos. Adorava brincar de adivinhar a circunferência da barriga da anfitriã, recortando uma fita de seda, para depois conferir o seu palpite. Ainda pensando nas brincadeiras de não mencionar o nome da futura mãe, ela se deparou com um rosto longo de olhos azuis intensos, encarando-a um tanto surpresos.

– Oi, Magda! – disse Lúcia dando um beijo na amiga – Essa é a Renata, aquela colega da que falei.

– Seja bem-vinda – sorriu Magda amavelmente.

– Meus parabéns! – disse Renata. – Espero que minha presença, assim de improviso, não incomode.

– Ah, não se preocupe – disse Magda, fazendo-a entrar com um gesto. – Agradeço os parabéns, mas a Verônica, que é a dona da festa, está na cozinha.

– Ah! Desculpe! É que como você também está grávida, achei que fosse a Verônica.

– Tenho certeza que ela vai adorar conhecer você e esse bebezinho lindo que você tem aí nessa barriguinha.

– Puxa, você percebeu! Não achei que já desse pra notar! – Disse Renata, olhando para a barriga e depois para Lúcia – Você contou pra ela?

– Que nada, querida! – sorriu Magda. – Eu tenho olho bom para essas coisas. A Verônica está na cozinha, terminando de coar o chá. Entre, todas as meninas estão na sala, fique à vontade.

Renata foi conduzida por um corredor lugubremente iluminado por velas. Achou um pouco estranho, tinha visto postes elétricos por perto.

– Coisas da Verônica – disse Lúcia, tocando-lhe o ombro, como se adivinhasse seus pensamentos – Ela gosta desse ar de mistério, por isso as velas.

Chegaram até a sala onde as convidadas conversavam animadas. A luz das velas se contorcia por todos os cantos, projetando sombras ondulantes. Renata achou antiquada a decoração e um pouco perturbadora, com aqueles quadros esfumados e estátuas bizarras. Um cheiro agradável e ao mesmo tempo repulsivo penetrou por suas narinas. Devia ser o mofo, misturado com algum perfume, pensou e reprimiu o instinto de levar a mão ao nariz.

Quatro mulheres sentadas à mesa, com idades que variavam entre trinta e cinco e cinquenta anos, riam de alguma coisa engraçada. Todas muito bem-vestidas e, pelo menos, duas mais visivelmente grávidas. A conversa parou quando notaram Renata.

– Essa é a Renata, uma amiga da Lúcia! – disse Magda – Nossa nova amiga!

– Seja bem-vinda! – sorriram todas.

– De quantos meses, Renata? – perguntou a mulher mais velha, de cabelos negros escorridos e feições esquálidas.

– Quatro! – respondeu, tocando-se a barriga, Lúcia devia ter contado a todas.

– Mal se nota, imagine – respondeu ela sorrindo – Mas logo vai passar e você volta ao normal.

– E é menino ou menina? – perguntou uma mulher de olhos verdes, com um xale escuro.

– Menino.

Todas assentiram alegremente. Magda puxou uma cadeira e Renata se sentou. Deu uma boa olhada ao redor enquanto as conversas recomeçaram. Ela sentiu uma sensação estranha, uma inquietação. Não havia decoração festiva. Apenas mais velas espalhadas pelo cômodo. As cadeiras eram antigas, assim como a espessa mesa de madeira escura e muito lustrosa. Só aí percebeu a lareira crepitante ao fundo. Logo acima, um retrato de família antigo.

– Esses eram os avós da Verônica. – comentou Lúcia.

– A nossa anfitriã já está vindo. Salgadinho, querida? – ofereceu Magda.

Renata percebeu que ela tinha uma pequena cicatriz na testa. Os salgadinhos postos sobre a mesa tinham boa aparência. Não eram muitos. Seriam pouco mais que dois para cada uma. Ela hesitou, não queria ser mal-educada.

– Coma, querida! Nós já comemos bastante desses, mas eles não engordam, fique tranquila – disse uma das mulheres antes de todas rirem.

Ela cedeu e levou um deles à boca, surpreendendo-se ao conferir o delicioso sabor.

– Hum! Realmente muito bom! – disse, assentindo com a cabeça – Alguém sabe onde foram comprados?

Risos novamente.

– Não foram comprados – comentou a senhora dos cabelos escorridos – É uma receita de família. A Verônica é uma excelente cozinheira. Já nos passou a receita, mas nunca fica como os dela. Pena ela não ficar grávida mais vezes para podermos desfrutar dos salgadinhos e do chá.

Todas riram, incluindo Renata. Lúcia também pegou um salgadinho e comeu. Naquele momento, uma mulher alta, de porte elegante, entrou na sala, trazendo uma bandeja de prata nas mãos.

– Hora do chá, meninas!

Renata se levantou depressa:

– Oi! Desculpe ter vindo sem avisar, mas a Lúcia insistiu tanto que acabei vindo...

– Imagine! – Verônica sorriu, passando a bandeja para Lúcia – Não precisa explicar mais nada Se você é amiga da Lúcia, também é minha amiga!

Verônica se aproximou e elas se beijaram no rosto. Renata notou que o corpo de Verônica não delatava a gravidez.

– De quantos meses você está? – perguntou Renata, sentando-se.

Alguns olhares foram trocados enquanto Verônica, com naturalidade, foi servindo o chá para todas.

– É chá de quê? – perguntou Renata após sentir o aroma adocicado em sua xícara.

 – Você terá que adivinhar em uma das brincadeiras – sorriu displicentemente Verônica, enquanto seguia vertendo o líquido fumegante em outra xícara.

Renata notou que Lúcia não desgrudava os olhos do chá, esperando sua vez. Ela percebeu o olhar de Renata e sorriu, dando de ombros:

– Não olhe pra mim desse jeito! É delicioso! O que posso fazer?

Renata riu e provou o chá. Quando o líquido tocou seus lábios, sentiu uma leve pressão no peito. Teve a sensação de que todas tinham parado de conversar só para olhar para ela. Abriu os olhos, mas aquilo não acontecera. Por uma fração de segundo, sentiu repulsa pelo chá. Sentia o sabor de frutas, mas encorpado. Achou estranha a pressão que sentiu no peito, mas pensou que devia ser o ambiente lúgubre demais e aquelas mulheres estranhas. Esquecera-se de tomar o seu medicamento natural para ansiedade naquela manhã e talvez isso a estivesse afetando.

Contudo, logo o mal-estar passou. O calor do chá entrava pelo esôfago e chegava ao estômago e uma sensação de torpor suave foi surgindo e se espalhando pelo corpo. Ela olhou ao redor e agora sim todas estavam observando-a tomar o seu chá. Lúcia tinha a xícara suspensa, a meio caminho da boca. Magda lambia os lábios devagar. Verônica, sentada em uma poltrona, também a encarava, sorrindo. Havia algo que Renata não alcançava entender. Lentamente a lassidão desapareceu. Um tanto constrangida, terminou de esvaziar a xícara.

– Gostou, Renata? – finalmente perguntou Verônica.

– Seu chá é mesmo delicioso e seus salgadinhos, divinos – respondeu Renata.

Todas assentiram com a cabeça em silêncio. De repente, Renata sentiu algo sobre a língua. Sem pensar, enfiou o dedo na boca e tirou algo. Era pequeno, translúcido, flexível e cartilaginoso. Observou o corpo estranho na ponta do dedo. Fixou a vista para poder ver melhor. Seus olhos se esforçaram mais e mais e o foco foi se ajustando. Ela observou por alguns instantes e deixou escapar um comentário sem pensar no que dizia:

– Parece... uma... unha... de criança...

Verônica riu e comentou:

– Acho que não coei direito, meninas.

As mulheres não contiveram um riso maldoso. Renata olhou novamente para a pequenina unha pousada sobre o dedo. Uma sensação de náusea se apoderou dela e os batimentos cardíacos dispararam. De uma forma terrível, tudo começou a fazer sentido. Um suor frio brotou de seus poros. Levantou-se da cadeira num reflexo desesperado, mas caiu sentada novamente. Todas a observavam atentas, interessadas.

– Oh, meu Deus! Você é um monstro! – berrou Renata, desorientada, enfiando os dedos na garganta, sentindo arrepios por todo o corpo.

Mas não conseguia vomitar. Sua garganta se recusava a devolver a beberagem maldita. Tudo ficou em câmera lenta. Ela lutou e empurrou a cadeira para trás, tentando se levantar. Em poucos instantes, mal conseguia se mover.

– O que houve, querida? – perguntou Lúcia, com um semblante tranquilo.

– Bruxas!! Todas vocês!! – gritou Renata, em um último espasmo, enquanto a cadeira caía com estrondo no chão, jogando-a sobre o tapete.

Ninguém respondeu. Levantaram-se e se aproximaram dela, olhos fixos nela.

– O que fizeram comigo?! – murmurou com as últimas forças.

Os músculos não responderam mais e ela perdeu a voz.

– Tanto fiasco por causa de uma unha tão pequena! – disse Verônica – Você não falou que gostou dos salgadinhos que fiz? Não disse que eram divinos? E o chá, não era delicioso?

Enquanto Renata lutava para não fechar os olhos, Verônica se ajoelhou ao seu lado, estendendo a mão, tocando-lhe os cabelos despenteados:

– Ainda vai ver como esse chá vai mudar a sua vida!

Os risos das bruxas envolveram Renata, que fez um esforço supremo para se levantar, sem resultado. A última coisa que seus olhos viram foi o rosto de Verônica e algo maior e mais sinistro atrás dela. Um vulto monstruoso. Chifres, olhos ardentes. O seu horror foi insuportável e ela caiu em um precipício de escuridão, silêncio e maldição.

***

Cinco meses se passaram e Verônica tinha mesmo razão. E pensar que hoje, quem oferecerá o chá de bebê ao grupo será Renata.

André B. Ferreira

André B. Ferreira é escritor, revisor em formação, servidor público, licenciado em Letras, especialista em Estudos da Linguagem, terminando o Curso de Formação de Escritores, da Metamorfose. Entende que boas histórias são capazes de transformar as pessoas e o mundo ao seu redor. Escreve Fantasia Urbana para jovens leitores, misturando realismo e imaginação em jornadas sobre coragem, pertencimento e transformação. Também escreve contos que vão do humor ao terror.

Teve contos publicados em antologias do concurso Histórias de Trabalho, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre/RS nos anos 2007 e 2012 e, em 2019, no livro Sementes, resultado do Primeiro Concurso Nacional de Contos do TRE/PR.

Atualmente, trabalha em uma nova história de fantasia urbana para publicação.