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LITERATURA DE FANTASIA: UMA PODEROSA FERRAMENTA PARA O APRENDIZADO EMOCIONAL E O DESENVOLVIMENTO DE VALORES

LITERATURA DE FANTASIA: UMA PODEROSA FERRAMENTA PARA O APRENDIZADO EMOCIONAL E O DESENVOLVIMENTO DE VALORES

LITERATURA DE FANTASIA: UMA PODEROSA FERRAMENTA PARA O APRENDIZADO EMOCIONAL E O DESENVOLVIMENTO DE VALORES

 

revisado por Rossana Lindote

Que histórias fantásticas como Harry Potter, Percy Jackson e As Crônicas de Nárnia são verdadeiros portais de entrada para o mundo da leitura, não é nenhuma novidade. Marisa Lajolo, professora e pesquisadora, referência nacional sobre formação de leitores e Literatura Infantojuvenil, aponta que a capacidade de seduzir e encantar jovens leitores torna a literatura fantástica mais atraente para esse público, o qual apresenta, inclusive, um maior engajamento no hábito da leitura. Dispensável aprofundar-se nos benefícios dessa prática, que incluem o desenvolvimento e a preservação de faculdades mentais, bem como a expansão do conhecimento de mundo e do seu funcionamento.

Além disso, o papel do gênero fantástico na formação de novos leitores ganha ainda mais relevância quando se leva em conta o aumento do uso das telas e de suas consequências deletérias para a cognição, em especial nas gerações mais jovens. Neste sentido, um artigo publicado em 2020, na JAMA Pediatrics, uma das revistas científicas mais importantes na área da infância e da adolescência, aponta para a associação entre o uso exagerado das telas e a deterioração da capacidade de manter a concentração, bem como a ocorrência de alterações anatômicas do cérebro em formação. Essa deterioração progressiva prejudica a habilidade de ler e processar textos em profundidade. Assim, o leitor tende a conseguir interpretar, apenas, e de forma superficial, textos curtos como os de redes sociais. Por isso, minimizar o tempo de telas e aumentar o de boas leituras parece ser um caminho inteligente para se contrapor a esse fenômeno de escala global.

Contudo, o que nem todo mundo sabe é que despertar o gosto de crianças e adolescentes pela leitura não é a única vocação importante das histórias fantásticas. Elas podem ir muito além, ao desempenhar também um papel pedagógico profundo. Conforme os professores e pesquisadores Raymond A. Mar e Keith Oatley, a ficção tem a propriedade de permitir ao leitor simular experiências sociais complexas, exercitando a compreensão das emoções e dos relacionamentos humanos.

Para compreender como esse processo funciona com a Literatura de Fantasia é importante ter em conta que narrativas fantásticas podem atrair o leitor por conta de suas características inusitadas, criativas e lúdicas, mas o que realmente produz uma conexão imersiva é a veracidade. Não a veracidade de eventos e mundos, mas sim a verdade emocional ali presente. É ela que permite ao leitor se identificar com os personagens e suas trajetórias.

Assim, o jovem leitor acompanha, testemunha e até vivencia, como se fossem próprios, os dramas, as escolhas, os erros, os acertos e as consequências narradas. Graças a esse efeito imersivo, ele pode identificar e refletir sobre valores presentes nessas narrativas, como coragem, empatia e respeito, desde uma perspectiva privilegiada, e tirar as próprias conclusões.

Nesse contexto, é preciso considerar, ainda, um aspecto fundamental do psiquismo humano a ser desenvolvido: as habilidades relacionadas ao reconhecimento e à gestão de emoções e sentimentos. Surgido em 1979, nos Estados Unidos, o conceito de alfabetização emocional foi introduzido no Brasil em 1996, pelo educador e geógrafo Celso Antunes.

Alfabetização emocional é a capacidade de reconhecer, nomear, compreender e gerenciar as próprias emoções, bem como interpretar os sentimentos das outras pessoas. Esse aprendizado constrói as bases de  nossa inteligência emocional, que nos permite lidar com nossos medos, angústias e frustrações de maneira adequada, bem como desenvolver a empatia e o senso de cooperação. Portanto, essa inteligência é indispensável para a autorregulação, para o desenvolvimento de relacionamentos saudáveis e para a vida em sociedade. Não por acaso, a alfabetização emocional encontra-se inserida na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ensinada nas escolas brasileiras, ao longo de toda a Educação Básica, sob o nome técnico de competências socioemocionais.

Do ponto de vista do desenvolvimento emocional, as narrativas fantásticas potencializam o aprendizado especialmente porque são capazes de traduzir o abstrato em algo familiar, dentro de um espaço simbólico seguro. Dessa forma, histórias bem elaboradas proporcionam o contato com monstros, heróis, vilões, amigos, obstáculos, desafios, conquistas, perdas e dilemas que conversam diretamente com o leitor. Carregados de sentido, esses verdadeiros artefatos de significação transformam emoções em símbolos compreensíveis, mais fáceis de serem reconhecidos e elaborados. Assim, torna-se possível lidar com questões emocionais que de outra maneira resultariam intoleráveis para esse leitor naquele momento. 

Além disso, por meio de cenários potencialmente ameaçadores, como florestas sombrias, desertos perigosos, ou mundos em conflito, ele é introduzido na complexidade própria das situações desafiadoras e no papel das relações afetivas e sociais nesses contextos. Cooperação e empatia adquirem destaque quando o leitor percebe relações saudáveis como parte importante da jornada emocional e como ponto de apoio e acolhimento para o enfrentamento das dificuldades. Nesse sentido, também ganha espaço a reflexão sobre a responsabilidade pelas consequências das próprias escolhas que afetarão os demais. 

Como as possibilidades narrativas da Literatura de Fantasia são infinitas, as situações, as nuances e os temas abordados são abundantes e variados em contextos e matizes. Por isso, há histórias que permitem ao jovem leitor acessar experiências simbólicas com todo tipo de emoção e conflito, sob diferentes perspectivas, o que também colabora para o enriquecimento do seu repertório emocional.

Por outro lado, vale citar que pais, responsáveis, educadores e profissionais de saúde mental podem se valer da literatura fantástica de diversas maneiras para beneficiar crianças e jovens. Para citar um exemplo, essas histórias podem ser utilizadas como ferramenta de aproximação, uma ponte para o estabelecimento de uma conexão genuína e horizontal com crianças e adolescentes, o que permite trabalhar questões emocionais difíceis, ou mesmo qualificar a conexão afetiva por meio de uma escuta autêntica e conversas enriquecedoras. O leque de aplicações é amplo. A mero título de ilustração, algumas vão desde o estímulo da criatividade ou do pensamento crítico, da ampliação de vocabulário, das habilidades de comunicação e interpessoais, até o uso de metáforas e histórias como recurso psicoterapêutico.

Muito embora a Literatura Fantástica não seja uma fórmula mágica ou uma vacina emocional, cabe celebrar não somente o seu papel de destaque na formação de novos leitores e no cultivo do hábito da leitura, mas também reconhecê-la como uma ferramenta de potencialização e desenvolvimento da inteligência emocional. Ela favorece a reflexão sobre valores, instrumentaliza o processo de amadurecimento e viabiliza diálogos sobre temas sensíveis ao criar um ponto de contato entre jovens, pais e responsáveis.

Cabe referir que narrativas fantásticas bem elaboradas contribuem para acelerar o enriquecimento do repertório emocional porque a rotina cotidiana não costuma oferecer a vasta gama de experiências e nuances acessíveis por meio dessa literatura. 

Por fim, um último aspecto a considerar: o espaço simbólico em que ocorre essa potencialização da aprendizagem emocional é seguro, preserva o jovem leitor dos riscos potencialmente envolvidos, caso esse processo fosse vivido exclusivamente no mundo real. Dessa maneira, a Literatura de Fantasia oferece ao jovem leitor a possibilidade de se munir de uma bagagem emocional diferenciada que o prepara de antemão para o enfrentamento da realidade de forma mais segura e madura.

 

REFERÊNCIAS

HUTTON, John S. et al. Associations Between Screen-Based Media Use and Brain White Matter Integrity in Preschool-Aged Children. JAMA Pediatrics, v. 174, n. 1, p. e193869, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1001/jamapediatrics.2019.3869?. Acesso em: 3 jul. 2026.

JORNAL DA USP. O uso excessivo de telas desenvolve deficiências mentais e intelectuais em crianças. Ribeirão Preto, 26 set. 2024. Disponível em: https://jornal.usp.br/campus-ribeirao-preto/o-uso-excessivo-de-telas-desenvolve-deficiencias-mentais-e-intelectuais-em-criancas/?. Acesso em: 28 jun. 2026.

LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6. ed. São Paulo: Ática, 2001.

MAR, R. A.; OATLEY, K. The Function of Fiction is the Abstraction and Simulation of Social Experience. Perspectives on Psychological Science, v. 3, n. 3, p. 173–192, 2008. Disponível em: https://doi.org/10.1111/j.1745-6924.2008.00073.x?. Acesso em: 28 jun. 2026.

ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT (OECD). Students, Digital Devices and Success. Paris: OECD Publishing, 2024. Disponível em: https://www.oecd.org/?. Acesso em: 28 jun. 2026.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Faculdade de Medicina. Uso excessivo de telas está associado à saúde mental de diferentes gerações. Belo Horizonte, 25 out. 2023. Disponível em: https://www.medicina.ufmg.br/uso-excessivo-de-telas-esta-associado-a-saude-mental-de-diferentes-geracoes/?. Acesso em: 28 jun. 2026.

WU, D. et al. How Early Digital Experience Shapes Young Brains During 0–12 Years: A Scoping Review. Early Education and Development, v. 35, n. 7, p. 1395–1431, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1080/10409289.2023.2278117?. Acesso em: 3 jul. 2026.

André B. Ferreira

André B. Ferreira é escritor, revisor em formação, servidor público, licenciado em Letras, especialista em Estudos da Linguagem, terminando o Curso de Formação de Escritores, da Metamorfose. Entende que boas histórias são capazes de transformar as pessoas e o mundo ao seu redor. Escreve Fantasia Urbana para jovens leitores, misturando realismo e imaginação em jornadas sobre coragem, pertencimento e transformação. Também escreve contos que vão do humor ao terror.

Teve contos publicados em antologias do concurso Histórias de Trabalho, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre/RS nos anos 2007 e 2012 e, em 2019, no livro Sementes, resultado do Primeiro Concurso Nacional de Contos do TRE/PR.

Atualmente, trabalha em uma nova história de fantasia urbana para publicação.