por André B. Ferreira
revisado por Leonardo Romero de Lima
O crepúsculo logo chegaria. Cansado, o andarilho puxava as bridas do cavalo, que suportava os sacos com poções e ervas medicinais, mancando e bufando. Seu condutor tentava apressá-lo enquanto seguiam pela vereda entre árvores altas e moitas suspeitas. Sabia bem o que significava estar sozinho em uma estrada da península itálica do século XIV, especialmente àquela hora.
Em uma curva do caminho, três homens, vestindo pouco mais que andrajos, surgiram. O chefe, que tinha uma cicatriz que cortava o olho faltante, adiantou-se, ficando entre seus homens e o viajante.
— Ora, ora, vejam só — sorriu o meliante — O que temos aqui? Um homem de sorte, claro! Apenas um homem afortunado, andando por estas bandas sozinho a essa hora, encontraria o único grupo de homens honestos e honrados deste lugar miserável!
Os outros dois começaram a rir. O caminhante parou, enquanto o cavalo se inquietava, relinchando baixo. Era tarde demais. O bandido sorriu, exibindo os buracos na dentição, e continuou:
— Este lugar é muito perigoso, cheio de ladrões e assassinos de beira de estrada. Mas não se preocupe, meu senhor. Por uma quantia muito pequena, teremos prazer em garantir que ninguém o molestará em seu caminho.
O andarilho balançou a cabeça grisalha, consternado, e falou com mansidão:
— Agradeço a generosa oferta, meu bom homem. Certamente aceitaria de bom grado, mas perdi tudo o que tinha de valor porque fui assaltado e não me deixaram um denaro sequer há poucas horas.
O chefe do bando cruzou os braços, enquanto as feições de seus comparsas recrudesciam. Ele fez um muxoxo e disse:
— Chega de conversa fiada.
O viajante não teve a menor chance quando os dois bandidos empunhando porretes o cercaram. Deixaram-no sozinho, o corpo moído, ossos quebrados. Levaram consigo o cavalo e todas as posses com algum valor.
As horas passaram lentas. A noite avançou, mas a morte não veio. Ele ouviu e sentiu os ossos estalando e se recompondo, não sem muita dor. O sangue estancou e os ferimentos na pele se fecharam por completo. Abriu os olhos e se levantou devagar. Sob a luz do luar, examinou as vestes rasgadas e meneou a cabeça.
— Idiotas — resmungou, limpando a terra da roupa.
Cambaleou por vários metros, até estabilizar o passo e seguir seu caminho. Além de perder a montaria e o pouco dinheiro que trazia, não levava uma surra daquelas tinha, pelo menos, quatrocentos anos. Estava ficando descuidado.

André B. Ferreira é escritor, revisor em formação, servidor público, licenciado em Letras, especialista em Estudos da Linguagem, terminando o Curso de Formação de Escritores, da Metamorfose. Entende que boas histórias são capazes de transformar as pessoas e o mundo ao seu redor. Escreve Fantasia. Em especial, embora não apenas, para jovens leitores, misturando realismo e imaginação em jornadas sobre coragem, pertencimento e transformação.
Teve contos publicados em antologias do concurso Histórias de Trabalho, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre/RS nos anos 2007 e 2012 e, em 2019, no livro Sementes, resultado do Primeiro Concurso Nacional de Contos do TRE/PR.
Atualmente, trabalha em uma nova história de Fantasia Urbana para publicação.