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O fazendeiro Gul

O fazendeiro Gul

O fazendeiro Gul

 

Grop caminhava em silêncio segurando as alças da mochila com as pequenas mãos azuis. Fungava de vez em quando. A névoa que encobria a aldeia era fria e dava vontade de espirrar. Pelo menos a neblina sumia no verão. Mas, naquela manhã, ele não estava pensando no incômodo dos espirros, nem no frio úmido que formava pequenas gotículas na pele azul do rosto, no nariz redondo como uma cereja. Tinha saído um pouco mais cedo para a escola porque não havia sobrado mais nada de divertido ou interessante para fazer em casa. Ainda mais agora.

Enquanto arrastava os sapatos feitos com tiras de casca de bétula trançadas, só queria deixar de pensar no que tinha feito. Mas não conseguia. As chamas devorando os brinquedos, o pequeno arado de madeira feito com tanto carinho, o cercado de gravetos, atado com tiras de salgueiro, o fazendeiro Gul. Ele amava o fazendeiro Gul. Sua avó tinha sugerido o nome do boneco de palha.

Limpou o canto do olho e levantou a cabeça. Fez o que tinha que fazer. Afinal, já tinha dez anos. Não era mais criança. Em meio à bruma, uma silhueta emergiu. A casa feita de troncos e palha tinha as janelas redondas e pequenas. Vagarosa, uma coluna de fumaça escapava da chaminé para se misturar com a névoa. Grop foi até a entrada, para chamar seu amigo. Mas, em vez de bater na porta, pensou em ir até a janela do seu quarto, para lhe dar um susto. Afinal, já não eram criancinhas choronas, como Ruup tinha dito há poucos dias.

Aproximou-se do vidro opaco e grosso, espiando a luminosidade do candeeiro aceso lá dentro do quarto. A mão já estava fechada para bater no vidro, quando ele percebeu algo. Apertou os olhos para tentar ver melhor. Ruup estava sentado na cama, com alguma coisa na mão. O que seria? Grop arregalou os olhos. O amigo estava brincando com um pássaro de palha, um daqueles que aprenderam a fazer com a professora Gilp? Não podia ser! Saiu da janela e foi direto para a porta da frente. Bateu quatro vezes antes que o amigo a abrisse. Ruup era um pouco mais baixo que ele, embora mais forte. Ainda vestia as calças do pijama de lã marrom. Fez menção de dizer algo, mas foi interrompido pelo amigo.

– Que história é essa? – Grop entrou na casa sem ser convidado.

– Qual história? – indagou Ruup, jogando para trás o pompom de lã do gorro verde, os olhos ainda inchados de sono.

– Você não disse que já éramos todos muito velhos para brincar com brinquedinhos de criança?

– Disse, claro? – Ruup começou a piscar repetidas vezes – a gente é mesmo muito velho para?

– Eu vi você agorinha pela janela! – Grop quase gritava – você estava brincando!

– Está tudo bem, querido? – ouviu-se uma voz da cozinha.

– C-claro, mamãe! – Apressou-se Ruup, ainda piscado – É que Grop só se assustou com uma coisa. Já estamos indo para o meu quarto, vou terminar de me vestir.

Em seguida, com cara de súplica, Ruup gesticulou em silêncio para que o amigo fosse para o quarto com ele. As orelhas pontudas se agitavam bastante, logo abaixo do gorro amarelo de Grop, enquanto passava ao lado do amigo. Mau sinal. A porta do quarto foi fechada rápido e sem barulho. Grop cruzou os braços e encarou Ruup, que ficou diante dele e abaixou a vista. Sob o travesseiro de penas, dava para ver a ponta do rabo do brinquedo de palha. Sem pensar, Ruup se aproximou da cama e o empurrou mais para baixo do travesseiro. Mas era tarde.

– Você me fez queimar os meus brinquedos, mas continua com os seus – disse Grop apontando o dedo magro para o amigo – Eu só fiz isso porque você falou aquelas coisas!

Ruup não respondeu. Seu rosto azul adquiriu um tom mais claro: vergonha.

– Você é o mais velho da turma - Grop continuou, agora apertando os punhos com força – Todo mundo respeita você. Por que mentiu para nós dizendo que ia queimar os seus brinquedos? Por quê?

Ruup fungou. Depois, limpou o nariz com o dedo e levantou a cabeça devagar, enquanto falava:

– Eu não menti – fungou novamente  – Ia fazer mesmo. Mas quando o fogo começou a queimar os meus brinquedos, quando vi que eles iam sumir, não consegui aguentar  – passou a mão no rosto, secando os olhos – Peguei os que pude de volta da fogueira.

Grop ainda tinha a cara fechada, mas o aperto nas mãos afrouxou um pouco.

– Eu não consegui – repetiu o amigo, balançando a cabeça.

Grop não sabia mais o que dizer e ficou em silêncio.  Ruup passou uma das mãos pelos olhos e pelas bochechas cheias, secando as lágrimas. Depois, coçou a ponta do nariz, que estava vermelha e disse:

– Eu acho que sou mesmo um mentiroso e um chorão. Você vai contar para os outros?

Grop passou a mão pelos cabelos verdes, por baixo do gorro. Olhou para o amigo um instante. Depois, para o travesseiro. Deu um suspiro longo e murmurou:

– Eu queimei todos os meus brinquedos porque você falou aquilo para nós. Até o fazendeiro Gul.

– Por favor, me desculpe – disse  o amigo.

Grop foi até a cama e se sentou no colchão de palha. Levou a mão ao rosto e esfregou os olhos úmidos. Respirou fundo mais uma vez e abaixou a cabeça, enquanto as mãos se apoiaram no cobertor morno de lã.

– Você vai contar para eles? – Ruup insistiu.

Grop soprou o ar, colocando as mãos sobre os joelhos da calça com listras vermelhas e amarelas. Depois, balançou a cabeça, ainda baixa, e disse:

– Não, não vou.

O amigo se aproximou. Sentou-se ao seu lado, colocando as mãos juntas no colo:

– Obrigado.

Ficaram um momento em silêncio. Depois, Grop perguntou:

– Você ainda tem aquele boneco da ovelha? A da manchinha preta?

Ruup assentiu com a cabeça, dizendo:

– Salvei por pouco.

Grop deu um suspiro e comentou, quase como se apenas pensasse em voz alta:

– O fazendeiro Gul gostava muito dela.

– Eu sei? Sinto muito.

Continuaram calados mais alguns instantes, até que Grop levantou a cabeça.  Virando-se para o amigo, disse:

– Acho que ainda temos um tempinho antes de ir para a escola.

André B. Ferreira

André B. Ferreira é escritor, revisor em formação, servidor público, licenciado em Letras, especialista em Estudos da Linguagem, terminando o Curso de Formação de Escritores, da Metamorfose. Entende que boas histórias são capazes de transformar as pessoas e o mundo ao seu redor. Escreve Fantasia Urbana para jovens leitores, misturando realismo e imaginação em jornadas sobre coragem, pertencimento e transformação. Também escreve contos que vão do humor ao terror.

Teve contos publicados em antologias do concurso Histórias de Trabalho, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre/RS nos anos 2007 e 2012 e, em 2019, no livro Sementes, resultado do Primeiro Concurso Nacional de Contos do TRE/PR.

Atualmente, trabalha em uma nova história de fantasia urbana para publicação.