×

Pepe Valente, o caçador de monstros

Pepe Valente, o caçador de monstros

Pepe Valente, o caçador de monstros

 

O assobio agudo acorda Murilo. Esfrega os olhos grudados e levanta a cabeça. Pelas cortinas, a pouca luz que entra não consegue vencer a escuridão e o quarto está cheio de sombras. O menino olha e mal vê as cortinas se mexendo. O assobio que passa pelas frestas da janela, ora aumenta, ora diminui de intensidade.

O corpo ainda está mole. O garoto se acomoda para dormir novamente, mas tem algo errado. Um desconforto. Tem vontade de ir ao banheiro. Estende o braço para fora da cama, em direção ao abajur do Quarteto Fantástico e liga o botão. As sombras recuam, a luz vence. Sobre a mesinha do abajur, vários bonequinhos espalhados. Entre eles, um se destacava, um pouco maior que os demais. Talhado em madeira, capa de algodão verde presa ao pescoço, chapéu de arqueiro.

O menino coloca os óculos de armação preta e dá uma olhada no quarto. Está tudo bem agora. Murilo não gosta das sombras, do escuro. Porque dentro do escuro, sabe, tem coisas assustadoras. Ele até já desenhou para mostrar aos colegas da escola. O vento move alguma coisa dentro de casa, que faz um barulho baixo e seco. Uma porta fechando talvez. Ele calça os chinelos felpudos e se levanta, quando a luz do abajur pisca duas, três vezes e apaga.

Murilo fica coberto de escuro. Senta na cama e pensa no que fazer. Tem uma ideia. Abre a gaveta da mesinha do abajur e enfia a mão. Move os dedos, buscando entre os palitos de picolé, brinquedos, caixinhas de bala vazias, papéis e outras coisas, algo específico. Encontra. Tira da gaveta e traz para si o objeto comprido e fino. Procura o botãozinho e liga a lanterna. Aponta para a parede. O círculo luminoso é pequeno. Muito pequeno para afastar as sombras o bastante. A lanterna caneta, daquelas de olhar para dentro da boca ou garganta do paciente, não consegue mais que isso.

Murilo solta um muxoxo e encara a porta do quarto. O banheiro está a poucos metros, no final do corredor. O garoto se lembra dos desenhos que fez para mostrar aos colegas. Sente um frio repentino. Entra para baixo das cobertas e se tapa todo, até a cabeça. Segurando a lanterna perto do rosto, fica quieto e apaga a luzinha. Alguns minutos se passam e o vento continua assobiando. Ruídos diferentes chegam até ele. Tentando ignorá-los, vira-se de um lado para outro. O sono não vem e a bexiga parece mais cheia. A pressão começa a aumentar, mas a atenção dele está lá fora, naqueles ruídos que parecem vir do corredor.

As lembranças surgem em forma de imagens. Não dá para controlar. Primeiro os dentes cinzentos e grandes. Depois, a cauda peluda e pontiaguda. Em seguida, os olhos de gato e a pele escamosa. Por fim, as unhas enormes. A professora perguntou quem eram no desenho e ele respondeu: os monstros lá de casa. Ela sorriu, disse algo e foi atender outro aluno.

Uma coisa afiada raspa o chão no corredor, disparando um calafrio no estômago. Murilo acende a lanterninha sob as cobertas. Seu rosto é um mosaico de luz e sombras. Pensa em chamar a mãe. Por que ela sempre está com a porta do quarto fechada? Mas se ele a chamar, sabe que ela não vai gostar nadinha. Como da última vez. Os monstros nunca aparecem quando há um adulto por perto. Isso só piora as coisas. É estranho como gente grande esquece tantas coisas depois que cresce. Coisas que vivem no escuro e que agora estão logo ali, pertinho dele, do lado de fora das cobertas.

Os assobios na janela e os ruídos no corredor continuam. A bexiga incomoda cada vez mais. Murilo se pergunta porque nenhum adulto acredita em monstros. Nenhum não. Seu avô acredita. Nesse momento, o idoso de camisa verde aplainando uma tábua na sua carpintaria vem à memória. O avô se aproxima e sorri. Um sorriso de verdade. Estende a mão, entregando ao neto uma coisa.

O menino estica o braço, alcançando a mesa de luz, escapando das cobertas. Apressado, pega o boneco de madeira e o traz para dentro de sua redoma de tecido quente. Ilumina o brinquedo e toca sua capa verde.

– Este é o Pepe Valente! – disse o avô, entregando o brinquedo – o caçador oficial de monstros do País dos Sonhos.

Sorrindo, o menino pega o boneco que tem uma postura altiva e mãos na cintura. O avô prossegue:

– O bicho-papão tem tanto medo dele que acabou fugindo do País dos Sonhos.

– Que legal, vovô! – Murilo sorri exibindo a banguela.

– É como já disse a você. Se estiver com problemas no escuro, é só chamar o Pepe Valente e nada de ruim vai acontecer. Os monstros não vão nem chegar perto.

O garoto levanta o boneco, imita com ele um voo, olha-o bem de perto. O avô continua:

– Mas, se quiser mesmo acabar com esses monstros, posso dizer como fazer.

Murilo abaixa o boneco e encara o avô, olhinhos bem abertos, ouvidos atentos.

Algo arranha novamente no escuro. Desta vez, parece ter sido no batente da porta do quarto. Um novo calafrio percorre seu estômago e o garoto engole em seco. Também percebe que a bexiga está cheia. Olha para o boneco em sua mão, a capa verde, o rosto solene de cedro-rosa. As mãos na cintura, como quem não tem medo de nada. Precisa fazer alguma coisa a respeito! Chegou a hora.

Apertando os lábios, faz um gesto de assentimento sob as cobertas e fecha os olhos. Respira três vezes bem fundo, soprando o ar com a boca em forma de "o". Empunhando a lanterna caneta, abre as cobertas e se levanta devagar. Coloca Pepe Valente no bolso da camisa do pijama e sai da cama. Arranca o lençol das cobertas e o veste como uma capa. Amarra no pescoço e aponta a lanterna para a porta aberta. Não há sinal de monstros, embora a luz seja pouca e as sombras muitas. Mesmo assim, Murilo faz o que tem que fazer. Estufa o peito e avança para o corredor, com o pulso acelerado. O coração lateja nas bochechas e mais ruídos ocultos se ouvem pelo corredor. Aperta a mandíbula e diz para si que é apenas o vento, não monstros.

Em pouco tempo, passa o aparador com patas de ferro e tampo de mármore, coberto de bibelôs de plástico. A seguir, entra no banheiro e fecha a porta. Logo, faz o que precisa para aliviar a bexiga, dando um longo suspiro. Aperta o botão da descarga da caixa-acoplada. Os reflexos da luz nos azulejos creme chamam sua atenção por um segundo. Abre a porta do banheiro novamente, caminha devagar e em silêncio pelo corredor. Os ouvidos, ainda atentos. O coração, ainda acelerado, embora não tanto quanto antes.

Experimenta, passo a passo, uma sensação diferente. Um dia vai saber que é orgulho. Não há mais monstros. Tinha feito tudo do jeito que o avô explicou e deu certo. Vovô tinha razão, nem o Bicho-papão é páreo para Pepe Valente. Um sorriso se desenha em seus lábios. Súbito, um ruído forte atrás. Ele se vira depressa, o coração aos pulos. Eles voltaram?

A luz da lanterna atinge o urso de plástico ainda rodando no chão, ao pé do aparador. Murilo olha para a capa-lençol e conclui que ela esbarrou no bibelô, ao sair do banheiro. Apenas um susto bobo. Quase volta a sorrir e segue em frente.

Já no quarto, deita-se, tapa-se com as cobertas, sem tirar a capa. Tira o boneco do bolso e o deixa no travesseiro, em frente ao rosto. Pouco antes de adormecer, pensa no avô. Precisa contar a ele o que tinha acabado de acontecer.

O vento segue assobiando, enquanto o garoto dorme tranquilo. A energia elétrica volta, o abajur se acende. A luz revela duas figuras no batente da porta. Uma é mais alta, tem dentes longos e escuros. Os olhos são parecidos aos de um gato. O corpo encurvado tem escamas de cores escuras. A outra, mais baixa, tem uma cauda longa, que termina em uma ponta. O corpo peludo e acinzentado. Unhas compridas apoiadas no marco da porta.

Murilo se mexe na cama, pisca os olhos sonolentos e olha para a porta. Força a vista um instante, mas não há ninguém ali. Apaga o abajur, bocejando. Vira-se para o lado e fica quieto.

No corredor em penumbra, colados na parede, uma de cada lado da porta do quarto, as duas criaturas lutam para abafar a respiração agitada. A maior, com seus olhos de gato arregalados, sussurra:

– Essa foi por pouco! Pensei que ele tinha nos visto! Essas suas unhas barulhentas!

– O que foi aquilo? – a outra responde, secando o suor da testa peluda – Essa coisa de ir sozinho ao banheiro no meio da noite? E você viu a cara dele? Aquele jeito?

– Eu vi! – sussurra colocando a mão no peito – É tão assustador! Detesto quando eles começam a fazer isso!

 

 

André B. Ferreira

André B. Ferreira é escritor, revisor em formação, servidor público, licenciado em Letras, especialista em Estudos da Linguagem, terminando o Curso de Formação de Escritores, da Metamorfose. Entende que boas histórias são capazes de transformar as pessoas e o mundo ao seu redor. Escreve Fantasia Urbana para jovens leitores, misturando realismo e imaginação em jornadas sobre coragem, pertencimento e transformação. Também escreve contos que vão do humor ao terror.

Teve contos publicados em antologias do concurso Histórias de Trabalho, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre/RS nos anos 2007 e 2012 e, em 2019, no livro Sementes, resultado do Primeiro Concurso Nacional de Contos do TRE/PR.

Atualmente, trabalha em uma nova história de fantasia urbana para publicação.