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Prece nas alturas

Prece nas alturas

Prece nas alturas

revisado por Isabel Guimarães

Àquela hora o sol estava quase a pino. Seguíamos em nossa jornada. João ia mais acima. Eu, mais abaixo, e Pedro, por último. O paredão rochoso repleto de gretas era altíssimo. Não sei a que horas iniciamos a escalada, mas tinha sido de noite ainda. Apenas seguíamos o plano de João.

Ele fixou mais um camalot na greta da pedra. Limpou o suor que escorria pela testa e ajeitou o capacete. Olhou para mim. Fiz sinal de positivo com o polegar direito. Olhei para Pedro. Estava a uns cinco metros abaixo e vinha, como eu, seguindo a trilha vertical deixada por João. Aferrava-se à corda e vez ou outra enfiava a mão no saco de magnésio preso à cintura.

Pedro olhou para mim e fez um sinal de positivo também. Respirei um momento. Voltei a cabeça para cima e vi como João olhou para o relógio e recomeçou a escalada. Só aí percebi que tinha perdido o meu.

Abaixo de nós, um abismo que terminava na encosta da montanha, entre rochas e vegetação alta. Súbito, uma das sapatilhas de João desprendeu uma parte da rocha. Ele não teve tempo de avisar. Meu capacete suportou as pedras do tamanho de uma laranja que caíram sobre mim. Pedro teve mais sorte.

Não era a primeira vez e possivelmente não seria a última. Nada que merecesse palavra alguma. Sorri para João e comecei a subir segurando-me na greta mais próxima. Pedro deu um gemido. Olhei para baixo. Ele tinha cortado a mão em alguma superfície rochosa. Examinou o ferimento e soprou a sujeira. Depois seguiu subindo devagar, apoiando-se onde podia. Pequenas pedras rolavam sob seus pés, mas apenas bufava de vez em quando e apoiava o pé na próxima cavidade da rocha.

João consultou o relógio e me encarou um momento. O sol já estava a pino. Fez menção de dizer algo, mas levantei a mão num gesto negativo e segui procurando meu próximo ponto de apoio.

Depois de um bom tempo avançando, João pegou o cantil da mochila e entornou o conteúdo na boca. Em menos de cinco segundos sacudiu o recipiente, olhou-me e guardou-o na mochila. Mostrei meu cantil vazio e Pedro fez o mesmo. João fez um gesto afirmativo e passou as costas da mão nos lábios ressequidos.

Fixou mais uma camalot na pedra. Estávamos muito perto do nosso objetivo. O topo da encosta a poucos metros. João tinha aberto caminho a noite toda e agora o dia escaldante se aproximava, calculava eu, das três da tarde. Não quis perguntar a hora. Nem queria saber. Já era tarde demais mesmo.

De repente, senti um puxão. Pedro deu um grito. Olhei e o vi pendurado na corda de segurança que também estava afixada na rocha. Ofegava. Rapidamente, sua mão encontrou a greta na pedra e seus pés se calçaram em pontos de apoio. Arfava ali, parado, no meio do caminho.

Decidi ajudá-lo. Desci devagar, estávamos a menos de dois metros de distância. Ele fez que não com a cabeça. Desci um pouco mais, até que pude estender a mão.

Pedro me encarou. Seus olhos estavam úmidos. Estiquei um pouco mais o braço e nossas mãos se uniram. Pedro conseguiu se estabilizar melhor e me deu um meio sorriso. Olhou para o relógio e para mim. Soltou minha mão e fez sinal para que eu seguisse em frente. Estava tudo bem.

Continuamos por, pelo menos, mais uma hora. João chegou ao topo e jogou uma corda. Atei-a ao redor da cintura e ele começou a me puxar. Arfando, subi mais rápido com ajuda. Pedro ficou no lugar, aguardando.

Depois de uns minutos, gemendo e fazendo grande esforço, consegui chegar ao platô. Com ânimo redobrado, puxamos Pedro para cima em bem menos tempo do que eu levei.

Ficamos os três deitados um momento, apenas respirando. Nem notávamos a dureza da rocha. Tive que limpar o suor dos olhos para poder abri-los. Estava ensopado. Todos o estávamos. Pedro se colocou de bruços, ensaiando um movimento para se levantar, mas não conseguiu. Deixou-se tombar novamente e virou de barriga para cima.

Ficamos os três deitados naquela posição ignorando a belíssima paisagem ao redor, a floresta e o oceano. Só nos interessava o que viria do céu. O imenso meteoro que destruiria tudo abaixo de nós. Talvez ali tivéssemos uma chance. Cinco da tarde. A hora prevista. Percebemos um ponto luminoso e um rastro se formando no céu. Suspiramos. Acho que João começou a rezar.

André B. Ferreira

André B. Ferreira é escritor, revisor em formação, servidor público, licenciado em Letras, especialista em Estudos da Linguagem, terminando o Curso de Formação de Escritores, da Metamorfose. Entende que boas histórias são capazes de transformar as pessoas e o mundo ao seu redor. Escreve Fantasia Urbana para jovens leitores, misturando realismo e imaginação em jornadas sobre coragem, pertencimento e transformação. Também escreve contos que vão do humor ao terror.

Teve contos publicados em antologias do concurso Histórias de Trabalho, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre/RS nos anos 2007 e 2012 e, em 2019, no livro Sementes, resultado do Primeiro Concurso Nacional de Contos do TRE/PR.

Atualmente, trabalha em uma nova história de fantasia urbana para publicação.