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Sabor de Afeto

Sabor de Afeto

por André B. Ferreira

Sabor de Afeto

O velho porta-retrato com a fotografia em preto e branco de uma mulher ainda jovem e um garoto banguela suspirou devagar. Do alto do armário, observava o homem com a barba por fazer comendo em silêncio na mesa de jantar.  O olhar perdido do homem parecia não encontrar nada além do vazio.

— Essa semana o Pedrinho não vem — murmurou o porta-retrato para um pequeno bibelô marrom em forma de urso, perto dele.

— Dá pena mesmo — disse o urso. — Ele ficou tão sozinho.

Nisso, o homem ergueu a cabeça. Escolheu um dos frascos de tempero em um cestinho sobre a mesa. Derramou duas pitadas sobre a sopa na colher. Olhou para o porta-retrato um momento. Depois provou a sopa. Balançou a cabeça devagar, suspirou e seguiu comendo em silêncio.

— Pois é. Agora é isso — continuou o porta-retrato. — Ele até tenta, mas nunca acerta. Não se lembra, já faz muito tempo.

— Não vai ser nada fácil — disse o bibelô, aproximando-se devagar da beira da prateleira do armário, espiando. — Cozinha é como alquimia. Difícil adivinhar ingredientes?

— Você lembra qual era? — atalhou o porta-retrato. — Aposto que ele adoraria sentir, pelo menos, esse gostinho. Um pouco menos de saudade.

— Eu não sei — disse o urso, coçando o queixo —, mas conheço um cara que deve se lembrar. Um que já tava lá quando eu cheguei.

Dito isso, caminhou pela prateleira por trás do porta-retrato e passou pelo relógio de corda estragado. O homem não percebeu nada, tentava com outro tempero. O bibelô foi descendo de uma prateleira para outra até alcançar o piso frio.

Em seguida, entrou na cozinha e escalou a bancada por um pano de prato meio sujo. Finalmente, caminhou sobre a superfície de granito branco e se abaixou na borda. Esticou a patinha para abrir um pouco a gaveta de cima. Logo, sussurrou:

— Pooh? Você tá aí?

Depois de um instante de silêncio, uma voz preguiçosa respondeu:

— O que é que você quer? Esta semana o moleque não vem. Me deixe dormir.

— Preciso saber de uma coisa e acho que só você pode ajudar. É importante!

— Puxa, você é chato, hein? Já estou velho para ter a soneca interrompida desse jeito.

— É que o Murilo tá muito triste. Como você  conhece ele desde sempre, pensei que...

Alguém se queixou por ter levado um pisão. Em seguida, um garfinho de metal com uma imagem do ursinho Pooh gravada no cabo, surgiu na borda da gaveta:

— Por que não disse logo que era ele?

De repente, a campainha tocou. Murilo levantou-se da mesa e saiu. Alguns minutos depois, voltou, deixou um pacote ao lado do cestinho e se sentou. Levantando a sobrancelha, pegou um frasco de tempero com a tampa amarela. Não se lembrava de tê-lo visto antes.

Cheirou de leve. Súbito, apressou-se a temperar a sopa. Remexeu o prato e levou a colher até a boca. Sorveu, fazendo um ruído baixo. Fechou os olhos, degustando por um instante. Por fim, deixou escapar um murmúrio e abriu os olhos.

O porta-retrato sorriu ao reconhecer o brilho daqueles olhos quando o encontraram na prateleira. Ao lado do porta-retrato, o urso admirava as feições do homem, seu rosto cansado agora iluminado por um sorriso. 

Murilo contemplou o porta-retrato por mais um tempo, até ter que passar a mão pelos olhos. Depois, fungou e continuou comendo. Quando acabou, levantou-se e caminhou alguns passos. Deu um beijo suave na ponta do dedo e depois o transferiu com delicadeza para o rosto da mulher na fotografia. Por fim, assentiu com a cabeça, levantou o prato da mesa e foi para a cozinha.

— Agora já não vai ficar tão só, velho amigo — murmurou satisfeito o pequeno urso. O mesmo urso que também estava no retrato preto e branco, protegido e amado, nas mãos calorosas de um garoto banguela e feliz.

André B. Ferreira

André B. Ferreira é escritor, revisor em formação, servidor público, licenciado em Letras, especialista em Estudos da Linguagem, terminando o Curso de Formação de Escritores, da Metamorfose. Entende que boas histórias são capazes de transformar as pessoas e o mundo ao seu redor. Escreve Fantasia Urbana para jovens leitores, misturando realismo e imaginação em jornadas sobre coragem, pertencimento e transformação. Também escreve contos que vão do humor ao terror.

Teve contos publicados em antologias do concurso Histórias de Trabalho, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre/RS nos anos 2007 e 2012 e, em 2019, no livro Sementes, resultado do Primeiro Concurso Nacional de Contos do TRE/PR.

Atualmente, trabalha em uma nova história de fantasia urbana para publicação.