por Angela Martins
MULHERES EM JOGO
Acompanhando a Copa do Mundo de Futebol de 2022, no Catar, me pego analisando a presença das mulheres e sua atuação como comentarista, na arbitragem e narração dos jogos.
Confesso que ainda são poucas e, apesar das críticas em relação à quantidade e à aceitação por seus pares, não deixo de comemorar e relembrar a luta de tantas mulheres e movimentos feministas contra a discriminação e pela equidade racial e de gênero em diversos campos: Dandara dos Palmares, Nísia Floresta, Bertha Lutz, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro e muitas outras brasileiras, isso sem citar as militantes e ativistas de outros países.
E, de repente, lembrei-me de um episódio na minha adolescência, no início dos anos 80, em que eu estava participando de um torneio de queimada com adolescentes de igrejas católicas, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro.
As equipes eram mistas, mas nunca esqueço dos meninos sempre tentando manipular e valorizar sua participação. Eu era pequena, mas muito ágil e boa neste jogo, pois era difícil de ser queimada. Apesar disso, ao ficar até o fim em campo, era pressionada a trocar de lugar com o menino, líder do grupo, invejado pelos outros meninos e queridinho das meninas.
Assim, por razões que só o coração pode explicar, eu sempre cedia e permitia a troca. Mesmo que o time perdesse de qualquer jeito.
Porém, no jogo final do torneio de queimada, meu amor-próprio falou mais alto e, quando meu time ficou desfalcado, eu comecei a ser pressionada a trocar de lugar com o famoso menino que já estava "no cemitério". Mas eu resolvi enfrentar a pressão e fazer valer a minha vontade. Afinal, se eu estava ali, por último, era porque os outros tinham falhado e eu também tinha o direito a uma jogada arriscada.
Com o passar do tempo, nos jogos da vida, fui aprendendo a me valorizar e a impor minha vontade quando e como achasse melhor.
Publicado no livro "As faces de Lélia Gonzalez em mim: Mulheres do ler IV", em 2023.

Escritora, contadora de histórias, mediadora de leitura e idealizadora do projeto LiteraturAção. Escrevo, conto e compartilho histórias e poesia para cultivar literatura, imaginação e encantamento. Cearense, moro em São João de Meriti (RJ). Sou formada em Pedagogia pela UERJ e especialista em Literatura Infantil e Juvenil pela UCAM. Após quase trinta anos dedicados ao magistério, na Educação Infantil e Ensino Fundamental, mergulhei de vez na literatura, minha paixão de infância. Em 2024, publiquei meu primeiro livro solo: "De olho no quintal" (Casa Kids), uma ode à infância, à natureza e à observação poética do cotidiano. Participou do Curso Online de Formação de Escritores.