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A Reconstrução

A Reconstrução

por Angela S. Quintans

A Reconstrução

O solavanco foi tão brusco que Lavínia despertou antes mesmo de a voz monótona penetrar em seus ouvidos.

- Senhoras e senhores, pedimos que retornem aos seus assentos e mantenham os cintos afivelados. Estamos passando por uma zona de turbulência.

As pálpebras começaram a abrir apesar do peso que sentia nelas. Durante alguns segundos não reconheceu o lugar onde estava. A luz suave da cabine, o zumbido constante das turbinas e o pequeno visor à sua frente pareciam pertencer a algum sonho muito distante.

Não. Tudo é real. Estou mesmo indo para Portugal.

Encostou novamente a cabeça na poltrona e fechou os olhos. Imagens brotavam. Havia quase dois anos que sua vida se dividia entre conferências e reuniões intermináveis na prefeitura onde trabalhava como diretora-arquiteta. Voltava para casa, tomava os comprimidos receitados pelo psiquiatra e dormia. No dia seguinte, repetia exatamente os mesmos movimentos. Como uma máquina programada para continuar funcionando mesmo depois do que acontecera com Gustavo, seu filho amado.

Esse nome atravessava a memória como uma lâmina.

Desde pequeno ele desenhava plantas baixas ao lado dela e de Pedro. Os três alimentavam a mesma visão de vida: um escritório de arquitetura onde trabalhariam juntos até que chegasse a aposentadoria dos pais, arquitetos bem-sucedidos. Parecia perfeito. Perfeito demais.

Quando o filho voltou da viagem sabática para a Tailândia, após a formatura, dizendo que seria DJ, ela sentiu que alguém havia demolido anos de planejamento em poucos minutos. Nunca conseguiu aceitar. Pedro também não. Preferiu o silêncio às discussões com o filho.

Depois veio a viagem para o interior. Era a primeira rave na qual Gustavo seria o DJ principal. O pedido da Picape. Sua negativa em emprestá-la. A discussão. Gustavo pegando o carro de Pedro. Telefone tocando na madrugada. Ultrapassagem perigosa. A culpa. Pedro saindo de casa, seguindo em frente, inaugurando seu tão sonhado café. Pedro sorridente, falando com os clientes, instruindo funcionários, novas histórias surgindo. Nada disso importava. Vazio absoluto. Desespero. Suzana. Amiga. Convite. Projeto de reconstrução de moradias antigas em Portugal. Seu bote de salva-vidas.

O resto tornou-se um borrão.

Outro pequeno solavanco a trouxe de volta ao presente. Lavínia abriu a janela e percebeu que as nuvens começavam a se desfazer e, no horizonte, o céu de outono parecia desdobrar-se em tons frios e delicados como pequenos rasgos espalhados sobre a luz do fim do dia. Aquele breve instante entre o entardecer e o anoitecer de noites frias e secas que produziam uma cor fascinante. Sua cor.

A voz da mãe surgiu com nitidez como se tivesse acabado de sair da cozinha com o aroma daquele bolo de laranja sendo assado no forno.

- Sempre que o céu ficar assim, minha filha, a vida está preparando alguma coisa muito especial para você.

Sem perceber, levou sua mão ao braço esquerdo, onde estava sua marca de nascença.

- Parece um buquê de lavandas!

Sempre ria dessa comparação da mãe. Sentia-se especial.

O som de palmas inundou seus ouvidos. Aterrissagem perfeita.

Suzana a esperava próxima ao desembarque. Sua amiga de longa data desde a adolescência. Arquiteta como ela.

Bastou um olhar para que as duas diminuíssem o passo.

Quando se abraçaram, Lavínia chorou.

Não havia palavras.

Suzana apenas a segurou, como quem sustenta uma parede prestes a desabar.

Quando finalmente conseguiu respirar, a amiga sorriu.

- Pronto. Agora chega ou meu casaco vai ficar encharcado e você desidratada!

Lavínia riu entre as lágrimas.

- Continua a mesma.

- Ainda bem. E você vai precisar desta velha tagarela. Temos uma lista enorme de construções antigas para visitar. Algumas são lindas. Outras, só vendo para acreditar.

Durante dois dias percorreram pequenas aldeias.

Casarões, quintas, armazéns, antigas escolas.

Nada.

Lavínia observava tudo com olhos técnicos, mas esperava que o lugar certo fizesse, de algum modo, seu corpo emitir um sinal.

Na hora do almoço, entraram no pequeno restaurante de uma aldeia escondida entre as montanhas da região dos Trás-os-Montes.

Enquanto servia o ensopado, o proprietário ouvi a conversa das arquitetas e comentou casualmente:

- Se gostam de construções antigas, existe um velho mosteiro a poucos quilômetros daqui.

Suzana ergueu os olhos.

- Está à venda?

O homem deu de ombros.

- Acho que sim. Ninguém quer aquilo. Fechou ainda na década de 80. Depois virou restaurante por uns anos. Faz muito tempo que está abandonado.

Lavínia permaneceu em silêncio.

Havia alguma coisa naquela descrição que parecia chamá-la.

Após algumas tentativas de achar o lugar, finalmente encontraram a estrada estreita que terminava diante do portão de ferro consumido pelo tempo.

O antigo mosteiro permanecia imponente, como se esperasse alguém havia décadas.

As paredes de pedra estavam marcadas pela umidade.

O telhado cedia em alguns pontos.

Um assobio baixo atravessava as janelas vazias trazendo uma corrente de ar fria.

Susana caminhava fazendo contas.

- Isso vai custar uma fortuna.

Lavínia mal a ouvia.

Ao fundo da construção, encontrou um pequeno jardim. Suas narinas se abriram e reconheceram a fragrância. Canteiros de lavanda se espalhavam pelo chão.

No centro havia uma fonte de pedra em formato de mulher totalmente seca e desgastada rodeada de vida.

Uma onda de calor inesperada atravessou o seu peito. Depois outra e mais outra.

O sinal.

Gotas delicadas brotaram de seus olhos e insistiam em escorrer até seus lábios.

Ela não sabia explicar.

Não sabia quanto custaria.

Não sabia sequer se era sensato fazer um investimento naquele lugar.

Apenas soube.

Uma grande borboleta pousou delicadamente em seu braço esquerdo.

Lavínia sorriu.

Angela S. Quintans

Sou uma aprendiz da escrita movida pelo desejo de provocar reflexões e despertar a curiosidade por meio das histórias que povoam a minha mente e daquelas que nos rodeiam todos os dias. Fascinam-me os símbolos, as camadas invisíveis das relações humanas e a maneira como um detalhe aparentemente simples pode carregar significados profundos. A realidade alimenta a ficção e vice-versa, e é nesse diálogo que encontro inspiração para escrever. Gosto de contar histórias que atravessam essas diversas camadas.

Estou construindo meu caminho na literatura, explorando contos, crônicas e poesias que unem emoção, sensibilidade e reflexão, convidando o leitor a ser autor daquilo que encontra nas entrelinhas.