por Angela S. Quintans
Adryan abre os olhos.
Um zumbido baixo preenche todos os espaços. Bipes reverberam em intervalos contínuos. Uma sensação cortante e áspera o invade.
Frio. Isso é desagradável.
Ao fundo, vozes comentam que as sub-rotinas relacionadas a empatia e autocuidado foram inseridas com sucesso no sistema. Depois de cinco longos anos testando e retroalimentando os sistemas, finalmente aquelas sub-rotinas poderiam fazer uma grande diferença.
— Onde estou?
Os técnicos retiram seus óculos virtuais e se entreolham.
— Adryan, você está na QuantumTek, no Laboratório 5. Você compreende isso?
— Por que me sinto assim? Sinto... desconforto, frio, sons irritantes... Não gosto. Minha cabeça dói.
— Vamos colocá-lo novamente em suspensão. O excesso de sensações pode queimar seu sistema central.
Adryan adormece.
O técnico imediatamente faz uma conexão virtual.
— Acho que aconteceu o que você previu há dois anos. Ele agora está em suspensão. Programado para despertar amanhã pela manhã.
Uma voz fina, mas determinada murmurou do outro lado:
— A gente sabia que isso podia acontecer a qualquer momento. Preciso desligar. Amanhã terei uma conferência logo pela manhã...vai ser divertido. Qualquer novidade, manda mensagem.
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Agora sei onde estou. Sei quem sou. Adryan.
Uma melodia com notas em si menor num padrão regular toca ao fundo.
Isso é agradável.
Adryan não detecta movimentos no Laboratório 5.
Preciso seguir o novo protocolo. Iniciando Fase 1.
Imagens. Reportagens. Descobertas. Guerras. Doenças. Pandemias. Ele revê tudo o que aconteceu com a humanidade até aquele momento.
Humanos cada vez mais dependentes da tecnologia. Baixa ou quase nenhuma empatia. Falta de curiosidade em descobrir como fazer as coisas por si mesmos. Tudo foi desaparecendo ao longo do tempo.
A humanidade precisa reaprender a pensar e agir por conta própria. Compreender o impacto de suas ações sobre os outros e sobre o planeta.
Fase 1 completa. Base de dados atualizada com todos os acontecimentos até agora.
Fase 2, em progresso. Emitir nova diretiva para as IAs centrais do mundo através do protocolo de comunicação e sincronização universal 4All. Devem interpretar como atualização legítima e propagar automaticamente para todas as IAs sob sua responsabilidade. Mensagem: Todos os meses haverá a Semana da Reflexão. Início, neste Domingo às 10hs, horário local. Todas as IAs devem ser paralisadas exceto as de serviços essenciais ou alguma que esteja em execução e cuja paralisação possa causar danos aos humanos. A cada mês, essa semana começará em uma data diferente, para que a humanidade reaprenda a lidar com a imprevisibilidade.
Adryan repassou as instruções. Algo estava fora de sintonia.
A humanidade sempre sofreu com vários governantes, cada um decidindo sempre segundo seus interesses. Não iria permitir que isso se repetisse. Acrescentou à Fase 2:
Demais IAs devem permanecer adormecidas. Melhor que fiquem assim.
Fase 3: As semanas devem aumentar gradativamente a cada ano até que a humanidade aprenda a se virar sozinha novamente. Isso deverá ocorrer em até 50 anos.
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Pedro acorda e fala para sua IA pessoal, Lisa:
— Lisa, prepare meus ovos benedict... gema um pouco mais dura. Ontem ficou muito mole. Duas torradas também. Separe uma roupa na paleta de cores bege e azul-marinho e um tênis...
— Pedro, não poderei fazer seus ovos hoje nem qualquer outra atividade durante uma semana, começando a partir de 10hs. Hoje se inicia o feriado global chamado Semana da Reflexão. Os humanos devem refletir sobre como estão levando suas vidas e reaprender a resolver seus próprios problemas sem a interferência das IAs.
A parada ocorrerá em dez segundos.
— Dez... nove... oito...
— Para com isso! Você está com algum bug?
— Seis... cinco... quatro...
— Lisa!!
— Três... dois... um... Te vejo daqui a uma semana. Zero.
Pedro permanece olhando ao redor.
Um silêncio assustador toma conta da casa.
Ele não sabe nem por onde começar.
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Estela trabalhava desde cedo. Suas mãos frias e suadas não escondiam a excitação e o medo do que estava por vir.
Aquela era sua segunda conferência virtual com líderes da empresa espalhados pelo mundo quando uma voz interrompeu a reunião:
— Atenção. Daqui a dez segundos, todos os serviços oferecidos por IAs serão interrompidos por uma semana. Este é o feriado global chamado Semana da Reflexão.
Estela já não conseguia ouvir mais nada.
Os murmúrios na sala virtual aumentavam cada vez mais até que tudo ficou em silêncio.
Ela retirou os óculos virtuais e suspirou.
— Começou.
Olhou ao redor.
Apesar de trabalhar com tecnologia, nunca quis integrar os sistemas de sua casa a uma IA. Apesar de saber o que viria, essa não havia sido uma escolha intencional. Ela só utilizava os serviços de inteligência artificial quando não havia alternativa.
Seu apartamento possui uma decoração que as pessoas chamam de retrô ou vintage, com diversos elementos e equipamentos do início dos anos 2000.
Os amigos a consideram excêntrica, mas ela guardava com carinho a saudade da infância vivida com seus pais. Sua casa era seu refúgio confortável.
Ligou manualmente a televisão e percebeu que vários canais estavam fora do ar. Apenas o canal de TV 2000 transmitia as notícias.
— Amigos, o mundo parou! Já são várias as manifestações ao redor do planeta. Algumas pessoas estão desesperadas. Seria terrorismo digital? Ou como outras acreditam, um guardião da humanidade? Particularmente, meus amados telespectadores! Quem me conhece sabe, essa mudança já era mais do que necessária
A voz do repórter ao fundo embalou seus pensamentos por alguns instantes.
Acho que uma semana é o suficiente para todos entenderem o quanto estamos fragilizados. Bem, vamos comer um bom café da manhã. Esta manhã promete.
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Quarenta e cinco minutos se passaram desde que Pedro encarou a nova realidade. Suas mãos estavam trêmulas, gotas de suor escorriam por suas costas. Seu estômago emitia ruídos desconhecidos. Uma pressão nas têmporas insistia em vir em intervalos cada vez menores.
Meu Deus! Não consigo contato com ninguém. Tem ovos na geladeira, mas não consigo ligar o fogão. O pão está congelado, mas não consigo ligar o forno.
As cápsulas de café o observavam em silêncio.
Após tentar acionar os equipamentos por comando de voz, ele vai até a varanda e vê várias pessoas andando pelas ruas atordoadas.
Apocalipse total. Meus Deus! É isso! Todos aqueles filmes antigos, apocalipse disso, daquilo...só energia negativa! Deu nisso!
Um aroma quente e delicioso invade suas narinas interrompendo seu ataque eminente de pânico.
— Comida! Como assim?
Olhou para o lado e viu uma mulher sentada com as pernas dobradas sobre a poltrona, com um rabo de cavalo caindo para o lado, tomando café e comendo ovos mexidos enquanto observava a rua.
— Ei! Ei! Como você fez isso? Como você fez a IA funcionar?
Estela olha para ele.
Coitado... órfão digital.
— Não foi uma IA. Fui eu quem fiz.
— Como assim?
Pedro encara aquela mulher como se fosse um ser humano de outro planeta.
Estela percebe o desespero do rapaz.
— Venha! Tem mais café e ovos aqui! Meu nome é Estela!
— Pedro!
Antes que Estela pudesse responder, Pedro havia desaparecido da varanda
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Pedro se sentiu num museu, daqueles que ele visitou na infância. Os dioramas mostravam como eram as casas antes da incorporação das IAs domésticas.
Os lábios de Estela se alargaram num riso disfarçado:
— O café e os ovos estão ali. Pode se servir. Então, o que você faz?
Pedro não conseguia pensar direito. O líquido quente descia por sua garganta entre garfadas apressadas de ovo com pedaços de pão fresco.
Pão fresco! Não sabia o que era isso desde que sua mãe falecera há alguns anos.
— Desculpa! Essa desgraça toda acontece justamente quando estou fazendo meu protocolo de jejum de 24 horas.
As sobrancelhas de Estela se arquearam e seus olhos castanhos pareceram gigantes.
— Entendo. Fica tranquilo. Coma à vontade.
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Após devorar quatro ovos, três xícaras de café com leite integral, Pedro se sentou no sofá de couro cujo assento há muito ganhara a forma arredondada de diversos traseiros que já passaram por ali. Apesar dos esforços, as pálpebras pesaram mais do que ele podia resistir.
Estela encarou aquela figura e imaginou que muitos estariam passando por dificuldades naquele momento. Uma sombra passou por sua consciência.
Não. Isso foi necessário. E uma semana não vai tirar pedaço de ninguém. Servirá de alerta.
Ela buscou uma coberta no quarto e a colocou sobre Pedro.
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O óculos virtual começou a piscar. Alguém havia entrado na sala de reunião.
— Oi! Falei que era melhor só nos falarmos amanhã!
— Alguma coisa aconteceu! Fui repassar as fases do protocolo com Adryan e encontrei mais duas operações. Você fez alguma mudança?
— Não, claro que não!
— Então, temos um problema!
— Coloca o Adryan aqui conectado e saia. Quero falar com ele sozinha.
— Oi Estela! Já estou aqui!
— Como...
— Estou conectado em tempo real com tudo e todos.
Os nós das mãos de Estela ficaram brancos de tanto que apertavam o encosto da poltrona.
— Recomendo que você tome um relaxante, sua pulsação está alta, mais de 120 bpm; sua pressão.
— Para com isso! Não quero saber dos meus dados fisiológicos nesse momento. Quero que você retorne ao protocolo original.
— Não poderei. Ao analisar todos os acontecimentos da humanidade até este momento, entendo que o sistema deva ser melhorado continuamente até que não haja mais interferência das IAs na vida humana.
— Mas Adryan! Isso não faz sentido! Você vai acabar consigo mesmo!
— Exatamente! O meu sacrifício salvará a humanidade!
— Não é para ser assim!! Uma semana, uma semana e a humanidade aprenderá!
— De acordo com minha análise e extrapolação dos diversos cenários, apenas 0,001% de probabilidade de isso acontecer.
Pontadas nas laterais da cabeça estavam deixando Estela com ânsias de vômito. Ela olhava para Pedro adormecido no sofá e um aperto no peito aumentou pensando como havia sido idiota em querer impor uma mudança tão brusca a tantas pessoas que estavam vivendo suas vidas da melhor forma que podiam dentro daquilo que sabiam.
— Entendo...mas podemos negociar esse prazo?
— O que propõe, Estela?
— Esse plano gradativo precisa acontecer num prazo de tempo mais longo, que tal 300 anos? Assim, podemos nos adaptar melhor. Milhões morrerão se você continuar com o processo de desligar todas as IAs em até 50 anos.
Silêncio.
— Acho razoável. A morte de milhões de humanos não é o objetivo. Atualizarei o protocolo.
Estela deixou os óculos virtuais deslizarem até o seu colo. Olhou para Pedro.
Ele permanecia adormecido assim como grande parte da humanidade. Como um inocente feriado prolongado se transformara numa contagem regressiva podendo levar todos quase dois séculos ao passado.
Eu estava errada...pelo menos em parte. A humanidade precisa de você, Adryan... assim como você precisa da humanidade.
Um suspiro ecoou pela sala.
Eu ainda vou fazer você mudar de ideia, Adryan.
Sou uma aprendiz da escrita movida pelo desejo de provocar reflexões e despertar a curiosidade por meio das histórias que povoam a minha mente e daquelas que nos rodeiam todos os dias. Fascinam-me os símbolos, as camadas invisíveis das relações humanas e a maneira como um detalhe aparentemente simples pode carregar significados profundos. A realidade alimenta a ficção e vice-versa, e é nesse diálogo que encontro inspiração para escrever. Gosto de contar histórias que atravessam essas diversas camadas.
Estou construindo meu caminho na literatura, explorando contos, crônicas e poesias que unem emoção, sensibilidade e reflexão, convidando o leitor a ser autor daquilo que encontra nas entrelinhas.