por Angela S. Quintans
Ana havia perdido a noção do tempo enquanto olhava através da janela. Tons esverdeados dançavam de um lado para o outro. Raios quentes traziam alívio às suas mãos sob a água gelada da torneira. Fechou os olhos. Mas suas narinas não deixavam o cérebro se enganar: gordura, fumaça, aparas de carne, todos os odores se misturavam dentro dela. Essa seria a última vez que ela estaria ali naquela cozinha? Gritos rasgaram sua paz.
— Acorda! Acaba logo de lavar essa louça e vai até o posto comprar o que é preciso para o jantar de hoje à noite.
— Claro, Mamacita! Estou acabando.
Seus olhos mergulharam num vazio, enquanto o seu corpo realizava as tarefas. Ninguém desconfiava. Nada a impediria.
Imagens, há muito represadas, insistiam em brotar.
Uma jovem inteligente e feliz. Pais imigrantes colombianos no Brasil. Sua habilidade natural para aliviar as dores das pessoas. Suas mãos atraídas para o local certo e a dor cedia. Fisioterapia fora a sua escolha.
Novos colegas. Risadas. Noites viradas de estudo. Sonhos.
— Minha filha! Advinha? Seu tio Juan está vindo da Colômbia nos visitar! Deve passar um tempo conosco.
Ela não se lembrava mais deles, mas ficou feliz.
Quando chegaram, trouxeram Pablo, um primo distante. Rosto bonito, fala mansa.
— Que guapa eres, Ana!
Os dias passavam, Ana e Pablo cada vez mais próximos. Ele escutava seus anseios e planos. Sempre assentindo a tudo. Ele ficara intrigado com o seu dom de aliviar as dores dos outros.
— Ana, você poderia ajudar muita gente na nossa terra!
— Minha terra é aqui!
O maxilar de Pablo trancava. Seu rosto economizava palavras.
Seis meses voaram sem perceberem.
Ciúmes disfarçados. Falas pesadas embaçadas pelos passeios na orla e os beijos apaixonados.
— Preciso voltar para a Colômbia. Tenho meus pais e preciso ajudá-los no negócio da família. Quero você! Vem comigo! Podemos nos casar. Você continua seus estudos lá na capital.
As flores, os pássaros, as cores, tudo vibrava intensamente naqueles dias. Ana mergulhou.
Um mês depois, o avião pousava na Colômbia com um coração transbordando de sonhos.
Na chegada à Bogotá foram para uma pensão nos arredores da cidade. Ana estranhou um pouco o bairro.
— Mi amor! Só por um tempo até termos uma casa nossa! Mas antes, vamos visitar meus pais em Porto Boyacá. Você vai conhecê-los. Amanhã partimos cedo.
Ana sentada na cama, sentiu uma corrente de ar atravessando o seu corpo em ondas geladas. Olhou em volta. Alguma janela deve estar aberta. Pablo adormecera tranquilamente.
——
Puerto Boyacá.
Um calor úmido e denso grudava no corpo. O rio Madalena impressionava mais pela imponência do que pela beleza. As águas eram amarronzadas com pequenas ondas, canoas longas de madeira e seus motores barulhentos descarregavam bananas e peixes sob um céu carregado de mormaço. A brisa quente trazia odores desagradáveis. Um sabor ácido subiu pela garganta de Ana. As ruas eram estreitas com motos modestas de um lado para o outro contrastando com picapes altas e modernas. Ao longo das ruas, grupos de homens com uniformes e armas nas mãos circulavam.
Os músculos se retesaram, seu estômago parecia colado nas costas. A mente inventava várias desculpas, mas as reações do corpo já não escondiam mais a verdade.
Ao chegarem à casa dos pais de Pablo, a realidade se fez.
— Anda menina! Pode levar as malas lá para dentro e vem me ajudar na cozinha. Temos visitas à noite.
O olhar de Ana buscou o de Pablo, mas a porção do homem que ela resistira em reconhecer nos últimos meses, havia aflorado de vez.
As semanas se seguiram e foram uma sucessão de imagens embaçadas pelas lágrimas. Durante o dia, empregada; durante a noite, ela se fechava em sua própria mente para suportar o marido.
Os pais ligavam, mas Ana era sempre vigiada e acuada. Não percebiam nada. Ela reagia. Pablo não fazia mais questão de conter sua fúria a cada tentativa de resistência.
— Não me contrarie, Ana!
O toque cortante da cinta era insuportável. Lágrimas. Dor. Mais lágrimas. Fome. Escuridão.
Dias, semanas, meses, finalmente um ano. Tornara-se indispensável na casa.
— Mamacita! Deixa que eu faço isso. Tem que descansar!
Olhos frios. Gestos calculados.
Ajudava os amigos de Pablo que ficavam feridos nos confrontos com a polícia. Com os cuidados de Ana, todos começaram a respeitá-la mais. Pablo ficara mais atencioso.
Toda a vez que suas mãos aliviavam aquelas dores, um enjoo a atravessava.
Deus! Me perdoa por estar ajudando essa corja!
Confiança conquistada. Liberdade concedida. Já podia ir ao supermercado sozinha. Em alguns dias da semana, levava ou buscava algumas encomendas no posto de gasolina perto do supermercado na estrada principal. Eram pelo menos dois quilômetros. Leveza efêmera. O sol batendo em seu corpo só trazia a certeza de que ela se livraria daquele hospício.
Numa dessas entregas no posto, enquanto esperava o contato, Ana resolveu encher o tanque. A mulher que trabalhava lá, sempre com a cabeleira desgrenhada, se aproximou da outra bomba e começou a falar:
— Continua enchendo o tanque e olhando para a bomba. Me chamo Nelly.
O corpo de Ana estremeceu num sobressalto. Sempre a via ali ajudando com as bombas. Fala alta. Até agressiva. Em alguns momentos a achava familiar. Logo pensava que era coisa da sua cabeça.
Aquela cadencia na voz não era a que estava habituada a ouvir daquela mulher.
— O que você quer?
— Eu sei que você se chama Ana e é brasileira. Venho te observando e meus contatos também. Sei também que de alguma forma você foi trazida para cá contra sua vontade. Pisca duas vezes para dizer que tudo é verdade e continue enchendo o tanque.
Pássaros passaram em revoada bem perto delas. Ela apertou os olhos duas vezes como se um cisco enorme tivesse entrado neles.
— Muito bem, menina! Escuta com atenção. Sei que você deve ter várias dúvidas. Mas só posso te dizer isto: vou te tirar daqui
Ela olhou de soslaio para a mulher:
— Peraí! Eu conheço você! Você parece a...
— Não posso te dizer quem eu sou... continua olhando para frente.
Não podia acreditar! Nelly Bynton! Seria ela mesmo? Repórter investigativa responsável por diversas operações que desbarataram várias redes de milicianos conectados com o narcotráfico ali na Colômbia e em outros países da América do Sul. E se eu estiver delirando?
— Mas...
— Sem, mas...daqui a dois dias vou estar neste Posto entre às 14 e 16 horas. É tudo o que posso dizer. A escolha é sua! Venha com a roupa do corpo. Agora vá.
Ana desligou a bomba, olhou para o lado, mas não viu mais ninguém. Em alguns segundos, uma sombra pousou sobre ela, num reflexo ela se virou.
— Trouxe meu pacote?
Ela estendeu o pacote que balançava sem parar em suas mãos. Os olhos do homem pararam sobre ela. Gotas escorriam da testa de Ana. Ele piscou, e foi embora.
Apressou o passo. Seu coração, seus músculos, nervos, tudo pulsava como cordas desafinadas de um violão. Não sabia como assimilar tudo o que ouvira. Os dois quilômetros de volta nunca foram tão necessários.
— Por que demorou tanto? Anda! Para a cozinha!
— Sim, Mamacita!
Cortar legumes. Temperar a carne. Fazer arroz. Fazer o feijão. Carne moída. Ovo frito. Fazer as Arepas.
Ana olhava as Arepas ficando prontas, aqueles pequenos discos de massa de milho. Imaginava-os como lâminas redondas, cortando a todos por dentro.
Jantar farto. Cantorias. Xingamentos. Brigas. Ciclo interminável.
Finalmente foi para o quarto e deitou. Pablo desmaiado, num quase coma alcoólico. Adormecendo, escutou o som do pássaro fantasma. Era a primeira vez que escutava. Se lembrava das lendas que sua mãe contava. Mau presságio. Para quem? Nos sonhos que vieram, Ana era aquele pássaro. Pablo e seus sogros gritavam desesperados. Um sorriso se desenhou nos lábios de Ana.
——
— É hoje.
Olhou as nuvens cinzas se formando.
— Mamacita, o contato confirmou a entrega lá no posto hoje?
— Ana hoje você não precisa ir. Ele não vem. Disse que está caindo o mundo lá para aqueles lados.
Coração parando de bater. Voz se esforçando para sair da garganta. Os ponteiros dos segundos daquele relógio da cozinha pareciam um congelar no tempo.
Pensa rápido Ana!
— Mas Mamacita, hoje não é o dia do jantar dos amigos de Paulo? Não vamos fazer nada especial? Quanto mais comem, mais bebem, né? Mais dinheiro fica na mesa.
A sogra olhou longamente. Seus olhos se estreitaram numa curva ascendente.
— Olha, não levava muita fé em você no começo. Mas é isso mesmo, vou fazer uma lista do que preciso e você vai lá e vamos fazer um jantar maravilhoso. Mas antes, lava essa louça que está na pia.
— Sim, Mamacita! Já volto para lavar tudo!
Foi ao banheiro. Olhou pela última vez naquele espelho cheio de imperfeições e quase não reconheceu o reflexo. A menina havia ido embora há muito tempo.
Acabou de lavar toda a louça. Olhava para a janela. Tons esverdeados dançavam de um lado para o outro. Sim, hoje era seu último dia naquele inferno.
——
O caminho até o Posto foi longo na angústia e curto nos passos que se apressavam a cada metro percorrido. Ao chegar no posto, a água já havia desabado e lavado todas as calçadas. Cheiro de terra molhada invadia o lugar. Ninguém ali. Seus ombros arquearam-se, sua cabeça rodopiou. Novas águas insistiam em invadir seus olhos.
— Ana!
Aquela voz familiar congelou o seu estômago. Ela se virou e viu Pablo a alguns metros dela em sua moto.
— Venha! Vai chover mais ainda. Eu já havia dito a mãe que não queria que você viesse.
Não. Não pode ser. Não posso voltar.
Pablo a olhava, sem entender a hesitação.
Nesse momento, o som do motor de uma Picape rompeu o silêncio, espirrando lama para todos os lados e derrubando latas de lixo. Uma porta se abriu.
— Entra!
Levantou os olhos, viu uma mulher de cabelos desgrenhados, grudados no rosto. Dois homens com câmeras a acompanhavam.
Correu.
Assim que entrou um carro, Nelly, sem a cabeleira desgrenhada, com seus cabelos escuros e curtos, sorriu para ela. Ana sabia que o pesadelo havia terminado.
Pelo retrovisor, Pablo foi ficando cada vez menor até se tornar um ponto minúsculo cercado de faróis da polícia e dos helicópteros da Interpol sobrevoando a região.
Fechou os olhos e deixou o vento bater no rosto enquanto o carro avançava pela estrada.
Sou uma aprendiz da escrita movida pelo desejo de provocar reflexões e despertar a curiosidade por meio das histórias que povoam a minha mente e daquelas que nos rodeiam todos os dias. Fascinam-me os símbolos, as camadas invisíveis das relações humanas e a maneira como um detalhe aparentemente simples pode carregar significados profundos. A realidade alimenta a ficção e vice-versa, e é nesse diálogo que encontro inspiração para escrever. Gosto de contar histórias que atravessam essas diversas camadas.
Estou construindo meu caminho na literatura, explorando contos, crônicas e poesias que unem emoção, sensibilidade e reflexão, convidando o leitor a ser autor daquilo que encontra nas entrelinhas.