por Beatriz de Mello Beisiegel
— Ai, amiga — ela suspirou com exagero — fugir eles fogem mesmo, ou tentam, sempre. Mas é só puxar a guia e chamar, quer ver? Astolfooooooooo! Aldooooooo! Tomiiiiiiiiii! Ninaaaaah ...
— Tá bom, já vi, pode parar! — exclamou a amiga, vendo as quatro figuras atravessarem os portões do cemitério e evaporarem entre os túmulos — deixa eu ver essas guias aí? — perguntou, desconfiada. As duas estavam sentadas sobre o muro largo do Cemitério do Recanto Verde, a rua ensolarada e cercada pelos manacás de um lado, o silêncio sombreado pelos túmulos altos de pedra do outro.
— Pô, Morte, assim é sacanagem! — ela examinara as guias e agora as sacudia na cara sorridente da outra — Cigarros! — ela debulhou toda a guia feita de canudinhos fumegantes e fedorentos —Álcool! — jogou no chão a guia de taças e copos, que se estilhaçaram em milhares de diamantes molhados — Drogas! Jogo! — tigrinhos e tubetes foram picados e espalhados pelo ar — Causas naturais, a gente combinou! Você descumpriu!
— Ai, que frescura, Vi! Que que tem aí que não seja natural? Capinzinho, fermentado, tigrinho! Tudo, tudo da natureza.
As duas fecharam a cara em um longo emburramento mútuo.
— Os meus não fogem, olha só — disse a Vida uma meia hora depois, cutucando a amiga — Zizaaaaaa, Mizinha.. — não deu para escutar se tinha mais chamados porque uma multidão barulhenta ocupou a alameda de manacás, rindo, correndo, conversando, gritando, latindo, miando. O estranho, notou Morte, é que a amiga tinha apenas duas guias nas mãos. Uma coberta de pêlos e lama e a outra... os olhos da Morte se encheram de lágrimas.
— Pilantragem, Vi! A gente tinha combinado que ninguém teria mais que os outros, e olha isso! Montões de amor, a graça dos bichos, a alegria de todos, você se entregou toda para essas duas aí! Você que descumpriu!
— Voltaaaaaaa! Elas é que plantaram tudo isso, eu fiz tudo direitinho igual pra todos, como combina —
Tarde demais. A Morte já havia pulado para a rua, ceifando bichos, espalhando câncer e dor.
Durante alguns meses só se ouviu o choro dos sobreviventes.
— Tá vendo, Vi, com ou sem trapaça eu sempre venço no final — disse finalmente a Morte. Mas a Vida não chegou a responder, porque nesse instante um vento soprou nos manacás enchendo o ar de pétalas brancas e roxas, uma criança riu, alguém assobiou uma canção de amor. A Vida sorriu, as duas amigas se abraçaram e aí não tinha mais ninguém no muro, só um velho anjo de pedra pensativo.
Para minha irmã Mi, nesse dia triste
montões de amor
Sou bióloga, especialista em comportamento animal e conservação da biodiversidade. Escritora animalista, com dois livros de ficção na Amazon: Vento Sul e O silêncio das girafas, ambos de 2024. Também escrevi, com colegas, dois livros dedicados à conservação da fauna, Mamíferos da Serra da Macaca (um guia para tentar fazer com que os motoristas se apaixonem pelos bichos que cruzam a estrada em vez de passar por cima deles), em 2016, e Onças pintadas do estado de São Paulo: Guia de identificação, com as histórias e fotos de cada uma das poucas onças que resistem à nossa destruição, em 2023, que pode ser encontrado na página do projeto: https://oncascontinuoparanapiacaba.eco.br/. Participei do Curso Online de Formação de Escritores.