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Ocos

Ocos

por Beatriz de Mello Beisiegel

Ocos

Você percebe que desta vez foi longe demais quando sente a corrente gelada envolvendo seu corpo e te arrastando. Você reage nadando com toda a sua força, que nada vale nesta correnteza. Ainda dá tempo de ver a turma toda na praia, alguns já te olhando com alarme. Essa foi sempre a maior diversão da vida, brincar ali bem perto de onde muda a forma da água, chegar na beira daquela lisura que grita perigo, onde ninguém mais tem coragem de ir, ver as garotas te olhando comprido da praia e os caras fingindo que não te vêem, sabendo que não terão chances contra você.

Enquanto dá para ver a praia você ainda tenta, nada de lado, de frente, experimenta ir para o fundo e atravessar por baixo daquele mundo de água gelada em movimento rápido. Mas logo são só você e o mar, tão imenso e frio.

Você é jovem ainda e não sabe a diferença entre bravata e auto-confiança, mas vai descobrir nesses próximos meses no mar. Porque a corrente te larga muito longe de qualquer lugar onde você já esteve. Aqui você escuta diariamente as orcas conversando, planejando a próxima caçada que pode ser você, e não tem ninguém para seguir e aprender onde, nesse mar novo, estão os polvos e náutilos. Você aprende rápido a dormir para afundar em espirais fugindo das orcas e a acordar no fundo do oceano, onde moram as comidas. Você se apaixona por tudo isso apesar do peito apertado pelas saudades do seu pessoal e da praia. Quando o mar começa a ficar mais raso e pontilhado por ilhazinhas você comemora: logo vai chegar à praia e, depois dessa aventura, você com certeza vai ser o macho mais forte do harém.

Mas a praia está deserta. Você percorre quilômetros e quilômetros de areia e costões rochosos. Mesmo com toda a sua atenção afinada pelas orcas você não escuta nenhuma voz do seu povo, só os barulhinhos finos feitos por essas estacas magricelas que estão por toda a parte, chiando, correndo, estorvando. O complicado é que você está naquela fase da adolescência em que precisa encontrar os outros machos, mostrar que é o tal e garantir todas as fêmeas do harém, mas cadê o harém? Você se distancia da praia, buscando, perseguido pelas estaquinhas cada vez mais barulhentas, e finalmente, será? Um macho imenso, maior que você, já de pé te desafiando, cinzento, orgulhoso. Você fica de pé também e rosna, mas ele nem se digna a responder. Errado, isso, te diz o instinto, o ritual manda que vocês fiquem urrando um para o outro, de pé, até gastar toda essa testosterona, e aí ele – porque sua bravata toda já é auto-estima agora – percebe que você é invencível e vai embora. Mas não, ele continua ali de pé, impassível, silencioso, e você se sente ofendido como nunca e desaba sobre ele com todas as suas toneladas. Poucos golpes depois ele cai com um rugido satisfatório e você retoma a busca do harém agora conquistado.

São semanas de busca inútil neste curioso mundo tão diverso de tudo o que você conheceu. As garotas não estão lá, mas esse lugar é cheio de pedras compridas e ensolaradas para dormir, onde você pensa escutar o rugido dos outros machos, mas é só um sonho. Tudo o que você encontra são as estaquinhas te empesteando o tempo inteiro e milhares de pedras diferentes, coloridas, pontudas, redondas, ótimas para ajudar a coçar o queixo e trocar a pele. Entre sonos e saudade do seu povo, vai crescendo sua curiosidade sobre esse mundo estranho, sobre as pedras coloridas e as estaquinhas chiantes carregando náutilos coloridos, mas não é época de alimentação, é de reprodução. Mesmo assim você derruba alguns náutilos para experimentar. São ocos, vazios como esse mundo é vazio, e a fome te leva de volta para o mar.

 

Dedicado a Neil, the Seal

 

Beatriz de Mello Beisiegel

Sou bióloga, especialista em comportamento animal e conservação da biodiversidade. Escritora animalista, com dois livros de ficção na Amazon: Vento Sul e O silêncio das girafas, ambos de 2024. Também escrevi, com colegas, dois livros dedicados à conservação da fauna, Mamíferos da Serra da Macaca (um guia para tentar fazer com que os motoristas se apaixonem pelos bichos que cruzam a estrada em vez de passar por cima deles), em 2016, e Onças pintadas do estado de São Paulo: Guia de identificação, com as histórias e fotos de cada uma das poucas onças que resistem à nossa destruição, em 2023, que pode ser encontrado na página do projeto: https://oncascontinuoparanapiacaba.eco.br/. Participei do Curso Online de Formação de Escritores.