O exercício do desapego é algo mais profundo do que parece. Estou nessa fase há alguns anos, mas volta e meia preciso retroceder a antigas lições, assumindo que algumas delas terão que ser repetidas até o fim da vida. Sempre digo a mim mesma e àqueles que percebo estarem buscando uma vida mais simples, que não tenho muitas roupas, sapatos e acessórios, assim como evito comprar coisas desnecessárias ou com necessidade apenas aparente. Sinto uma ponta de orgulho ao dizer isso, porque esta escolha cotidiana tem me permitido viver experiências bastante marcantes.
Logo percebo, contudo, que não ceder à tentação das roupas e sapatos é apenas um treino de superfície para o que está no subsolo. Numa conversa com meus pais, descobri que o apartamento onde cresci e vivi memórias que até hoje me arrastam para lá, mesmo em sonhos, está prestes a ser vendido. O valor oferecido é irrecusável e vem ao encontro dos planos de não terem mais que subir dois lances de escadas várias vezes ao dia, agora que a idade chegou. Dei o maior apoio e também palpitei sobre o que fazer depois, já que não têm nada mais a lhes prender ao chão: trabalho, filhos pequenos, boletos altos. Ao desligar a chamada e pensar no quanto vai ser bom para eles viver uma experiência mais leve, em lugares diferentes, uma sensação esquisita pousou. Era um bichinho inquieto que, na tentativa de se libertar, debatia-se dentro do coração. Eu sabia o nome daquilo: apego. E minhas memórias? Para onde vou se meus planos não derem certo e tudo ruir? Aquelas paredes foram o que durante mais tempo chamei de casa. O primeiro lar de que me lembro. Metros quadrados de um espaço infinito de lembranças. Eu soltei as amarras do cais e parti há anos. Mas eu sabia que o porto sempre estaria lá a me esperar. Agora que estou do outro lado do oceano, recebo a notícia que não há mais porto. Será que é isso?
Afinal, o que é mesmo a casa? Uma casa. O lar é mais que isso e caminha conosco para o lado que formos. Eu me senti desamparada diante da notícia porque o apego não deixa isso claro. Ele nos leva a uma melancolia obscura, que nos torna cegos para o fato de que as cenas da infância não dependem do universo físico para sobreviver.
Talvez o bichinho do apego tenha ganhado mais força porque o meu primeiro lar próprio, a dez minutos do lar dos meus pais e que em pouco tempo me encheu de memórias afetivas inesquecíveis, também esteja em processo de venda. Assim como o meu primeiro lar aqui em Aveiro, Portugal, foi deixado para trás recentemente. Um espaço físico tão reduzido e já tão cheio de histórias, com sua janela de frente para uma amiga árvore que, mesmo não dando laranja lima como a do personagem Zezé, falava comigo diariamente, cheia de sabedoria. Do quanto as estações são metáforas das fases da vida que, quando compreendidas com inteireza, nos levam a um lugar melhor na gente.
Eu vi minha versão portuguesa do "Meu pé de laranja lima" passar de uma vasta cabeleira verde à calvície total e continuar imponente, linda. Ela me lembrava, diariamente, que nenhuma dor é para sempre. E quando me despedi, reforçou o conselho de Hemingway, do qual já falei por aqui: tudo se cura na primavera, porque é nela que se floresce. Mas sem o rompimento da semente não há flor. Nem vida. O desapego do passado é condição para a primavera entrar. As memórias serão sempre intocáveis, ainda que todo o mundo vire pó. Ou pólen. Não há mundos novos sem caos.
Que venham as primaveras!
Betth Soares é jornalista e mestre em Estudos Editoriais pela Universidade de Aveiro, Portugal. Fundou, em 2015, a editora Ateliê de Palavras, que conduziu por uma década, entre livros e histórias que ajudou a nascer. Foi cronista do jornal A Tribuna, de Santos (SP), entre 2018 e 2023. É autora dos livros Até o Fim (2015), O Lobo, o Urso e a Cura (2019) e Sol de Inverno (2022), além de integrar coletâneas como O mundo é mais bonito pelo olho da poesia (2016) e Tempo para o Amor (2020). Assina o blog Poesia Cotidiana e, atualmente, está à frente do Farol de Papel, onde acompanha o percurso de manuscritos em seu objetivo mais significativo: o de se tornarem livros.
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