Bruno Blecher -
Caderno Ilustríssima - Folha de S.Paulo 4.abr.2026
Em "Misery" (Louca Obsessão- 1987), um escritor (Paul) é mantido prisioneiro por uma fã (Anny), furiosa porque ele matou a personagem principal em seu livro. Ela tortura Paul e exige que ele reescreva a história.
O "thriller" de Stephen King, recorde de vendas nas livrarias e nos cinemas, com James Caan e Kathy Bates (Oscar de Melhor Atriz – 1990) nos papéis principais, deixou os escritores da época assustados.
Psicose à parte, muitos leitores gostariam de conhecer a intimidade de seus escritores favoritos –– saber os seus métodos de trabalho, como buscam as ideias para as suas histórias, quantas horas trabalham por dia. Da mesma forma, os escritores iniciantes desejam receber dicas dos seus mestres.
Há centenas de livros sobre escrita e escritores, que narram as experiências de autores famosos e trazem conselhos a quem pretende seguir a carreira literária.
A maioria deles foi publicada nos Estados Unidos, onde o mito de que um escritor nasce pronto por dádiva divina é visto com descrença. Tanto que várias universidades americanas mantêm programas para novos escritores, por acreditarem que, embora o talento seja um excelente começo, sempre pode ser afinado com técnica e treino, a exemplo do que acontece com atores e pianistas.
Comece agora
Reuni uma pequena biblioteca sobre oficinas de escrita, que tem Stephen King, C.S. Lewis, Stephen Koch, William Zinsser, Ray Bradbury e Schopenhauer.
Autor de "Oficina de Escritores", Stephen Koch propõe ao iniciante não procrastinar. "Só há um jeito de começar: é começar agora" — ele ensina. Por mais de duas décadas, ele lecionou em pós-graduação de escrita literária e viu muitos alunos passarem dias com a página em branco à espera de que uma boa história caísse do céu.
"Não adianta dizer que você ainda não tem a história. Claro que você ainda não sabe a história. Você é a primeira pessoa no mundo a contá-la e não pode conhecer a história até que ela seja contada. Primeiro você conta, depois fica sabendo", diz Koch.
Não se apavore com o bloqueio, ele alerta. Até o Prêmio Nobel de Literatura de 1982, Gabriel Gárcia Márquez (1927-2014) travou, conta Koch.
Márquez só liberou o turbilhão de histórias mágicas após ver a primeira frase de "A Metamorfose", de Franz Kafka (1883-1924): "Naquela manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa viu-se na cama, transformado num gigantesco inseto".
"Ao ler a frase, pensei comigo mesmo que não sabia que alguém tinha permissão para escrever coisas assim. Se soubesse, teria começado a escrever há muito tempo. Então, imediatamente comecei a escrever contos", confessou o escritor à revista Paris Review (1999).
A partir daí, o colombiano brindou o mundo com centenas de personagens que flutuam entre a fantasia e a realidade em obras extraordinárias como "Cem Anos de Solidão", "O Outono do Patriarca" e "O Amor nos Tempos de Cólera".
Ler e escrever
Para "exercitar os músculos", Ray Bradbury (1920-2012) recomenda a leitura diária de poesia em "O Zen e A Arte da Escrita". Escritor e roteirista americano, autor de "Fahrenheit 451" (1953) e "Crônicas Marcianas" (1950), ele popularizou a ficção científica. Escreveu roteiros para televisão e cinema, entre eles a versão de 1956 de "Moby Dick", clássico disponível na "Prime Vídeo".
Ler e escrever muito também é o conselho de Stephen King em "Sobre a Escrita". No livro, ele mescla memórias e dicas aos escritores iniciantes. "Se você quer ser escritor, não há como fugir dessas duas coisas, não há atalho", diz.
Mestre da literatura de suspense, King escreveu 60 romances, boa parte best-sellers — "Carrie, a estranha", "O Iluminado" e "As pontes de Madison" — transformado em filmes de sucessos.
Truman Capote (1924-1984), autor de "A Sangue Frio", um clássico do chamado "Novo Jornalismo", contou à Paris Review (1957) ser um leitor obsessivo. "Lia de tudo, inclusive rótulos, receitas, anúncios, além de jornais", diz.
Em voga nas décadas de 60 e 70, o "Novo Jornalismo" (New Journalism), um estilo de não ficção, combinava a reportagem à narrativa literária e consagrou vários autores, entre eles Tom Wolfe ("A Fogueira das Vaidades") e Gay Talese ("O Voyeur").
Para quem quer conhecer o dia a dia de trabalho e como pensam e vivem os mestres da literatura, a série da revista Paris Review é um tesouro. Fundada em 1953, a revista publicou entrevistas com mais de trezentos autores, tornando-se um rico manual sobre ficção.
O primeiro volume, publicado no Brasil pela "Companhia das Letras" traz, além de Capote, entrevistas com Ernest Hemingway, Manuel Puig, Amos Oz, William Faulkner, Paul Auster, Jorge Luis Borges, Billy Wilder, W.H. Auden, Javier Marías, Ian Mcewan, Primo Levi e Doris Lessing. Um "dream team" da literatura mundial.
Esgotado, o volume 1 pode ser conseguido em sebos pela Internet a preços que ultrapassam cento e cinquenta reais. Todas as entrevistas estão disponíveis no site da revista.
Fisgar o leitor
Stephen King diz que a maioria dos leitores não são atraídos pelos méritos literários de um romance. "Eles querem mesmo é uma boa história para levar consigo no avião, algo que primeiro os fascine, depois os impulsione e os mantenha virando as páginas", diz o escritor.
O que atrai o leitor é vida, acrescenta King, fornecendo a receita de um bom livro: escreva o que quiser, depois encharque a história de vida e a torne única, acrescentando seu conhecimento pessoal e intransferível do mundo, da amizade, do amor, do sexo e do trabalho.
"Especialmente do trabalho" –– recomenda King –– "as pessoas adoram ler sobre o trabalho" — diz, citando "A Firma", de John Grisham, "thriller" badalado dos anos 70, estrelado no cinema por Tom Cruise e Gene Hackman.
Corte os excessos
Stephen King, William Zinsser, Schopenhauer (1788-1860), C.S. Lewis (1898-1963) e Stephen Koch são unânimes em defender a prática da concisão para salvar os leitores dos excessos.
Autor de "Como Escrever Bem", que vendeu mais de 1 milhão de exemplares, Zinsser dedica várias páginas de seu livro à guerra aos excessos, uma mania americana.
"É como lutar contra as ervas daninhas. O escritor fica sempre um pouco para trás. Novas variedades brotam durante a noite e ao meio-dia já fazem parte do discurso americano", diz o escritor novaiorquino.
Para ele, a sociedade americana é sufocada por palavras desnecessárias, construções circulares, afetações pomposas e jargões sem nenhum sentido.
Zinsser cita os adjetivos "pessoal" e "particular" em "um amigo pessoal meu", "seu sentimento pessoal" ou "seu médico particular". Todos podem ser eliminados.
"No momento" e "atualmente" são outros (maus) exemplos — Todos os nossos operadores estão ocupados no momento. Atualmente, estou trabalhando na Bolsa de Valores.
King se dedica a arrancar os advérbios dos textos, "antes que proliferem total, completa e extravagantemente", brinca o romancista, que também defende uma cruzada contra a voz passiva. "A reunião será as sete, e não a reunião será realizada às setes horas".
Parágrafos curtos
"Escrever é algo visual. As letras capturam os olhos antes de poderem capturar a mente. Parágrafos curtos arejam o que você escreve e deixam o texto mais convidativo, enquanto um acúmulo longo demais de palavras pode desencorajar o leitor a começar a leitura", diz Zinsser.
C.S. Lewis, em "Sobre Escrever", recomenda não usar adjetivos que meramente nos digam como você quer que nos sintamos sobre o que você está descrevendo.
"Assim, em vez de nos dizer que uma coisa era terrível, descreva-a de modo que fiquemos aterrorizados. Não diga que foi prazeroso; faça com que nós digamos "prazeroso" ao lermos a descrição — disse Lewis.
Outra dica é reescrever. "É a essência de escrever bem: é onde se ganha ou se perde o jogo", ensina Zinsser. Ernest Hemingway (1899-1961) refez trinta e nove vezes a última página do livro "Adeus às Armas" até ficar satisfeito, como revelou à Paris Review (1958). Para King a reescrita varia muito de escritor para escritor. Ele adota duas versões e um polimento final.
A primeira frase
Aqui vai um protesto contra a mania das editoras de embalar os livros com plástico, impedindo o acesso do leitor às páginas nas livrarias. Dou um jeito de rasgar o plástico, porque, míope e astigmático, gosto de checar o tamanho da fonte. Se for menor que sete, abandono o livro. Também quero ler a primeira frase. Se gostar, é meio caminho para comprar o livro.
"A frase mais importante de qualquer texto é a primeira. Se ela não levar o leitor a avançar para a segunda frase, o seu artigo estará morto. É a partir da progressão destas frases, com cada uma empurrando o leitor para a seguinte até que ele seja fisgado", diz Zinsser.
Ele dá um exemplo de um bom "lead" –– Muitas vezes perguntei o que há dentro de um cachorro-quente. Agora eu sei, e preferia não saber. Duas frases curtas chamam o leitor para o segundo parágrafo, diz ele.
Mas o que move um escritor?
Fico com a frase de Isak Dinesen, pseudônimo de Karen Blixen (1855-1962), utilizada pela filósofa Hannah Arendt (1906-1975) na epígrafe do livro "A Condição Humana" –– Toda grande dor pode ser suportada se você escrever sobre ela. Ela me lembra Graciliano Ramos ("Memórias do Cárcere"), "Diário de Anne Frank" e Malala Yousafzaiu ("Eu sou Malala").
Para C.S. Lewis, a tinta é a grande cura. "Sempre que estiver farto da vida, comece a escrever: a tinta é o grande remédio para todos os males humanos, como descobri há muito tempo", disse.
"Oficina de Escritores", Stephen Koch – Editora WMF Martins Fontes (2023)
"Como Escrever Bem", William Zinsser – Editora Fósforo (2024)
"Sobre a Escrita", Stephen King – Editora Schwarcz (2015)
"Sobre Escrever", C.S. Lewis, – Thomas Nelson, Brasil (2023)
"As Entrevistas da Paris Review" – Volume 1 – Companhia das Letras (2011)
"A Arte de Escrever", de Schopenhauer – L&PM Editores (2005)
"O Zen e A Arte da Escrita, de Ray Bradbury – Biblioteca Azul (2020)
The Paris Review – theparisreview.org
Jornalista especializado em agronegócio e meio ambiente.
Trabalhou em grandes jornais e revistas do país. Foi repórter do Suplemento Agrícola de O Estado de S. Paulo (1986-1990), editor do Agrofolha da Folha de S. Paulo (1990-2001), coordenador de jornalismo do Canal Rural (2008), diretor de Redação da revista Globo Rural (2011-2019) e comentarista da rádio CBN (2011-2019).
Em 1987, criou o programa Nova Terra (Rádio USP). Também editou cadernos especiais e organizou eventos voltados ao terceiro setor, agricultura familiar e sustentabilidade. Na Folha, editou os cadernos "Fome" (menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog-1994).
Em 2001, criou a empresa TodaMídia, que prestou serviços de assessoria de comunicação para Semex, Valtra, Serviço de Informação da Carne (SIC), Genoma do Boi e Laranja Brasil.
Participou de projetos da Andi (Agência de Notícias dos Direitos da Infância), Observatório de Imprensa e Universidade de São Paulo. Na Globo Rural, criou o Prêmio Fazenda Sustentável e Festival Origem.
Foi produtor e apresentador do podcast EstudioAgro (2019-2021).
Atualmente é consultor da Agência Fato Relevante de Comunicação.
Autor de "Cidade de Papelão" - Crônicas -11 Editira (2020); "Assassinato no Zap" - Crônicas - 11 Editora (2024) e "O Sertão é o Mundo - Histórias de um Repórter Rural - Kotter/Goyazes - (2026)