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A epopeia antes da publicação

A epopeia antes da publicação

por Camila de Miranda

A epopeia antes da publicação

Tudo começa quando você procura um serviço.

Você digita algumas palavras no Google, rola o Instagram, clica em um link. Está procurando algo bastante simples: revisão, leitura crítica, diagramação, capa, ilustração.

Você chega a uma página muito bonita, cheia de frases curtas, cuidadosamente preparadas para emocionar.

"Dê ao seu livro o lugar que ele merece."

"Transforme seu manuscrito em uma experiência editorial inesquecível."

"Revele o autor que existe dentro de você."

Muito bem, mas quanto custa?

Essa informação, curiosamente, quase nunca aparece.

Você desce a página, abre outra aba, volta. Talvez o preço esteja escondido entre o depoimento de uma autora que "finalmente encontrou sua voz" e uma fotografia da prestadora olhando para o horizonte com uma xícara de café.

Nada.

A única coisa visível é um botão: Agende sua chamada de descoberta.

Você queria saber o preço. Descobre que precisa, antes, descobrir a si mesmo.

Mesmo assim, manda uma mensagem:

"Olá, tenho um romance de 50 mil palavras e procuro uma revisão ortográfica e gramatical. Poderia me informar o valor?"

A resposta chega:

"Claro! Para entender melhor seu universo, seus objetivos e sua visão como autora, podemos marcar uma chamada?"

Você relê o que escreveu. Seu universo parecia bastante claro: cinquenta mil palavras, uma revisão e um orçamento.

Mas não. É preciso fazer uma reunião.

Chamam isso de funil de vendas, uma expressão bastante apropriada para a sensação de estar sendo empurrada para um lugar onde você nunca quis entrar.

Você aceita porque imagina que, pelo menos, o serviço será personalizado. Afinal, uma das vantagens de procurar um profissional independente deveria ser justamente essa: conversar com uma pessoa, explicar sua necessidade, encontrar uma solução mais humana do que aquela oferecida pelas grandes estruturas.

Doce ilusão.

A chamada começa e, poucos minutos depois, você percebe que os slides estavam prontos muito antes de você chegar.

"As dificuldades do escritor independente são..."

Ter que participar desta chamada, por exemplo.

"Estamos aqui para realizar o seu sonho."

Com sorte, realizo o meu de descobrir o preço do serviço antes do fim da reunião.

Segue uma série de perguntas muito bem calculadas. Você responde enquanto percebe que poderia dizer qualquer coisa e provavelmente chegaria ao mesmo slide seguinte.

No final, descobre que ninguém mais parece oferecer simplesmente um serviço.

A revisão virou "acompanhamento editorial".

A diagramação virou "valorização estratégica da obra".

A capa agora faz parte da "construção da identidade autoral".

E uma leitura pode vir acompanhada de vídeos gravados, PDFs, planilhas e acesso a um grupo de WhatsApp com centenas de escritores.

Você queria alguém para ler seu romance? Oferecem uma comunidade.

Queria uma capa? Oferecem trabalhar seu posicionamento.

Queria pagar alguém para diagramar o livro? Oferecem um curso para que você aprenda a fazer sozinha.

Oi?

Quanto mais simples seria explicar o serviço em uma frase, mais longa parece ser sua apresentação.

"Eu reviso seu manuscrito dos gêneros Y e Z por X reais por lauda."

Simples demais.

É muito mais sofisticado dizer que "vamos construir juntos um processo editorial capaz de alinhar o texto à sua identidade profunda como autor".

Depois de algum tempo, tudo começa a soar como uma reunião corporativa.

Processo. Transformação. Método. Acompanhamento. Comunidade. Estratégia. Alinhamento.

Parece um episódio da série Ruptura: todos sabem que o trabalho é extremamente importante, mas ninguém consegue explicar exatamente o que está sendo feito.

E o mais curioso é que estamos falando de trabalhos perfeitamente concretos. Revisar um texto. Criar uma capa. Diagramar um livro. Às vezes, só queremos alguém que nos ajude a domar o algoritmo do Instagram para que o livro seja simplesmente visto.

Não é preciso transformar tudo em uma jornada de autoconhecimento.

Não estou nem falando dos coaches. Estou falando de pessoas que deveriam oferecer serviços claros e que, em algum momento, começaram a transformar ações simples em odisseias espirituais.

Existem autores que querem simplesmente pagar um bom profissional para fazer um bom trabalho.

Sem transformação. Sem chamada estratégica. Sem comunidade exclusiva. Sem acesso vitalício. Sem bônus válido até meia-noite.

Às vezes, queremos inclusive pagar um ilustrador para ilustrar nosso livro, em vez de entregar toda a identidade visual da obra a uma inteligência artificial.

Radical, eu sei.

E então chega o momento de dizer não.

Você recebe uma proposta sem preço, pensa e responde educadamente:

"Obrigada, mas não é o que estou procurando."

"Entendo. O que está impedindo você de investir no seu projeto neste momento?"

Nada. Eu só não quero comprar isso.

"E se parcelarmos?"

Parcelar o quê, criatura? Você nem me deu o preço!

"Tenho uma condição especial válida apenas hoje."

Ainda não disse a condição.

Depois da terceira tentativa, você começa a se perguntar se alguém está realmente lendo suas mensagens ou se todo "não" é automaticamente interpretado como o início de uma negociação. O prestador fica indignado. Quem ousa dizer não a um serviço tão misterioso e importante?

Eu, ouso.

Porque, no fundo, só quero um serviço simples, claro e honesto. Não mais um episódio de uma série em que tudo é importante, menos o cliente.

Camila de Miranda

Camila de Miranda vive em Paris, onde estudou engenharia de riscos e crises na Université Paris Cité e segue em constante formação acadêmica e cultural. É membro integrante da @ueelpfrance (União Europeia de Escritores de Língua Portuguesa) e participa ativamente de projetos que fortalecem a comunidade brasileira e lusófona na cidade. A experiência no terceiro setor, somada à sua trajetória acadêmica e internacional, ampliou sua visão e inspirou a criação de um projeto de orientação para brasileiros que desejam estudar na Europa.

Apaixonada pela leitura desde a infância, encontrou na escrita uma maneira de transformar em narrativa as experiências que viveu e observou ao longo da vida. Seus textos combinam realidade e ficção, explorando as relações humanas e a imprevisibilidade do cotidiano. Já escreveu contos publicados em diferentes formatos, transitando entre o drama e o humor, sempre em português e francês. Em 2025, foi vencedora do concurso Renaissance (BoD França & Panodyssey) e teve um texto publicado na revista lusófona Etcetera. Formou-se no @formacaodeescritores da Editora Metamorfose. Seu primeiro romance de ficção está em processo de publicação.