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Mais inteligente em português

Mais inteligente em português

por Camila de Miranda

Mais inteligente em português

Cheguei à França com um diploma de francês nível C1 e uma ambição bastante modesta: comprar pão sem ser corrigida pela padeira.

Eu não queria discutir Proust, explicar a situação política do Brasil nem defender uma tese sobre o uso do subjuntivo. Queria apenas entrar numa padaria, pedir uma baguete e sair de lá com a dignidade intacta.

Parecia razoável.

Eu ensaiava a frase na fila. Revia mentalmente a pronúncia, o gênero dos substantivos, a posição da língua e talvez até a condição meteorológica da boca. Então chegava a minha vez, eu fazia o pedido e a padeira respondia com alguma pergunta que não constava do roteiro.

Era o fim.

Foi assim que descobri a grande diferença entre aprender uma língua estrangeira e viver dentro dela.

Aprender uma língua é estudar tempos verbais, decorar vocabulário e passar numa prova. Viver em outra língua é ter de usá-la quando se está cansada, com fome, com pressa ou simplesmente sem vontade de conjugar nada. É precisar ser espontânea justamente quando cada frase exige uma reunião extraordinária de todos os departamentos do cérebro.

Pouco depois de chegar, comecei a traduzir meus textos de ficção do português para o francês. Era minha maneira de progredir. Também era, descobri, uma forma sofisticada de sofrimento.

Como se traduz um sentimento?

Não o nome do sentimento. Esse aparece no dicionário. Quero dizer o efeito que ele provoca. A hesitação escondida numa frase, o riso que deveria surgir três palavras depois, aquela pequena surpresa que depende de um ritmo muito específico. Como fazer uma emoção atravessar a fronteira sem que alguma coisa seja confiscada na alfândega?

Traduzindo meus próprios textos, eu via algumas piadas perderem a graça e certas réplicas chegarem ao francês exaustas, depois de uma longa viagem.

Durante algum tempo, pensei seriamente em tatuar na testa:

Juro que sou mais inteligente em português.

Seria útil em reuniões, jantares e conversas com desconhecidos. Diante de qualquer silêncio excessivamente longo, bastaria apontar para a testa. Talvez a frase também precisasse de uma nota de rodapé: "Mais engraçada, mais rápida e, em dias bons, até um pouco mais interessante".

Mas não fiz a tatuagem.

Em vez disso, um dia resolvi escrever diretamente em francês.

Não aconteceu de repente. Foi preciso acumular vocabulário, mas também experiências vividas naquela língua. Foi preciso aprender não apenas como se diz uma coisa, mas como aquela coisa se sente em francês. Certas palavras só começaram a me pertencer depois que passaram por alguma lembrança.

E foi preciso coragem.

Durante muito tempo, cada frase vinha acompanhada por uma pequena comissão de especialistas em insegurança:

"Isso soa suficientemente natural?"

"Será que alguém fala assim?"

"Será que vão entender o que eu quero dizer?"

A comissão trabalhava sem descanso. Revisava adjetivos, interditava metáforas e exigia documentos adicionais para liberar uma vírgula.

Ainda assim, continuei escrevendo. Coloquei minhas palavras no papel e as ofereci ao mundo, ou, para ser mais exata, ao pequeno e valente grupo de pessoas que me lê.

Recentemente, um desses textos recebeu um prêmio.

Um prêmio francês, um prêmio em francês.

Precisei de algum tempo para compreender o que aquilo significava. Não era apenas o reconhecimento de uma história. Era a confirmação de que minhas palavras haviam conseguido atravessar o espaço entre mim e outra pessoa. Tinham chegado do outro lado carregando alguma coisa. Talvez não exatamente tudo o que eu havia colocado nelas, porque palavras são viajantes pouco confiáveis, mas o suficiente para tocar alguém.

Em português, tive trinta e três anos para aprender a fazer isso.

Em francês, tive cinco ou seis.

Hoje penso que talvez uma língua não se torne nossa quando deixamos de cometer erros. Nem quando as padeiras finalmente param de nos corrigir. Talvez ela se torne nossa no instante em que conseguimos provocar alguma coisa em alguém: um sorriso, um incômodo, uma lembrança, aquele breve aperto que não sabemos explicar.

O pão, afinal, era só o começo.

Obrigada a quem leu. Um abraço em quem se sentiu tocado.

E à padeira também.

Sem as correções dela, talvez eu nunca tivesse começado.

Camila de Miranda
Camila de Miranda
Rio de Janeiro/RJ

Camila de Miranda

Camila de Miranda é escritora brasileira radicada na França desde 2021. Formada em Engenharia Ambiental e de Segurança, construiu uma trajetória que concilia a atuação profissional com a criação literária. Em seus contos e romances, explora as relações humanas, suas contradições e a imprevisibilidade do cotidiano, em narrativas que transitam entre o drama e o humor.

Seus textos combinam realidade e ficção e já foram publicados em revistas literárias, entre elas a revista lusófona Etcetera. Em 2025, venceu o concurso literário Renaissance, promovido pela BoD França e pela Panodyssey. Concluiu a Formação de Escritores da Editora Metamorfose e integra a União Europeia de Escritores de Língua Portuguesa (UEELP).

Seu primeiro romance, Aos meus queridos ossos, será publicado pela Editora Metamorfose. Na obra, aprofunda seu interesse pelos vínculos familiares, pela memória e pelas contradições humanas.

Além da literatura, sua trajetória acadêmica e profissional na França a levou a desenvolver projetos de orientação para brasileiros interessados em estudar na Europa.