×

Pânico paranormal

Pânico paranormal

por Camila de Miranda

Pânico paranormal

Amanda abre a porta do apartamento com o pé. Claire a segue, ofegante. As duas têm os braços cheios de sacolas de compras. Os pacotes, mal apoiados, tombam no parquet.

Amanda não perde um segundo: tira velas, algumas ervas secas e um bastão de incenso.

Risca um fósforo, acende o incenso e começa a caminhar pelo apartamento recitando um mantra de purificação.

— Om So Hum — repete ela, os olhos semicerrados.

Claire a observa, incrédula, uma ratoeira na mão.

— Você acredita mesmo no que aquele cara te disse?

— Claro que acredito. Você acha que ele ia inventar isso à toa? E, além disso, eu já tinha ouvido barulhos estranhos nessa casa.

— Ai, essas construções antigas de Paris! Pode ser qualquer coisa. Talvez ele tenha ouvido um cano batendo, um fio elétrico estalando dentro da parede... Eu acho que é rato — diz Claire, instalando uma armadilha ao lado do fogão. — Ou cupim, barata... — acrescenta, curvando-se para deslizar outra ratoeira atrás da geladeira.

Amanda para e a encara com seriedade.

— Claire, é uma aparição. E eu juro: isso nunca me aconteceu no Brasil. Só faltava eu chegar à França para meu primeiro apartamento ser assombrado. Francamente, não é justo.

Ela coloca o incenso em um suporte e começa a acender uma dezena de velas.

— Eu não acredito que ele te disse que o seu apartamento era assombrado. No terceiro encontro?! Ele nem te conhece! Como é que ele podia saber que você não ia surtar completamente? — diz ela, ajeitando os cabelos de Amanda, salvos por pouco da chama de uma vela.

— Justamente. Se ele sentiu isso tão forte, é porque era real.

— Ou então ele estava falando... sei lá... de fardos invisíveis? Coisas do passado?

Amanda dá de ombros.

— Ele é esotérico... ou psicólogo de araque, sei lá. Ele olhou nos meus olhos e perguntou: "Est-ce que tu as des fantasmes?"

Claire franze o nariz.

— Fantasmes? Amanda, "fantasme" em francês é fantasia sexual. Você está confundindo com "fantôme".

— Quê?

— "Fantasma" em português é "fantôme" em francês. Não "fantasme". "Fantasme" é outra coisa.

Amanda fica paralisada. Encara o vazio, a boca entreaberta.

Claire olha para ela, os lábios apertados, as bochechas tremendo para segurar um sorriso proibido.

Amanda apaga a vela. A chama se extingue.

Silêncio.

Então as duas gritam e se jogam nos braços uma da outra. Um estrondo enorme ecoa atrás da geladeira.

Amanda abre a porta do apartamento com o pé. Claire a segue, ofegante. As duas têm os braços cheios de sacolas de compras. Os pacotes, mal apoiados, tombam no parquet.

Amanda não perde um segundo: tira velas, algumas ervas secas e um bastão de incenso.

Risca um fósforo, acende o incenso e começa a caminhar pelo apartamento recitando um mantra de purificação.

— Om So Hum — repete ela, os olhos semicerrados.

Claire a observa, incrédula, uma ratoeira na mão.

— Você acredita mesmo no que aquele cara te disse?

— Claro que acredito. Você acha que ele ia inventar isso à toa? E, além disso, eu já tinha ouvido barulhos estranhos nessa casa.

— Ai, essas construções antigas de Paris! Pode ser qualquer coisa. Talvez ele tenha ouvido um cano batendo, um fio elétrico estalando dentro da parede... Eu acho que é rato — diz Claire, instalando uma armadilha ao lado do fogão. — Ou cupim, barata... — acrescenta, curvando-se para deslizar outra ratoeira atrás da geladeira.

Amanda para e a encara com seriedade.

— Claire, é uma aparição. E eu juro: isso nunca me aconteceu no Brasil. Só faltava eu chegar à França para meu primeiro apartamento ser assombrado. Francamente, não é justo.

Ela coloca o incenso em um suporte e começa a acender uma dezena de velas.

— Eu não acredito que ele te disse que o seu apartamento era assombrado. No terceiro encontro?! Ele nem te conhece! Como é que ele podia saber que você não ia surtar completamente? — diz ela, ajeitando os cabelos de Amanda, salvos por pouco da chama de uma vela.

— Justamente. Se ele sentiu isso tão forte, é porque era real.

— Ou então ele estava falando... sei lá... de fardos invisíveis? Coisas do passado?

Amanda dá de ombros.

— Ele é esotérico... ou psicólogo de araque, sei lá. Ele olhou nos meus olhos e perguntou: "Est-ce que tu as des fantasmes?"

Claire franze o nariz.

— Fantasmes? Amanda, "fantasme" em francês é fantasia sexual. Você está confundindo com "fantôme".

— Quê?

— "Fantasma" em português é "fantôme" em francês. Não "fantasme". "Fantasme" é outra coisa.

Amanda fica paralisada. Encara o vazio, a boca entreaberta.

Claire olha para ela, os lábios apertados, as bochechas tremendo para segurar um sorriso proibido.

Amanda apaga a vela. A chama se extingue.

Silêncio.

Então as duas gritam e se jogam nos braços uma da outra. Um estrondo enorme ecoa atrás da geladeira.

Camila de Miranda
Camila de Miranda
Rio de Janeiro/RJ

Camila de Miranda

Camila de Miranda é escritora brasileira radicada na França desde 2021. Formada em Engenharia Ambiental e de Segurança, construiu uma trajetória que concilia a atuação profissional com a criação literária. Em seus contos e romances, explora as relações humanas, suas contradições e a imprevisibilidade do cotidiano, em narrativas que transitam entre o drama e o humor.

Seus textos combinam realidade e ficção e já foram publicados em revistas literárias, entre elas a revista lusófona Etcetera. Em 2025, venceu o concurso literário Renaissance, promovido pela BoD França e pela Panodyssey. Concluiu a Formação de Escritores da Editora Metamorfose e integra a União Europeia de Escritores de Língua Portuguesa (UEELP).

Seu primeiro romance, Aos meus queridos ossos, será publicado pela Editora Metamorfose. Na obra, aprofunda seu interesse pelos vínculos familiares, pela memória e pelas contradições humanas.

Além da literatura, sua trajetória acadêmica e profissional na França a levou a desenvolver projetos de orientação para brasileiros interessados em estudar na Europa.