por Camila de Miranda
Eles chegaram há alguns meses. Escondida, eu os observei entrar com as malas, guardar as roupas nos armários do quarto grande, instalar uma televisão na sala. Eu, acostumada com a casa toda só pra mim, me refugiei no cômodo menos frequentado, a biblioteca. Aprendi a viver entre os livros e a me esconder rápido nas raras vezes em que a porta abria. Há algumas semanas, bem quando eu já estava me acostumando com aquela sala vazia, eles começaram, sem aviso prévio, a frequentar diariamente o meu espaço.
Ele me visitava com mais frequência. Chegou a instalar ali um computador, diante do qual passava horas falando sobre o mundo e como ele funciona. Usava um grande fone de ouvido, não me deixando escutar o que diziam do outro lado. Ao lado do monitor, colocou um globo onde eu gostava de ir à noite. Era divertido andar pelos países e dizer que tinha dado a volta ao mundo.
Ela vinha com menos frequência, às vezes no fim da tarde, para ler na poltrona embaixo da janela, minha preferida. Pegava livros de todas as prateleiras. Lia muito, para uma criatura com apenas dois olhos. Cada volume retirado perturbava meu território, e as limpezas, agora mais frequentes, me obrigavam a abandonar esconderijos que eu julgava seguros.
Eu ficava me perguntando por que eles tinham decidido invadir assim o meu espaço. Pareciam estar sempre em casa. Nas raras vezes em que saíam, cobriam o rosto com máscaras. O que estaria acontecendo lá fora? Eles sempre voltavam rápido. Eu já não tinha mais as manhãs inteiras para andar livremente por aí. Até o dia em que ela deixou a porta aberta. Escutei a televisão na sala. Não dava para ouvir tudo, mas algumas palavras chegavam até mim, sempre as mesmas. Confinamento. Vírus perigoso. Eles diziam que ainda ia durar um bom tempo. Foi o suficiente para me deixar arrepiada da cabeça aos pés; não consegui fechar nenhum dos meus oito olhos a noite inteira.
Ontem meu dia começou com uma gritaria do lado de fora. Me surpreendi quando a porta da biblioteca abriu. Esse tipo de agitação quase nunca chega até aqui. Ele entrou com o rosto vermelho e o cabelo despenteado, começou a colocar suas coisas em uma caixa de papelão. Oh, não! Não o meu globo! Ela chegou logo em seguida, com as mãos trêmulas, segurou o teclado que ele acabara de pegar e implorou que ele ficasse. Saiu do cômodo, voltou com uma segunda caixa e começou a enchê-la de livros.
Ele atacou primeiro a prateleira ao lado da minha, e avançava rápido. Tomada pelo medo, decidi fugir, sair da biblioteca e me esconder no porão úmido e escuro onde nasci e passei toda a minha infância. Era um sacrifício necessário se eu quisesse um dia voltar e continuar observando aquela rotina tranquila de aulas, leituras e cochilos na poltrona.
Pensei que seria fácil me esgueirar pelos cantos mais escuros e alcançar a porta sem ser vista, mas mal saí de trás do livro, escutei um grito. Olhei para eles com todos os meus olhos arregalados e vi que ela apontava o dedo para mim. Ele pegou um sapato e veio na minha direção. Eu sabia que só havia uma forma de me salvar. Respirei fundo, fechei os olhos e saltei em seu rosto. Ele largou o sapato e se sacudiu tentando me pegar. Pulei sobre o tapete, subi correndo pela poltrona e alcancei a janela. Desci até a varanda usando minha teia e, antes de deixar para sempre a casa que eu tanto amava, subi na balaustrada e os vi, abraçados na biblioteca. Ele a apertava contra o peito e acariciava sua cabeça.
Ela, que descansava aliviada no ombro dele, abriu os olhos, me viu de longe e se assustou, mas a expressão de medo logo deu lugar a um pequeno sorriso. Piscou para mim, e voltou a descansar.

Camila de Miranda é escritora brasileira radicada na França desde 2021. Formada em Engenharia Ambiental e de Segurança, construiu uma trajetória que concilia a atuação profissional com a criação literária. Em seus contos e romances, explora as relações humanas, suas contradições e a imprevisibilidade do cotidiano, em narrativas que transitam entre o drama e o humor.
Seus textos combinam realidade e ficção e já foram publicados em revistas literárias, entre elas a revista lusófona Etcetera. Em 2025, venceu o concurso literário Renaissance, promovido pela BoD França e pela Panodyssey. Concluiu a Formação de Escritores da Editora Metamorfose e integra a União Europeia de Escritores de Língua Portuguesa (UEELP).
Seu primeiro romance, Aos meus queridos ossos, será publicado pela Editora Metamorfose. Na obra, aprofunda seu interesse pelos vínculos familiares, pela memória e pelas contradições humanas.
Além da literatura, sua trajetória acadêmica e profissional na França a levou a desenvolver projetos de orientação para brasileiros interessados em estudar na Europa.