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Vaux-le-Vicomte: em Paris, a inveja queima

Vaux-le-Vicomte: em Paris, a inveja queima

por Camila de Miranda

Vaux-le-Vicomte: em Paris, a inveja queima

Muitos sentimentos surgem quando visitamos um castelo antigo. Podemos ficar maravilhados com a beleza dos grandes jardins, encantados com os detalhes e com a devoção impressa na arquitetura de outros séculos. Talvez sintamos tristeza por aquilo que não foi conservado ou irritação pelo custo ambiental de manter gigantescos gramados sempre verdes e perfeitamente aparados.

Às vezes, encontro-me também inconformada. Será que essa gente merecia realmente tanto dinheiro, tantos cômodos, tantos hectares e o privilégio de viver cercada de tanta beleza enquanto, não muito longe dali, em tantas épocas, era a fome que reinava?

A inveja, no entanto, foi o sentimento que mais me interessou durante essa visita. Talvez porque poucos sentimentos sejam capazes de empurrar o ser humano tão longe na escala dos comportamentos detestáveis.

E, no castelo de Vaux-le-Vicomte, ela ocupa um lugar privilegiado, bem ao lado do trono.

Nunca sentada sobre ele.

Afinal, a inveja sabe com quem mexe.

Estive nesse magnífico castelo no meu aniversário este ano. Embora já tivesse escutado sua história, nunca havia parado realmente para prestar atenção aos detalhes. Hoje, recomendo a visita não apenas pela beleza dos jardins, mas pela velha e boa fofoca.

Não é todo dia que a família real britânica nos fornece material suficiente. Às vezes, precisamos buscar fofocas de família real no passado.

 

Durante a visita, o que mais aproveitei nem foi o "percurso sensorial", destaque do panfleto da atração. O que me divertiu foi sentar em uma espreguiçadeira diante do jardim ressecado pelo verão impetuoso da Europa e tentar imaginar como alguém, no século XVII, reagiria ao chegar ali pela primeira vez.

Vaux-le-Vicomte fica em Maincy, na Seine-et-Marne, a cerca de cinquenta quilômetros de Paris. Hoje, a distância parece pequena. Entramos em um carro, pegamos algumas estradas e, pouco depois, o século XXI começa a desaparecer atrás das árvores.

No século XVII, evidentemente, chegar até ali era outra história.

E talvez fosse justamente essa uma das intenções.

Quando Nicolas Fouquet decidiu transformar Vaux-le-Vicomte em sua residência, não contratou apenas bons profissionais. Reuniu alguns dos maiores nomes de sua época: Louis Le Vau para a arquitetura, Charles Le Brun para a decoração e André Le Nôtre para os jardins.

Os três trabalharam juntos para criar não apenas uma casa, mas um conjunto. Todos os elementos conversam entre si.

O castelo prolonga-se nos jardins; os jardins devolvem o castelo por todos os lados, refletido nos mais diversos espelhos d'água. Janelas, caminhos, fontes, estátuas e canteiros participam de uma mesma encenação.

A perspectiva principal atravessa quilômetros e engana os olhos. O que parece próximo está muito, muito longe.

Ao sair do castelo, tive a impressão de que poderia caminhar até o fim do jardim em dez minutos. Pois bem: precisei de quase cinquenta para fazer o percurso de ida e volta em um carrinho de golfe. A pé, levaria facilmente duas horas.

A geografia de Vaux-le-Vicomte parece extremamente plana à primeira vista, mas esconde desníveis. Cada passo revela mais algumas dezenas de metros escondidas em um vale entre dois terraços. O horizonte recua à medida que tentamos alcançá-lo.

Não seria essa também a especialidade da inveja?

A natureza está ali, mas foi disciplinada com régua, tesoura e ambição.

Talvez seja isso que mais me impressione nos jardins franceses: eles não parecem querer conviver com a natureza. Querem demonstrar que conseguiram domá-la.

Em Vaux-le-Vicomte, até o horizonte parece ter recebido instruções.

A arquitetura também trazia novidades. Le Vau concebeu uma residência que rompia com algumas convenções das grandes casas da época. No centro está o enorme salão oval coberto pela cúpula que hoje se tornou uma das imagens mais reconhecíveis do castelo.

A decoração sonhada para seu teto nunca chegou a ser executada. Charles Le Brun havia imaginado ali um monumental Palácio do Sol, mas a queda de Fouquet interrompeu o projeto antes que ele começasse a ser pintado. A cúpula permaneceu sem aquela decoração durante séculos, recebeu uma intervenção inacabada no século XIX e, hoje, projetores recriam sobre ela a obra que deveria ter existido ali.

De um lado está o pátio de chegada. Do outro, os jardins. No meio, salões concebidos para impressionar todos aqueles que os atravessassem.

Era uma casa. Mas era também uma declaração.

Nicolas Fouquet não era rei. Era superintendente das Finanças de Luís XIV.

E talvez aqui comece o problema.

Há momentos em que riqueza mundana e o poder real convivem muito bem. Em outros, a riqueza parece poder demais nas mãos da pessoa errada.

Olhando o castelo hoje, cheguei a me perguntar: será que Fouquet estava realmente satisfeito em sua posição?

Os quartos, os salões, os jardins e até o horizonte domesticado me fazem duvidar.

Em 17 de agosto de 1661, Fouquet ofereceu em Vaux-le-Vicomte uma festa em homenagem a Luís XIV. Era a ocasião de apresentar ao rei o magnífico trabalho que havia concluído.

Mais de três séculos depois, é difícil separar completamente o que aconteceu naquela noite da lenda que cresceu ao redor dela.

Mas a matéria-prima para uma boa história estava toda ali: um anfitrião extremamente rico, um castelo recém-construído, jardins capazes de humilhar muitos jardins reais, fontes, música, um jantar grandioso, fogos de artifício e Molière — sim, Molière! — apresentando uma obra criada especialmente para a ocasião.

Do outro lado, um rei de vinte e dois anos.

Luís XIV ainda não era, aos olhos do mundo, o Rei Sol que imaginamos imediatamente quando ouvimos seu nome. Mazarin havia morrido poucos meses antes, e o jovem monarca decidira governar sem primeiro-ministro.

Era um rei começando a compreender e, principalmente, a demonstrar o tamanho do próprio poder.

E então ele entra em Vaux-le-Vicomte.

Gosto de imaginar esse momento.

A inveja deve dar pulinhos de alegria ao relembrá-lo.

Não o rei diante de Fouquet, mas um homem diante da casa de outro homem.

Ele olha os jardins. Os salões. As pinturas. As fontes. Observa os convidados, os artistas, a comida.

Será que toda a bajulação de Fouquet seria capaz de acalmar o que se passava pela cabeça do rei?

A festa havia sido preparada para ele. Havia até um aposento destinado ao monarca, como convinha a uma grande residência daquela época.

Seria suficiente?

Seria capaz de embaçar os olhares de admiração e surpresa dos convidados enquanto avançavam por aquele jardim que parecia não ter fim?

E Fouquet não parou por aí.

No final da noite, resolveu, em termos atuais, pôr fogo no parquinho.

Quase literalmente.

Depois dos espetáculos e do jantar, fogos foram lançados do alto da cúpula. Milhares de luzes cortaram o céu. Mais de duas mil velas colocadas nas cornijas faziam a fachada parecer em chamas.

 

Por alguns instantes, diante do rei e de toda a corte, Fouquet pareceu incendiar a própria residência.

E então Vaux-le-Vicomte reapareceu intacto.

Um espetáculo.

Séculos depois, pude assistir a uma versão moderna da brincadeira. Aos sábados de verão, duas mil velas voltam a iluminar o castelo e os jardins, e a noite termina com fogos de artifício.

Infelizmente, não trouxeram Molière para o meu aniversário, mas posso garantir que os fogos proporcionam uma experiência muito mais VIP do que o espetáculo de fim de dia na Disneyland Paris.

Que festa!

Imagino os comentários no dia seguinte. Na semana seguinte. Nos meses seguintes.

A corte falaria daquela noite durante quanto tempo?

E Fouquet daria outras festas, não?

Me peguei pensando: "Amor, se eu tivesse uma casinha humilde dessas? churrasco todo dia!"

Dinheiro, aparentemente, não era problema.

Aliás?

De onde estava vindo tanto dinheiro?

É aqui que a história deixa de ser apenas bonita.

O que alguém sente quando percebe que o súdito que deveria viver abaixo de si construiu algo mais impressionante do que aquilo que ele próprio possui?

A versão mais conhecida da história — e, confesso, a minha preferida — responde rapidamente:

inveja.

Luís XIV teria visto Vaux-le-Vicomte, sentido-se ofuscado por Fouquet e decidido destruí-lo.

É uma história perfeita.

Talvez perfeita demais.

A queda de Fouquet, na realidade, já estava em movimento antes daquela noite. O rei já desconfiava de seu superintendente, Colbert trabalhava contra ele e as suspeitas em torno da administração das finanças não nasceram durante os fogos de artifício.

Fouquet não perdeu sua liberdade simplesmente porque deu uma festa bonita demais.

Poucas semanas depois, porém, em 5 de setembro de 1661, ele foi preso em Nantes por d'Artagnan.

O processo durou três anos. Os juízes decidiram pelo banimento perpétuo. Luís XIV agravou a sentença para prisão perpétua.

Fouquet morreu em 1680, depois de passar quase duas décadas encarcerado.

Enquanto isso, algo curioso aconteceu.

Luís XIV chamou para trabalhar para ele alguns daqueles mesmos homens que haviam criado Vaux-le-Vicomte:

Le Vau. Le Brun. Le Nôtre.

Não por acaso, Vaux-le-Vicomte se tornaria um dos grandes modelos de Versalhes. A combinação entre arquitetura, decoração e jardins que havia funcionado tão bem na propriedade de Fouquet seria retomada, ampliada e levada a uma escala quase inimaginável no palácio do rei.

Em outras palavras, Luís XIV não ficou com Vaux-le-Vicomte.

Fez algo maior.

O rei também tinha um projeto: Versalhes.

Será que conseguiu fazer algo mais grandioso?

Na minha humilde opinião de eterna turista em Paris, não.

É nesse ponto que a História, mesmo quando tentamos protegê-la das simplificações, parece não fazer nenhum esforço para evitar a ironia.

Talvez Luís XIV não tenha mandado prender Fouquet porque sentiu inveja de seu castelo. Talvez nunca possamos reduzir uma queda política tão complexa a um sentimento tão humano.

Mas, depois de visitar Vaux-le-Vicomte, é difícil não pensar que alguma coisa daquela noite permaneceu.

Versalhes cresceria em uma escala que Vaux jamais alcançaria. Tornar-se-ia símbolo da monarquia francesa, cenário de tratados, revoluções, multidões e milhões de fotografias. O nome de Luís XIV atravessaria os séculos ligado àquele palácio.

Vaux-le-Vicomte continuaria menor. Mais discreto. Quase escondido.

E, no entanto, caminhando por seus jardins, temos a estranha sensação de estar diante do rascunho de alguma coisa gigantesca.

Ou talvez "rascunho" seja injusto.

Porque Vaux não parece incompleto.

Ao contrário.

Talvez o problema tenha sido justamente parecer completo demais.

Olhei para o castelo no dia do meu aniversário tentando decidir o que sentir.

Admiração, certamente. Um pouco de culpa diante de tanto luxo, ainda que, séculos depois, ele tenha me custado apenas dezessete euros de entrada. Alguma irritação com aqueles quilômetros de natureza perfeitamente domesticada. Fascínio pelo trabalho das pessoas que construíram cada detalhe.

Mas voltei à inveja.

Não àquela inveja pequena, que deseja simplesmente possuir aquilo que o outro possui.

Penso naquela forma mais perigosa: a que surge quando alguém nos mostra uma possibilidade que ainda não havíamos imaginado para nós mesmos.

Talvez Vaux-le-Vicomte tenha mostrado a Luís XIV não apenas aquilo que Fouquet possuía.

Talvez tenha mostrado aquilo que um rei poderia ter pensado antes.

E essa é uma forma particularmente poderosa de inveja.

Ela não precisa tomar o lugar de ninguém.

Não precisa sentar-se no trono.

Basta ficar ao lado dele e sussurrar:

o seu pode ser maior.

 


Link do meu vídeo sobre a visita
 


As fotografias que acompanham este texto são de minha autoria

Camila de Miranda

Camila de Miranda vive em Paris, onde estudou engenharia de riscos e crises na Université Paris Cité e segue em constante formação acadêmica e cultural. É membro integrante da @ueelpfrance (União Europeia de Escritores de Língua Portuguesa) e participa ativamente de projetos que fortalecem a comunidade brasileira e lusófona na cidade. A experiência no terceiro setor, somada à sua trajetória acadêmica e internacional, ampliou sua visão e inspirou a criação de um projeto de orientação para brasileiros que desejam estudar na Europa.

Apaixonada pela leitura desde a infância, encontrou na escrita uma maneira de transformar em narrativa as experiências que viveu e observou ao longo da vida. Seus textos combinam realidade e ficção, explorando as relações humanas e a imprevisibilidade do cotidiano. Já escreveu contos publicados em diferentes formatos, transitando entre o drama e o humor, sempre em português e francês. Em 2025, foi vencedora do concurso Renaissance (BoD França & Panodyssey) e teve um texto publicado na revista lusófona Etcetera. Formou-se no @formacaodeescritores da Editora Metamorfose. Seu primeiro romance de ficção está em processo de publicação.