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DIA DA PARTIDA

DIA DA PARTIDA

No alto da colina, no meio do pomar de cerejas, a menina Vitoria e seu pai Mario colhiam os últimos frutos encomendados pelo dono do armazém. Poderiam trocar por farinha, açúcar e outros mantimentos essenciais para uma família numerosa e de escassos recursos.

Vitoria ao olhar a pequena estrada de terra que serpenteava do centro da vila até sua casa, notou um carro subindo, levantando muita poeira e com faróis acesos. Ao fixar bem no modelo, ficou paralisada. Era o Dr. Vico, sem dúvidas.   Com sua chegada, ela sabia exatamente o seu destino, como foi de suas duas irmãs mais velhas anos atrás.

Com um grito de pavor como nunca dado em toda sua vida, deixou cair o cesto quase cheio de cerejas maduras. Localizou seu pai que estava igualmente olhando aquele carro que se aproximava cada vez mais do pátio de sua casa.

Vitória correu para seu pai e aos gritos quase implorando, puxando-o pela camisa:

—  Papai, o Dr. Vico!! Ele deveria vir somente daqui a 4 meses!! Por que está vindo agora?

— Vitória, não sei, vou ver com ele!!  Fique calma!! Sua irmã ainda está na casa dele. Pode ter acontecido algo com ela.

— Papai, por favor, não quero ir agora para a casa do Dr. Vico!! —

Entre soluços a menina Vitória tentava olhar nos olhos do pai, sem conseguir.

Ele preocupado em receber o Dr. Vico e dar-lhe boas-vindas. Não podia faltar com o respeito a pessoa que o ajudava na sobrevivência de sua família.

Desesperada, ajoelhou-se junto ao pai e abraçou firmemente as pernas do pai. Como numa corrente, seus frágeis braços tornaram-se um tenaz de carne e osso. Ela não largaria seu pai por nada deste mundo.

— Papai, por favor!!  Deixe-me ficar com o senhor e com a mamãe! — a menina aos prantos, lágrimas correndo no seu rosto, agarrada nas calças de Mario

Foi assim que o Dr. Vico viu Mario e sua filha Vitória ao descer do carro. Um pai que sabia o que tinha que fazer. Mesmo que custasse todas as suas forças físicas e emocionais para liberar-se dos braços de sua filha.

Num gesto rápido, puxou a filha para seu colo. Num enorme esforço para não chorar, quase sussurrando, ao ouvido da filha que agora agarrava seu pescoço:

—  Vitória.... você sabia que este dia chegaria mais cedo ou mais tarde. Qual a diferença se for mais cedo?

Aos poucos, Vitoria foi tomada como num enorme cansaço, como que entorpecida pela constante luta no dia a dia.  Deixou-se cair os braços, como entregue ao seu destino.

Colocou-a no solo, limpou suas lágrimas, arrumou seu cabelo e o vestido surrado. Olhou-a nos olhos e fazendo um sinal da cruz na sua testa, beijou-a como numa benção.

Pegando aquelas pequenas mãos junto as suas, caminharam ao encontro do Dr. Vico e ao destino de Vitória.

 

Domenico Cesare

22/6/26

Cesare Arturo Domenico Bianchini

Domenico Cesare é engenheiro, gaúcho de Porto Alegre, 67 anos. Após uma vida profissional pautada no relacionamento e gestão de grandes equipes, decidiu investir suas experienciais pessoais e familiares contando histórias. Em especial, escrever  a sobrevivencia de sua familia italiana nos anos conturbados que antecederam a segunda guerra mundial até seu desfecho. Participando do Curso de Formação de Escritores estreia com seu conto - Os orixás disseram não - na Coletânea Toda Forma de Amor 2025.