Retornamos ao nosso apartamento após oito anos de ausência. Incluso neste período, um ano de reformas. As paredes foram testemunhas de muitas alegrias e algumas tristezas. Era necessário revitalizar os ambientes, fazer aquela ampliação no living tanto desejada, aquele reparo na tubulação parcialmente feito. No retorno a busca por um espaço praticamente novo para um ciclo de vida que se abria.
— Pouca coisa voltará para o apartamento — disse minha esposa. O que foi para o sítio ficará lá, exceto alguns itens muito pessoais e o relógio
Prédio pequeno, poucos vizinhos e dos antigos, menos ainda. E destes que conviveram o primeiro ciclo, a Joana. Entre abraços e beijos do "bom retorno" no hall de entrada do prédio, disse:
– Que felicidade o retorno de vocês! E já sei que o relógio voltou! Sabe como é....velha não dorme. E nas madrugadas insones, já o escutei!"
Sim, trouxemos ele de volta. Ficou todo este tempo no sítio e decidimos que teria mais cuidados aqui no apartamento. Já está bem velhinho, mas em forma, ficará bem aqui no apartamento. Ficou no mesmo lugar do primeiro ciclo, acho que até gostou de voltar para o antigo espaço.
O relógio testemunhando, numa cadência regular e infinita, todos os acontecimentos de nossa família. Sua máquina centenária, precisa, tecnologia alemã – a Joana sabia - que nos orientou em milhares de compromissos num período com ritmo mais veloz do que vivemos agora.
O nosso retorno abre o ciclo chamado "terço final" de nossas vidas. Em nossos novos propósitos e projetos estará o relógio sempre nos lembrando que somos finitos. Badalando a cada meia hora e a cada hora cheia.
Ele foi de meu pai e quiçá de quem antes dele. Olhando para ele, buscavam sua orientação, ora para apressar o ritmo ou para suspirar aliviados pois teriam mais quinze minutos para o compromisso assumido. Ou escutando, na cama, com os olhos ainda fechados, se o badalar tocava seis vezes e era hora de levantar-se.
Aprendi com meu pai, quando menino, a maneira correta em dar "corda" no relógio dividindo progressivamente na carga dos ponteiros e do badalar. Passados mais de 60 anos, quando pego a chave para recarregar, lembro cada palavra da orientação recebida.
Ao olhar para ele e a mensagem de nossa finitude, me pergunto:
"Para quem vou ensinar a dar carga no relógio ? Para quem ele vai badalar"
Domenico Cesare é engenheiro, gaúcho de Porto Alegre, 67 anos. Após uma vida profissional pautada no relacionamento e gestão de grandes equipes, decidiu investir suas experienciais pessoais e familiares contando histórias. Em especial, escrever a sobrevivencia de sua familia italiana nos anos conturbados que antecederam a segunda guerra mundial até seu desfecho. Participando do Curso de Formação de Escritores estreia com seu conto - Os orixás disseram não - na Coletânea Toda Forma de Amor 2025.