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OS ORIXÁS DISSERAM NÃO - COLETÂNEA TODA FORMA DE AMOR 2025

OS ORIXÁS DISSERAM NÃO - COLETÂNEA TODA FORMA DE AMOR 2025

— E, por todas estas razões, insisto para que este namoro termine! Será bom para vocês, acreditem!

Carlo, pacientemente enrolando com o garfo o espaguete à carbonara, num almoço com o costumeiro e interminável argumento de seus pais para terminar o relacionamento.  Suspirando entre uma garfada e outra, não conseguia tirar do pensamento o rosto lindo de sua amada.

O relacionamento iniciado no Revellion já tinha cruzado o Carnaval e tudo levava a crer que a paixão do casal não era um "amor de verão". Os pais angustiados, sem encontrar um argumento convincente para que seus filhos terminassem a aventura.

- Minha filha, isso não vai terminar bem... escuta tua mãe! — insistia a mãe de Ceres   sob o olhar severo do pai como a ameaçar coisa pior. Ela, colocando mais uma colher de açúcar no café, girava lentamente aquele líquido escuro, absorta nas lembranças da última noite de tórrido amor.

Avançando no tempo e empolgação o namoro destes jovens chega na Páscoa e com ela a troca de chocolates.

— Para você me saborear devagarinho — no bilhete junto ao ovo de chocolate negro presenteado por ela.

 — Coma em pedacinhos para sentir o quanto sou doce — escrito por ele no coelho de chocolate branco.   

Além da resistência inevitável de famílias tão diferentes, mas igualíssimas quanto ao término do romance, juntou-se uma outra força para liquidar o relacionamento. Os jovens tinham pessoas muito próximas com forte envolvimento nas religiões afro-brasileiras.

Discretas, elas acompanhavam a preocupação dos pais e suas esperanças de um breve término do relacionamento.  E sabiam que a força dos orixás com seus intermediários e conexões entre o mundo espiritual e o terreno, poderiam apresentar uma solução para aquele amor.

Os amigos dos jovens não tinham dúvidas em invocar, sem nenhuma hesitação, os orixás que veneravam. Confiavam no equilíbrio nas decisões das divindades. Em especial Oxum com sua sabedoria em questões de amor, beleza e prosperidade. Seria um guia poderoso para colocar luz no amor tão questionado.

 — Como anda seu namoro? — pergunta a amiga de Carlo.

Após escutar com atenção a resposta não teve dúvida do próximo passo.

— Você tem uma foto da sua amada? Vou consultar os orixás e ver o que eles dizem deste romance.

 Mesmo não dando nenhum valor a qualquer fé religiosa ou espiritual, Carlo entregou aquele pedaço de papel com o rosto lindo de sua amada, escrito no verso "Te amo".

—Você precisa me acompanhar num terreiro! — orientou uma amiga de Ceres.  

Por ter uma vocação religiosa de profundo respeito aos guias espirituais, não hesitou um minuto. Em poucos dias, Ceres estava presente num centro de Umbanda que há muito frequentava com fé na busca de paz e harmonia.

Dois centros religiosos muito distantes um do outro, locais distintos, porém unidos na mesma missão de acolhimento e orientação deste relacionamento. Buscavam o melhor caminho para estes jovens, através dos conselhos emitidos pelas divindades.

Não sabemos como estas forças espirituais abrem os horizontes e preveem o futuro de um amor. Estas conexões singulares anteviram, ao mesmo tempo e com toda clareza, que o amor deles não seria suficiente para superar os desafios presentes e futuros. Não seria a base de uma vida iluminada e sim de lutas, tristeza e trevas.

Receberam a orientação dos orixás para terminar o relacionamento e não duvidar que este era o melhor caminho. O quanto antes. E que eles acreditassem :seria bom para eles.

—Tenho uma coisa para te falar. – disse ele ao telefone.

— Eu também... — respondeu Ceres ao lacônico tom te voz de seu amado.

Resolveram marcar um encontro no mesmo restaurante que tantas vezes iniciaram noites de alegria, diversão e paixão.

Diferente do impacto que aqueles jovens lindos em seus corpos atléticos   sempre causavam ao dirigirem-se à mesa reservada, ninguém olhou para eles. Eram como invisíveis, sem energia.

"Será a força e interferência dos orixás?" pensavam.

 Uma sensação de opressão, como que outros olhos estivessem seguindo aquele casal, vigiando, escutando, espionando ...  

O garçom trouxe a carta de vinhos.

— Não pede nada, vai ser rápido — disse Ceres com os cotovelos na mesa, numa posição de quem se levantaria em instantes.

A surpresa em ambos sobre a consulta aos orixás.

— Como pode ser isso? Duas consultas, dois resultados iguais! — num misto de alívio e resignação. Se a motivação da separação partisse de forma unilateral, seria recebida como uma falta de coragem em não enfrentar a orientação dos orixás.

— Mas .... e se formos contra os orixás— como em um sussurro, os rostos quase colados.

Neste momento, o vendedor de rosas passando pela mesa, com aquele sorriso maroto e um olhar insinuoso, faz a tradicional abordagem

— Cavalheiro, uma rosa para sua amada? 

Rosas amarelas! As preferidas da Orixá Oxum, como lembrando em não contrariar os seus conselhos. Ao olhar o balde de flores amarelas como um sinal, Ceres não teve dúvida na resposta:

—Não devemos contrariar os orixás...

Em poucos minutos, a infinitude oceânica do amor entre os dois jovens foi tragada em poucas gotas de lágrimas. Igualmente salgadas, nos lábios do último beijo, abraçados no restaurante, onde ao mesmo tempo sussurraram:

— Eu sempre te amarei....

Os orixás e as famílias venceram, separando corpos em duas vidas burguesas, eliminando conflitos familiares e sociais na busca da harmonia, sabe-se lá o que é isto.

Mas não venceram, nem no tempo e espaço, o sentimento que vive no espírito, pensamento e lembranças de um amor verdadeiro destes, hoje, jovens sexagenários.

Cesare Arturo Domenico Bianchini

Domenico Cesare é engenheiro, gaúcho de Porto Alegre, 67 anos. Após uma vida profissional pautada no relacionamento e gestão de grandes equipes, decidiu investir suas experienciais pessoais e familiares contando histórias. Em especial, escrever  a sobrevivencia de sua familia italiana nos anos conturbados que antecederam a segunda guerra mundial até seu desfecho. Participando do Curso de Formação de Escritores estreia com seu conto - Os orixás disseram não - na Coletânea Toda Forma de Amor 2025.