por Cesare Arturo Domenico Bianchini
Antes mesmo de chegar com sua enorme mão para buscar a mão de Cino, uma pergunta o fez parar:
— O senhor conhece uma mulher da resistência chamada Rita?
O olhar de Zevelic buscou dentro dos olhos de Cino o quanto poderia confiar naquele soldado italiano:
— Posso até conhecer...mas o amigo conheceu?
— Sim, tive o prazer de conhecê-la. Neste momento está em frente de uma casa com no mínimo uma dezena de malditos fascistas. Nos encontramos por acaso. E combinando as informações, deve ter no mínimo dez fascistas a sua espera. E nosso trato será cumprido: entrego fascistas e o senhor consegue mais um passe para meu amigo no hospital— Cino falou num folego só, sem parar.
Zevelic buscou no olhar seus comandados diretos e olhando para Cino:
— Nos leve lá agora.
Cino pegou a sacola e entregou para Zevelic:
— Por favor guarde em lugar seguro. Este é um outro trato que tenho que cumprir.
O comandante partisan ao segurar a sacola identificou seu conteúdo como garrafas.
— Artilheiro, tenho que confessar que o amigo consegue cumprir o quanto promete... pegue aqui quando voltarmos.
Entre o retorno a casa, o encontro de Zevelic com Rita, a disposição dos partisans nos quatro quadrantes da casa e o início do incêndio pelo teto da casa não levou mais de trinta minutos. E muito menos, os fascistas correndo pela porta frontal, uns com as mãos para o alto, atirando-se ao chão. Outros atirando à esmo com pistolas. Um total de 18 fascistas foram mortos, ou no confronto ou em execuções sumárias. Zevelic e sua milícia eram profissionais em ações como esta. Nenhum movimento errado. Rápidos e precisos. Recolheram os corpos em frente a porta da casa onde o incêndio avançava rapidamente. Somente após a confirmação que os corpos estavam sendo consumidos pelas chamas, deram por encerrada a missão.
Cino acompanhou à distância toda a ação, ao lado de Rita. Sem uma palavra.
Zevelic, aproximando-se dos dois, já liberando a tropa miliciana para outras frentes de controle e combate:
— Belo serviço, menos 18 malditos fascistas. Rita falou que vieram do hospital. Devem ter mais lá... vão pensar duas vezes em tentar sair escondidos.
— Comandante, acho que meu compromisso está liquidado. Gostaria o mais rápido possível que o senhor e o sargento Rosai se encontrem para a emissão do passe adicional para meu amigo.
Zevelic tirando um cigarro e acendendo-o, oferecendo na sequência para Rita e Cino, olhou para ele e demonstrando curiosidade:
— Mas que tanto de empenho para conseguir um passe para seu amigo? Pelo jeito é muito amigo seu... vieram da mesma cidade, são amigos de longa data? Não podem se separar por nada?
— Viemos da mesma cidade e estudamos o ensino elementar juntos. Nossas mães se conhecem desde a infância. Quando de nossa despedida rumo a Iugoslávia, juramos para nossas mães que nos cuidaríamos um ao outro. Um juramento na frente de duas mães que choravam. Em especial a mãe de meu amigo Enzo. Tinha recebido semanas antes a notícia de seu outro filho morto em combate na Africa. Jurei que levaria seu filho de volta. — dando a última baforada no cigarro.
Zelic ouviu em silencio, e em silencio seguiu até o estaleiro junto a Cino.
Ao entrar no estaleiro, antes de se separarem:
— Volte aqui no comando as dez horas. Procure o sargento italiano. Vamos resolver este assunto do passe — colocando a mão no ombro de Cino — As garrafas ficarão comigo. Talvez bebê-las para celebrar o que fizemos esta noite! — em uma sonora gargalhada.
Cino caminhou até o píer do estaleiro. O Sol já apontava no horizonte, o mar na sua frente calmo, uma brisa fresca e um surpreendente silencio. Buscou um local para sentar e relaxar seu corpo exausto. Estava com fome. Mas com uma sensação de dever cumprido. Tinha mostrado para ele e para todos envolvidos nesta ação de encontrar o esconderijo dos fascistas sua competência, coragem e compromisso.
"Como todas as manhãs nasce o Sol, com ele a certeza de que podemos superar qualquer desafio". Esta frase, como um mantra, que escutou muito tempo atrás. De seu pai, encorajando-o a participar de concurso de melhor panetone da cidade. E superar todos os desafios.
O Sol subindo no horizonte, os primeiros raios aquecendo seu corpo.
— Faltam dois dias para a frota entrar por este porto e com ela fugirmos deste inferno. Dois dias... vamos conseguir— encostado numa grande tábua, adormeceu.
O comando italiano tinha recebido os detalhes da frota que iria evacuar cerca de 3.000 soldados. Desde o armistício, muitos navios que saíram de outros portos da Iugoslávia em direção a Italia , tinham sido alvejados e afundados no Adriático. O embarque seria na noite do dia 23 . E zarpar não depois das 22:00 , avançando ao máximo para o porto de Bari na Italia com a proteção da escuridão. E mais próximos da costa italiana, o prometido reforço da marinha italiana e aliada.
A operação de atracar e zarpar deveria ser muito rápida e organizada. Os passes, a designação de cada soldado para cada navio e evitar qualquer tumulto no embarque eram vitais. E uma demonstração aos aliados que o desacreditado exército italiano era composto de oficiais de sabiam organizar uma missão como aquela.
Seis navios mercantis, uma torpedeira Aretusa e uma corveta Chimera .Ambas da marinha italiana como escolta . Dioclesiano era o maior navio e levaria em torno de 1.800 soldados. Borsini 550 soldados , Corfú 300 e as demais Ston, Risagno e Persagno os soldados distribuídos totalizando 3.000 evacuados.
— Soldado! Acorde! — um oficial sacudiu o ombro de Cino.
Ao abrir os olhos, sob um Sol escaldante de final de verão, a primeira coisa que veio em sua mente:
— Oficial, que horas são?
— Dez horas! Apresse-se pois o comando dará instruções para a evacuação daqui a pouco! Na cabeceira do galpão! — gritou o oficial
Cino tentava organizar os próximos passos e levantando-se:
—Oficial, preciso encontrar o sargento Rosai urgente! Onde posso encontrá-lo?
Já se afastando de Cino , gritou como numa ordem:
— Siga agora para a cabeceira do galpão! Todos os oficiais estarão no comunicado!
Não conseguiu chegar perto do palco improvisado. Três mil soldados aglomerados, empurrando-se uns aos outros. Mesmo longe do palco, nos oficiais perfilados ao lado dos generais, localizou o sargento Rosai.
— Soldados! Nos próximos dias atracarão neste porto os navios que levarão vocês para a Italia ! Precisamos fazer deste embarque uma demonstração ao comando aliado de organização e disciplina de nossas tropas! — alguns soldados trocando olhares como que incrédulos, visto um exército que se rendeu vergonhosamente.
— Nossos oficiais convocarão cada soldado, já em poder de seu passe, para informar qual o navio que embarcará. Ainda hoje, cada soldado saberá qual seu navio. Aguardem na sequência os avisos no sistema de som! — encerrando o comunicado.
Com a multidão de soldados se dispersando no pavilhão, Cino abriu caminho com muito esforço até o prédio do comando militar. Precisava encontrar o sargento Rosai e onde o comandante partisan Zelic tinha guardado as garrafas de "slivovice". Tomara que ainda cheias.
Abrindo a porta, localizou imediatamente o partisan Zelic. " O que ele faz aqui, a todo momento com os italianos?"
— Comandante Zelic, por favor, o senhor pode me alcançar as garrafas que deixei aqui?
O partisan Zelic olhou para ele, e virando-se para um conjunto de mesas ao fundo da sala:
— Sargento Rosai , o artilheiro está aqui! Pediu pelas garrafas!
A passos lentos o comandante Rosai aproximou-se de Cino, colocou a mão no seu ombro e disse em voz baixa:
— Soldado, bom trabalho. Fiquei sabendo da ação conjunta com Zelic ontem à noite. Você foi rápido e cumpriu com a palavra: entregou os fascistas e conseguiu as garrafas de " slivovice" — apertando levemente o ombro de Cino, como um carinho.
Estava na frente das duas pessoas que garantiriam a sobrevivência de Enzo. Eles não poderiam negar o passe. Tinha feito tudo que prometera.
— Lorenzo de Lucca Zanosso , 4° regimento de Artilharia Bergamo. É nome de meu amigo. Por favor, preciso do passe para entregar para ele.
Os dois se olharam e seguiram para a conferência nos livros da lotação dos soldados. Passados alguns minutos, o sargento Rosai retorna com o passe na mão.
— Está aqui, assunto encerrado. Ele pode entrar no galpão do estaleiro a qualquer momento. Se possível nas próximas horas, pois vamos começar a designar os navios de cada soldado. Pode buscá-lo.
Estava entregando o passe, mas reteve na sua mão, para espanto de Cino.
— Você não quer tomar aquela garrafa de "slivovice" comigo hoje à noite?
Cino teve a sensação de levar um soco, estar grogue, meio tonto, sem reação. Não conseguia raciocinar. Precisava uma resposta que garantisse o passe de Enzo sem se comprometer com o oficial.
— Sargento Rosai! Claro! Vamos brindar em conjunto com Enzo hoje a noite! Com certeza! Será uma honra! — respondeu Cino como que agradecendo o convite.
O oficial como que pego de surpresa, estendeu a mão, entregou o passe e sumiu na sala de comando. Cino olhou o passe nominal a Enzo, guardou no bolso da camisa e olhou para a porta da saída: "Um problema de cada vez: agora é buscar Enzo".
No caminho da porta, ainda conseguiu pegar algumas fatias de pão duro e frutas secas. Já era meio-dia. Enganaria o estomago mais uma vez.
— Não acredito! O passe em meu nome! Vamos embora daqui agora! — Enzo falando em voz baixa, já começando levantar-se da maca.
Cino observou a dificuldade do amigo, o esforço para estar de pé. Olhou ao redor buscando o enfermeiro Luigi. Precisava ter certeza de que Enzo estava liberado para sair do hospital. Lembrou das palavras do sargento Rosai, ainda na praia, durante a inspeção de seu corpo: "Para onde vamos, não entra nenhum soldado ferido".
— Enzo, você está bem? O enfermeiro Luigi liberou você?
— Estou bem! Ele fez o curativo agora pela manhã e disse que estou com a nádega nova! Estou um pouco tonto destes três dias deitado e tomando esta sopa rala duas vezes por dia! — empurrando Cino para o corredor cada vez mais vazio de feridos.
No percurso até o estaleiro puderam observar a movimentação nas ruas e praças de Spalato. Uma enorme quantidade de soldados italianos estava aderindo a batalhões de resistência junto aos partisans. Denominados " Batalhões Garibaldi" garantiam aos italianos uma chance de sobrevivência: estarem armados, alimentados e com uma esperança. Quanto mais cedo expulsassem os nazistas da Iugoslavia, mais cedo retornariam para a Italia. A adesão em massa de milhares de soldados italianos estava suportada e garantida por uma outra razão. Que justificava a presença permanente do comando partisan na área do porto.
Nos navios que chegariam para a evacuação, o comando aliado enviaria armamentos adicionais para reforçar a resistência partisan. Isso foi dado como garantia para convencer os italianos em passar a lutar ao lado dos partisans. Em especial a entrega de submetralhadoras Thompson. Um potencial de fogo muitíssimo superior aos fuzis do exército italiano, alguns ainda da primeira guerra.
— Cino, será que não estamos errando? Não deveríamos nos alistar nestes batalhões de resistência? — Enzo olhando o entusiasmo de muitos soldados que seguiam para as formações organizadas pelos partisans.
Sem parar para responder, Cino seguia para o estaleiro a passos largos, com pressa de chegar e estar seguro dentro do galpão. Chegando lá, com calma, responderia ao amigo quais as razões que não deveriam ficar na Iugoslávia. "O que passa na cabeça de Enzo para ter esta dúvida?".
Ao entrar na rua que terminava no portão do estaleiro, não mais de 200 metros de onde estavam, pararam ao ver a cena. Uma multidão de soldados italianos, centenas, bloqueavam o portão de entrada. Grande tumulto, gritos e um princípio de invasão.
— Isso não vai acabar bem... vamos nos infiltrar, agora! — ordenou Cino empurrando um cansado Enzo para acelerar a caminhada até multidão.
Já no meio do tumulto, perguntou para um soldado ao seu lado:
— E verdade que os porcos comandantes e alguns escolhidos estão fugindo de Spalato por navios? É verdade?
— Sim, malditos comandantes, covardes, incompetentes! Chegarão navios amanhã e queremos também fugir! Vamos invadir o estaleiro! — interrompido pela rajada de diversas metralhadoras que vinham do portão.
Uma correria, soldados caindo e sendo pisoteados. Novas rajadas e a visão do portão já sem nenhum bloqueio. Ele aberto com uma milicia de partisans ao lado de alguns oficiais italianos. E a figura imponente, segurando a metralhadora para o alto para uma nova rajada de intimidação: comandante Zelic.
Aos gritos, metralhadora no peito:
— Soldados, tenho ordem do comando italiano de dispersar este tumulto. Ninguém entrará aqui se não tiver passe. Não insistam, sem chance de entrar. As forças aliadas e seu exército organizará uma outra evacuação, em breve. Repito, não insistam!
Vendo a sua frente um corredor aberto de uns 30 metros ladeado de paredes de soldados, Cino não teve dúvidas:
— Vamos agora para o portão, rápido! — empurrando seu amigo cada vez mais cambaleante.
Entre gritos de covardes e outros insultos da multidão de soldados, chegaram ao portão aberto:
— Ora, ora.... o artilheiro e seu grande amigo! — e olhando para o resto da milicia atrás dele — Deixem entrar, esses tem passe!
Somente quando chegaram ao portão do pavilhão, voltaram a olhar para o ingresso do estaleiro. Novas rajadas de metralhadora para o alto para afastar ainda mais a multidão. Conseguiram escutar claramente o comandante Zelic:
— Tenho uma segunda ordem de seus comandantes! Escutem bem! Estou autorizado a disparar contra vocês se insistirem entrar ou forem pegos aqui dentro sem o passe para embarcar! Muitos sabem, mas é conveniente lembrar! Para um partisan , matar é como um esporte! Não vamos hesitar!
Dentro do pavilhão, um claro clima de tensão pelas manifestações dos soldados no portão do estaleiro. Quem estava com o passe na mão aguardava somente a designação de qual navio embarcaria. Os oficiais italianos já começavam a organizar as mesas com grandes cartazes com os nomes dos navios. Dioclesiano,Borsini,Corfú,Ston, Risagno e Persagno.
Para os 3.000 soldados no galpão nada poderia impedir este embarque. Nem seus desesperados colegas que deveriam aguardar por uma outra frota de navios.
— Há menos de 30 dias atrás, estávamos atirando nos partisans. Agora são eles que atiram em nós, ou nos protegem, ou nos convidam para lutar com eles. Que guerra é esta? Se voltar um pouco mais no tempo, um ano atrás, quantos partisans fuzilamos sumariamente nas operações de limpeza? Queimamos suas casas e aldeias! E agora esta cena: os partisans protegendo 3.000 soldados italianos e afastando outros tantos para que não atrapalhem o embarque dos inimigos de dias atrás! — Enzo murmurava encostado numa chapa de aço, tomando um folego e tentando achar uma posição cômoda evitando pressionar o ferimento na nádega.
Cino olhou o amigo e estava pronto para responder a pergunta "Não deveríamos nos alistar nestes batalhões de resistência?":
— Enzo, jamais me alistaria nos batalhões da resistência. Já disse não ao comandante Zelic. Esse "não" foi o primeiro de muitos que direi daqui para frente em minha vida. Sempre alguém moldou o meu destino, desde pequeno. A maldita doutrina fascista nas escolas, dos pelotões mirins dos "Filhos da Loba" nos desfiles de datas nacionais. Minha família, você sabe, não é fascista, mas essas demonstrações tranquilizavam a todos para não ter problemas com os milicianos.
— Depois como aprendiz servi a muitos patrões, desde pequeno. Lembro do primeiro quando tinha onze anos. Minha função era a limpeza das panelas num grande tanque. Precisava subir num caixote para alcançar o fundo dos tachos. Nunca disse não para qualquer serviço. Lembro de uma vez, ao pedir ao patrão para começar a trabalhar como aprendiz de confeiteiro e sair do tanque. "Quando eu ver meu rosto refletido no fundo de um tacho de cobre, voltamos a falar"
— Após meses, chamei o patrão. Eu me via no fundo do tacho. Ele olhou e disse que precisava melhorar... para um menino de onze anos. Este é um exemplo que nos leva até aqui. Servimos a pessoas que servem a seus pensamentos e porcos desejos muitas vezes absurdos. Desejos irreais ou indignos de serem humanos. Assim mesmo, mais de 350.000 soldados foram enviados para este matadouro de jovens. Para que? Para nos render depois dois anos de uma guerra sem razão de ter começado? E sermos uma tábua de tiro ao alvo de um parque de diversões? Partisans, fascistas, alemães, astucias se revezando?
Cino estava buscando folego para continuar, quando do sistema de alto-falantes:
"Atenção soldados! Em 30 minutos começará o comunicado do navio que vocês embarcarão! Usaremos na convocação o regimento ou batalhão onde estão lotados! Fiquem atentos!" paralisando todos os soldados no galpão.
Enzo olhou seu amigo, e segurando seu passe:
— Cino, vamos embarcar, vamos para a Italia" numa voz embargada e visivelmente emocionado.
— Se você deseja com todas as suas forças embarcar, por que a dúvida de ficar? Embarcar traz felicidade para você! Como para mim! Não vou servir aos partisans e seus métodos horrendos e desumanos de matar seus inimigos! Não vou servir aos empalamentos vivos! Caminhar ao longo de estradas com homens amarrados a postes, agonizando, implorando por uma bala na testa! E os terríveis garrafões de vidro, cheios de olhos arrancados pelos partisans com os próprios dedos! Você viu como eu vi, os corpos esquartejados em praça pública dos inimigos dos partisans. Mussolini falou uma verdade em relação a esses povos iugoslavos sendo sérvios, eslavos, croatas e todas as suas tribos: são animais, uma raça inferior. E parece que nos moldamos a eles. Se o meu destino será servir aos aliados na guerra de libertação na Italia , tenho certeza de que não será nos moldes da barbárie que estamos vivendo.
Os dois se olharam longamente, em silencio. Como num filme, estavam recordando as cenas que testemunharam ou foram protagonistas. E que seriam revistas por muito tempo em suas vidas, dificilmente seriam apagadas da memória.
— Esse motor do ódio, permanentemente ligado... não fazia parte de mim. Sempre insuflando, mantendo cheio um reservatório de violencia. Até ontem eu era uma pessoa normal e em dois anos perdi a razão, o bom senso. Virei um animal com um único sentimento: ódio. — Cino suspirou como cansado de lamentar-se, pois de nada adiantaria.
— Usando a visão do motor, gostaria de engrenar a marcha à ré... se fosse possível. E retornar até aquele homem que se despediu na frente de nossas mães. Sei que voltaremos para a Italia, vamos pisar o solo de nosso país. Poder rever nossa família em breve, talvez. Mas temo que na mochila invisível em nossas costas, vamos carregar por toda a vida o peso das pedras de nossa culpa destes dois anos de carnificina na Iugoslávia.
— Cino, a culpa foi de quem nos mandou matar, não nossa— a surrada transferência de responsabilidade novamente lembrada por Enzo.
" 4° Regimento de Artilharia Divisão Infantaria Bergamo: Dioclesiano." No sistema de som no galpão.
Localizaram a mesa com o cartaz e uma fila já se formava. Ao ver quem estava na conferência do passe : sargento Rosai. Organizaram as mesas numa espécie de arquibancada, era necessário superar três degraus altos.
Enzo antecipou-se à mesa. Para superar os degraus com o ferimento na nádega teve alguma dificuldade, subindo degrau por degrau. Cino olhou para o sargento Rosai e antecipou o que viria a ser um novo problema.
Com o passe na mão e nova conferência, sem olhar para Enzo, fazendo anotações nos papeis na mesa, falou calmamente:
— Soldado, olhando quem está com você, aí atrás, estamos com um problema. O famoso amigo que estava no hospital militar. Pela dificuldade que subiu estes degraus, imagina subir uma escada de 20 metros, pendurada e balançando no costado do navio.
Olhando nos olhos de um atônito Enzo e sem deixar de olhar para Cino, que acompanhava cada palavra que saia de sua boca:
— Como de conhecimento de todos, não podemos ter soldados feridos na evacuação. Deixe a fila, e volte ao término para novas ordens.
Cino subiu correndo os três de graus:
— Sargento Rosai! Eu me responsabilizo pelo meu amigo. Faltam dois dias para chegar os navios. Até lá ele estará bem melhor.
O oficial, olhou para Cino com um sorriso nos lábios. Com a ponta da caneta, apontava e batia sobre um pedaço de papel.
"Hoje, meia-noite, deposito de combustíveis no final do estaleiro. Vamos tomar aquelas garrafas que estão guardadas."
Cino olhou o sargento Rosai , entrando no jogo dele, sorrindo:
— Estarei lá. Não precisa levar copos.
O oficial amassou o papel e colocou no bolso da camisa.
— Quanto ao senhor, o navio será o Dioclesiano , o maior. Vamos juntar todos da Bergamo, pois uns ajudam os outros. Ele não atracará no porto, ficará ao largo e o embarque será por escadas no costado.
Cino empurrou seu amigo que estava paralisado. Foram procurar um lugar para descansar o corpo e pensar na solução. Como num ditado, lembrando cada palavra no bilhete, falou ao amigo a proposta do sargento Rosai.
— Já tenho a solução— Enzo dando uma longa baforada num cigarro que conseguiu emprestado.
A lembrança de como foi resolvido a busca por fascistas, quando Enzo informou que estavam no próprio hospital militar, chamou a atenção de Cino. Talvez a solução existisse e seria mais fácil que ele pensava.
— Este assunto para você é um tabu e não vai dar conta de atender o sargento Rosai. Eu tenho uma visão bem diferente, tive amigos homossexuais que foram perseguidos pelo fascismo. Devem estar presos nas ilhas no sul da Italia. Lembro bem quando invadiram a casa onde estávamos numa festa, alguns mais alegres que outros. Identificaram rapidamente quem era os passivos e os ativos. Os passivos foram jogados no assoalho de um caminhão, como animais. Nunca mais os vimos. E os ativos, consideravam um desvio de conduta, nada grave. Mantinham a visão de nossa masculinidade imposta, de subjugar, de dominar. Depois, nos ameaçavam de levar-nos, caso novamente pegos em flagrante. Alguns socos e tapas e iam embora.
— Você está propondo ir em meu lugar? E se ele descobrir?
— Será a primeira surpresa do sargento Rosai: eu estarei lá para beber com ele.
— E a segunda surpresa?
— Ano passado você deu entrada no Hospital Militar, ferido. Se mantiveram os arquivos, está lá as três semanas de atendimento antes do retorno para o front. E o motivo de seu internamento: ferido nos escrotos e a perda de um testículo.
— Enzo, você vai dizer que eu virei um eunuco?
Após uma longa gargalhada, concluiu seu plano:
— Não fique ofendido, mesmo porque lembro de nossas folgas nos bordeis de Spalato depois de seu ferimento... as putas lhe procurando quando entrava pela porta. O sargento Rosai vai escutar de mim que você não teria condição de tomar até o fim a "slivovice". Na rapidez que a degustação impõe nestes momentos. Ao contrário, eu, estaria com muita sede para esvaziar a garrafa.
Tentou organizar o corpo para deitar-se do lado oposto ao curativo.
— Preciso descansar, sei que me entende.
Quando Cino acordou, já era noite e seu amigo não estava a seu lado. A fome voltou a espetar seu estomago e para surpresa observou que muitos soldados ao seu redor estavam sentados com um grande saco de papel. E comendo. A perguntar a um companheiro as horas "São oito horas" e onde tinha conseguido a comida: " Estão distribuindo na cabeceira do pavilhão. Comida dos aliados" seguiu imediatamente para buscá-la. E para tentar achar Enzo.
Uma lata com carne, uma porção de nozes e um pedaço de pão. Um banquete.
Voltando ao seu lugar sem encontrar Enzo naquela multidão de soldados cada vez mais agitados pela aproximação do embarque. As tentativas de invasão ao galpão tinham cessado, principalmente pela promessa que a frota de evacuação retornaria em poucos dias para nova retirada de soldados. A pressão era grande, pois os partisans precisariam garantir que Spalato não caísse nas mãos dos nazistas antes deste futuro embarque. E no comunicado dos oficiais italianos, a informação que dava esperança que os nazistas não entrariam em Spalato. Nos navios que chegariam nos próximos dias, uma grande quantidade de armas dos aliados, equipando os partisans e os " Batalhões Garibaldi" na resistência aos alemães.
Cino voltou a perguntar as horas "Onze horas". Nada de Enzo. Com o estomago cheio, tentava relaxar e descansar quando, num chute em sua botina:
— E aí parceiro? Como estou? — Enzo com uma camisa limpa, cabelos lavados e penteados, barba feita como que pronto para uma condecoração.
— Perguntar como você conseguiu essa façanha, já sei da resposta: "Tenho meus amigos"? E o curativo, como está?
— Cino, com meu passe, uma boa conversa e "meus amigos" voltei ao hospital militar e o Luigi me liberou o banho e o resto. Até uma cueca nova...Refez o curativo. Está tudo bem!
Após uma última inspeção nas suas roupas, olhou para Cino :
— Relaxe, daqui a duas noites estaremos no DIOCLESIANO e tudo isso será passado. Vamos ver Spalato desaparecer no horizonte e com tudo que aconteceu aqui, fique com este pensamento
Ao chegar no deposito de combustíveis, o sargento Rosai já se encontrava e ao ver Enzo, ia começar a falar quando com um dedo na sua boca o fez calar.
Começou a narrar o motivo da troca "Coitado dele, não observei com atenção quando estava nu na praia", as experiencias anteriores nas festas com amigos homossexuais "Pena que você está embarcando nos próximos dias", que estava na hora de destampar a garrafa de aguardente de cereja "Vamos bebê-la até o fim".
— Já voltou? Tão rápido?
Enzo ao se acomodar ao lado de seu amigo:
— Realmente você não sabe nada disso... não fui pedir a mão do sargento Rosai em casamento! Vamos dormir... sabe-se lá qual nova surpresa nos aguarda.
Era dia 22 de setembro.
Uma chuva torrencial tornava tudo mais complicado, pelas inúmeras goteiras no teto do pavilhão e as laterais abertas. Os soldados se aglomeravam como podiam ao lado dos cascos dos navios e qualquer parede improvisada. Pelo sistema de som informaram o horário da distribuição do único kit de alimentação do dia: final da tarde. E de uma reunião com o comando italiano e partisan, para organizar uma operação de descarregamento dos navios que chegariam no porto.
Cino olhava para Enzo como esperando ele começar a detalhar o encontro da noite anterior. Era estranho, tinha curiosidade para saber todos os detalhes.
— E aí parceiro, já sabe o navio que vai embarcar? É o Dioclesiano?
Espreguiçando todo o corpo, Enzo olhando para seu amigo:
— O sargento Rosai pediu para ir ao comando as 10 horas para confirmar o Dioclesiano. Porém, antecipou este detalhe do descarregamento agora anunciado. Precisamos falar, mas agora vou tentar dormir mais um pouco.
— Ressaca da " slivovice" ?
Enzo levantou-se o suficiente para sentar-se, evitando apoiar no ferimento.
— Este seu comportamento é no mínimo cafona, raso e está me ofendendo. Fico lembrando das suas palavras centenas de vezes repetidas "Precisamos cuidar um do outro! Por um lugar no próximo navio que sair deste porto!" O que importa o que aconteceu? Estamos embarcando juntos no Diocleciano e vamos cuidar um do outro até pisar na Italia! — concluindo e virando-se para tentar descansar.
Cino sentiu-se envergonhado, tentou responder ao amigo com um pedido de desculpas, mas achou melhor deixá-lo descansar.
Começou a circular pelo galpão apinhado de soldados .Sentia a tensão no ar. Era véspera do embarque de 3.000 soldados, operação que deveria ser rápida com o mínimo de tempo dos navios atracados ou ao largo do porto. Escutava desde a preocupação quanto a ataques dos aviões alemães, ocorridos em outros embarques na Iugoslávia. Ou que os partisans não estariam suportando a carga dos alemães na cidade de Livno e a qualquer momento estariam em Spalato. Seriam mortos ou enviado prisioneiros para a Alemanha. Outro comentário era que os partisans estariam convencendo os soldados italianos a novas adesões à resistência. Com a promessa de modernos fuzis e metralhadoras que chegariam nos navios de amanhã e que não morreriam afogados quando os navios torpedeados começassem a afundar.
Conseguiu um cigarro com um colega do 4° Regimento de Artilharia e voltou para onde estava Enzo. Para sua surpresa, estava comendo uma grande fatia de pão que dividiu com ele:
— Com os cumprimentos do sargento Rosai! — mastigando e mostrando o passe escrito em letras maiúsculas: Dioclesiano .
— Vamos embora deste inferno— murmurou Cino.
Enzo recostou-se numa tabua, como que saciado de uma fausta refeição:
— Inferno, como alguém já disse, é o lugar aonde a verdade chega com atraso. Estamos vivendo uma verdade que estava escancarada em nossa frente, e que por diversas circunstâncias e nossa burrice, resolvemos não enxergar.
— Eu não consigo julgar-me burro, talvez não quisesse ir contra uma maré que desde criança me empurrava para um único lugar: servir a minha pátria. Assim foram meu pai, tios e muitos nossos conhecidos que não duvidaram em lutar na Grande Guerra ou embarcar para as colônias africanas. Muitos não voltaram, outros contando aquelas histórias de guerra que eram pura aventura e heroísmo que nos hipnotizavam quando adolescentes. — respondeu Cino dando a última baforada no cigarro.
— Nem isso podemos fazer! Sim, meus tios voltaram da Grande Guerra vitoriosos, recebidos como heróis. Eram pessoas honradas. Nossa geração está retornando para a Italia como perdedores, como um exército que se rendeu! Qual a história que vamos contar? Qual mísera vitória, ou ato de bravura na defesa de nossa pátria? — Enzo levantando-se para esticar o corpo.
Eram dois jovens soldados italianos, de um exército que tinha se rendido e estava batendo retirada do campo de batalha. Torcendo que o seu inimigo de algumas semanas atrás conseguisse impedir que seu aliado agora inimigo tomasse a cidade e viessem a matá-los ou aprisioná-los. E que ainda não estavam salvos. Somente com a esperança de serem embarcados e que aquele navio atracasse num porto italiano daqui alguns dias.
— O que martela minha mente é a pergunta: por que estes dois anos de violência e morte? De dor, de privações, de um ferimento para toda a vida? Minha maior dúvida é se esta sensação de punição terminará com o fim da guerra. Tenho somente 22 anos e não quero levar este tormento para o resto da vida! — Enzo olhava o amigo que já se afastava dele, como que não querendo mais escutar um discurso com muitos "por quês".
Já sem chuva a tarde avançava para a noite, a última na Iugoslávia. Antes de distribuir um novo lote de comida dos aliados para os soldados, o comando anunciou que precisava de voluntários para a descarga de armamentos que chegariam nos navios. Uma equipe de 100 soldados divididos em dois navios para transferir aos caminhões dos partisans.
— Precisamos saber em quais navios chegarão as armas— comentou Enzo
— Você quer ser voluntário para estes animais?
— Não estou entendendo... outro dia você entregou para os "animais" dezenas de fascistas! — olhando para Cino— Quem estiver descarregando estará dentro do navio. Estará embarcado. Eliminamos qualquer risco de última hora, de tumultos, de ordens e contraordens destes tontos oficiais italianos.
— E já embarcado, não precisará escalar os 20 metros do costado do Dioclesiano— Cino levantou-se e foi procurar seu amigo sargento Rosai.
Não tardou em retornar com a resposta :
— Risagno e Persano, os menores navios que podem atracar no cais! Vamos nos inscrever — aguardando que Enzo se levantasse.
O comando dos partisans estava organizando junto com os oficiais italianos as duas equipes e novamente cruzam com o comandante Zelic:
— Ora, ora os artilheiros da Bergamo! Quanta honra em ajudar os seus amigos partisans!
— Comandante Zelic, sei que estas armas são importantes para a resistência e para nós. Somente assim vencerão os nazistas! Conte com a nossa ajuda! — respondeu Cino com uma saudação.
O comandante partisan olhou com atenção Cino, aproximou-se e falou lentamente, como fosse um conselho ou um pedido:
— Artilheiro, do pouco que conheci você sabe que seu dedo nestas armas seria de grande valor. Vou pedir pela última vez: ao descarregar as caixas de armas, entre no caminhão e siga com a resistência. Terá mais chance de viver que num navio cruzando o Adriático e sendo alvo dos Stukas. Navios superlotados. Pense e volte amanhã com a decisão certa. Vou separar uma boina para você. Seu amigo será bem-vindo, se for tão bom quanto você.
Já longe do local da inscrição voluntária no navio Risagno , Enzo puxou o braço de seu amigo , num tom aflito:
— Cino, ele tem razão! Eu já tinha essa ideia de me alistar na resistência! Eu não sei nadar!
"De novo" pensou Cino puxando o braço e seguindo para o local onde iria comer a sua ração de carne, tentar relaxar e cruzar a última longa e insone noite em território iugoslavo.
Um ensolarado 23 de setembro brindou a todos, com a esperança de uma evacuação, pelo menos, com tempo bom.
Grandes cartazes pendurados com nomes dos navios. Uma enorme agitação dos oficiais italianos organizando os soldados por navio. A informação que os navios chegariam no início da tarde permitiria antecipar as partida era :questão crucial. Em especial o Diocleciano que não atracaria no cais com uma logística adicional de levar os soldados em 5 barcos de pescadores limitados 20 soldados por vez. O tempo para colocar a bordo os 1.300 soldados era no mínimo 4 horas.
Além dos cartazes com nome dos barcos, um outro grande com "Descarga Resistencia" e para lá seguiram Cino e Enzo. E ao chegar no local, já com quase todos os voluntários, a figura do comandante Zelic. E ao seu lado o sargento Rosai.
—Soldados! Quem voluntariou-se para descarregar o Rissagno à minha esquerda! Será o primeiro navio a atracar! — neste momento o sargento Rosai identifica na aglomeração de soldados se movimentando na sua frente o parceiro de bebedeira da noite anterior. Enzo faz um aceno com a cabeça e foi retribuído com um sorriso.
A atmosfera dentro do galpão era de pura tensão. Os soldados organizavam-se junto as mesas e locais de cada navio sob orientação dos oficiais. Nenhuma algazarra ou correrias. Estavam concentrados para garantir, individualmente, que no momento da ordem de zarpar a bordo tudo corresse bem. No tempo previsto.
Os oficiais informaram que a única alimentação do dia seria entregue dentro de cada navio, tão logo saíssem do porto. Mais uma razão para a operação de embarque e partida fossem o mais rápido possível.
Neste momento o aviso no sistema de som paralisou todos no galpão:
— Soldados, a frota já passou pela ilha de Brac. Estimamos que entre duas horas comecem a atracar no porto os navios menores. Preparem-se! Estamos voltando para a Italia!
Como Cino e Enzo, os 3.000 soldados levaram cinco segundos para entender a mensagem que estavam preste a voltar para a Italia. Neste átimo de tempo, um absoluto silencio em todo o galpão. Para depois estourar em gritos, soldados se abraçando, pulando, muitos chorando, alguns ajoelhados. Estava chegando o momento de deixar a Iugoslávia, do risco iminente de serem aprisionados pelos alemães ou executados como traidores pelos fascistas.
Estavam muito próximos da garantia da sobrevivência quando os navios deixassem a costa da Dalmácia , superando as ilhas em frente a Spalato e colocasse a proa em direção ao porto italiano de Bari.
Um conjunto de ilhas localizadas entre 10 a 30 milhas marítimas em frente ao porto de Spalato constituía uma secular defesa desta região. Muitas povoadas e com guarnições militares italianas, agora totalmente abandonadas. Nas maiores como Brac, Hvnar e Solta estruturas permanentes permitiam atracar pequenos barcos. Cino conhecia a ilha de Brac, onde uma população mais receptiva que de Spalato proporcionavam noites muito alegres com festas, vinho primitivo e carne ensopada. As demais ilhas como Busi entre outras, não passavam de uma rocha perdida no meio do mar Adriático.
A frota já ter cruzado o estreito entre as ilhas de Brac e Solta significava que atracariam nas próximas horas no porto de Spalato.
Cino ainda abraçado ao seu amigo, recobrou o foco. Garantir na rápida operação de descarga do navio Risagno a possibilidade de ser o primeiro a zarpar de Spalato. Com ele dentro e não no Diocleciano, reservado para a Divisão Bergamo. Este seria o último a sair da baía de Spalato pela logística de carregar mais de mil soldados via escaleres. Precisava unir-se aos demais voluntários e pressionar para iniciar os trabalhos tão logo o navio baixa-se o portaló no cais.
— Enzo, vamos nos apresentar na equipe de descarga agora. Vamos pressionar o comandante Zelic. Não sabemos até onde vai nossa colaboração na descarga.
Em duas equipes de cinquenta soldados, sob o comando de oficiais partisans e um sol escaldante do início da tarde, Enzo e Cino ficaram surpresos com mais de dez pequenos caminhões estacionados no cais do porto. O transbordo das caixas de munição seria imediato e o despacho para o front de resistência nos arredores de Spalato. As notícias que uma divisão alemã com mais de mil soldados estava chegando do norte da Iugoslávia tornava urgente armar os batalhões de italianos que aderiram à luta partisan.
Entre o apito do navio Risagno entrando no porto, aproximação no cais , procedimento de atracagem e lançamento de dois portalós não mais de uma hora.
— Cino, chamar isso de navio é um exagero...parece uma casca de noz! Parece uma sucata! Tem certeza de que vamos escolher este para cruzar o mar para a Italia?
Enzo olhava para aquilo que levaria aproximadamente cem soldados para o porto de Bari na Italia. Aproximadamente 250 km de distância, doze a quinze horas de navegação sem nenhum contratempo.
Cino nem respondeu a mais uma demonstração de pouca fé do amigo. Estava focado no comandante Zelic que comandava toda a operação ao lado de generais italianos, meros espectadores da operação de descarga.
— Em 15 minutos, uma equipe em cada escada começará a subir no navio. A descarga das caixas de armamentos e todo o material que estiver identificado com uma estrela vermelha . Quanto mais rápida a descarga, mais rápida a entrega ao comando italiano para a evacuação dos soldados designados ao Risagno!— a voz conhecida do comandante Zelic com sua indefectível boina com a estrela vermelha.
Iniciada a operação de descarga, Cino observou a dificuldade do amigo em dividir o peso de caixas com armamentos e descer por uma escada de mais de 10 metros. O ferimento na sua nádega limitava os movimentos e era nítido que não conseguiria seguir na operação de descarga.
— Enzo, encontre um lugar seguro para nós neste navio. E vá para lá. Você não tem condição de carregar estas caixas. Nesta confusão nem darão conta da sua ausência.
— Vou procurar... — a resposta, com alguma dificuldade. A dor do ferimento tinha retomado com força.
Os outros navios menores já tinham atracado no cais e a operação de evacuação dos soldados tinha começado. O navio Dioclesiano designado para a Divisão Bergamo estava fundeado ao largo do porto. Cino observou que o número de embarcações pequenas para levar do cais até o navio não passava de cinco. E não mais de 20 soldados em cada viagem. Levariam muito tempo. Era decisivo ficar no Risagno e zarpar o mais rápido de Spalato.
Eram quatro horas da tarde e faltavam poucas caixas para completar o carregamento nos caminhões. Enzo já tinha indicado para Cino o esconderijo e aproximava-se o momento que ele subiria e não desceria mais do navio. Apostava que tanto o comandante Zelic como os oficiais italianos não estariam preocupados em controlar a desmobilização dos voluntários para o destino correto de cada um em seu navio. E de fato ocorreu.
A urgência em retirar os caminhões do cais e a pressão dos soldados designados para o Risagno gerou a combinação perfeita de uma confusão tão logo os motores dos caminhões começarem a funcionar. Viu os caminhões saindo do Cais com o comandante Zelic no estribo de um deles, com sua metralhadora apontada para o alto. Toda a sua esperança que a resistência dos partisans e dos Batalhões Garibaldi garantisse que os alemães não tomassem Spalato .
Cino correu para o esconderijo juntando-se ao seu amigo. Estavam salvos.
— Parceiro, agora é esperar... vamos sair daqui em poucas horas.
Na troca de olhar com Enzo que estava deitado para evitar a dor no ferimento, veio a pergunta:
— Como vamos receber a ração de alimentos? Estou morrendo de fome!
Sem dúvida, mais um problema. Cino começou a pensar na solução.
Já eram quase cinco horas da tarde. Com a descarga concluída e a saída da maioria dos partisans do cais, as vozes de comando agora eram dos oficiais italianos organizando a fila para o embarque dos soldados. Cino foi até o parapeito e pode vislumbrar em frente das duas escadas uma dupla de partisans ao lado de um oficial italiano: o sistema de passe na caça de fascistas continua severo. O controle de acesso seria um obstáculo a mais e retardaria a subida dos soldados.
Cino avaliou que mesmo um cargueiro pequeno como o Risagno, com não mais de dez tripulantes, deveria ter uma cozinha. Precisava localizá-la e conseguir alguma comida antes da subida dos soldados.
— Enzo, fique aqui. Vou atrás de comida. Não saia daqui por nada.
Ao sair do esconderijo, amontou mais umas caixas em frente e seguiu para a parte inferior, através de uma escada de acesso ao porão. Chamou a atenção que não escutava vozes da tripulação e lembrou que não tinha visto um único marinheiro quando do descarregamento das armas. "Talvez tenham descido para ir a um bordel de Spalato". As únicas vozes eram dos oficiais italianos e a gritaria dos soldados ansiosos para subir no navio.
Não demorou para encontrar uma pequena despensa de alimentos e rapidamente conseguiu um grande pedaço de pão e uma fatia de carne seca pendurada. Encheu uma garrafa de água, um punhado de frutas secas e surpreendentemente, quatro bananas penduradas num cacho. Talvez de alguma escala em porto do Mediterrâneo.
Saboreando em conjunto com seu amigo aquela que seria a última refeição na Iugoslávia, Cino começou a analisar a situação da tripulação: "Nenhum a bordo, muito estranho". Outra preocupação era com Enzo que resmungava com mais frequência da dor de seu ferimento.
— Deixa dar uma olhada em seu curativo.
Ao ver que estava manchado de sangue e sujo, mesmo com resistência de Enzo, retirou o suficiente para ver que alguns pontos tinham aberto. Precisa uma limpeza urgente e troca do mesmo.
— Vou tentar localizar uma caixa de primeiros socorros. O navio parece abandonado, não tem ninguém. Precisamos refazer este curativo.
Enzo olhava o amigo com certa aflição. De quem está com um problema e precisa de ajuda para resolvê-lo.
Quando estava fazendo os primeiros passos, escutou a algazarra dos soldados italianos que estavam subindo à bordo. Decidiu voltar para o esconderijo e somente depois que o navio começasse a navegar, buscar a solução de um novo curativo.
Cino calculou que em meia hora todos estariam a bordo, não mais de 200 soldados. Pelo barulho dentro do navio e os gritos de "Vamos embora daqui. Estamos todos a bordo!". Saindo do esconderijo, em minutos estava no meio dos soldados que se apinhavam no parapeito. Olhavam no cais os oficiais italianos e um encarregado do porto discutindo. E entendeu o problema.
Mais um problema: a tripulação tinha abandonado o Risagno.
Uma liderança dos soldados estava junto aos oficiais italianos e ao subir correndo a escada gritou:
— A maldita tripulação abandonou o navio. Ele não vai zarpar! Precisamos descer!
Cino paralisado com a notícia. Um início de tumulto entre os soldados, alguns iniciando a descida. Neste momento, rajadas de metralhadora vindas do cais e uma voz de comando conhecida: era o comandante Zelic.
— Ninguém desce deste navio! Vamos resolver o problema! Quem descer vai seguir boiando no mar, pois não terei dúvida em atirar! Ninguém desce!
Vista do parapeito apinhado de soldados ansiosos para seguir a evacuação prometida, acompanhavam uma reunião com diversos oficiais italianos e partisans no cais. Um lindo por do sol em Spalato indicava que a noite chegava. Neste momento os outros dois navios pequenos – Persagno e Corfú – começaram a operação de desatracar do cais, já com todos soldados a bordo. Iniciou novo tumulto no Risagno , todos queriam descer com os gritos "Este navio não vai sair, vamos ficar em Spalato!" . Era urgente uma decisão do comando italiano.
Nova rajada de metralhadora. E a decisão na voz do comandante Zelic:
— Caros soldados! Como vocês sabem o seu Duce, que hoje está preso, cometeu diversas barbaridades em nosso território. Não faz muito tempo, mandou centenas de croatas para os campos de prisioneiros na Italia. Julgamentos sumários, bastava olhar atravessado para algum fascista e já era um inimigo para eliminar ou prender.
— A tripulação é toda de croatas. E ao saber da missão de levar vocês exigiram em troca que libertem a mesma quantidade de croatas presos na Italia. Sem comando italiano para cumprir tal promessa e os aliados não estão com ordens parta tal negociação, a tripulação não subirá a bordo.
Nova rajada de metralhadora para acalmar e lembrar que ninguém iria descer do navio.
Um soldado surtou. Começou a gritar na proa, ameaçando atirar-se na água "Não vou ficar aqui! Quero sair deste maldito barco! Estamos abandonados!".
Prendendo-se no cabo de amarração que atracava o barco no cais, iniciou a descida numa manobra de agilidade e desespero. Acompanhada por todos, dentre eles o comandante Zelic.
— Volte para o barco soldado! Se você descer mais um metro vai virar almoço dos peixes amanhã!
O soldado olhou para o cais e não parou a sua descida.
A rajada foi certeira e o corpo caiu na água. Olhares atônitos de todos os soldados, um silêncio absoluto.
— Eu avisei e novamente alerto. Não desçam deste maldito navio!! Seguem as ordens! Escutem seu comando!! — o partisan Zelic empunhando a metralhadora em tom ameaçador.
Todos os olhares fixaram-se num oficial italiano. Silencio absoluto.
— Caros, nossa meta é a frota partir não depois das vinte horas. Agora são seis horas. O Ston e Persagno estão seguindo para a saída do porto. Borsini e Corfu na fase final subida dos soldados. O Dioclesiano já está recebendo os soldados através do transporte dos escaleres. Os navios de apoio da marinha italiano estão ao largo aguardando a conclusão da formação e dar proteção no deslocamento. Tudo ocorrendo conforme programado. Menos o Risagno, mas temos a solução.
Início de tumulto e gritos de "Vamos descer! Não acreditamos em vocês! Seremos abandonados!". Uma nova rajada da metralhadora do comandante Zelic:
— Malditos meninos italianos! Escutem o seu comandante!
Neste momento chega ao lado do oficial italiano o encarregado do porto. Após uma breve conversa, a orientação final:
— Neste momento confirmamos a disponibilidade de uma embarcação de pesca que permite o transporte de até trinta soldados. Vocês serão transportados até o Dioclesiano. O primeiro embarque será daqui meia-hora. Deixo com vocês a organização de descida de grupos de trinta soldados. Serão no máximo seis transferências. Estimamos que até as vinte e duas horas todos estarão a bordo. E o novo horário da partida da frota será as vinte e três horas. Com a atraso. Mas todos juntos, com a proteção da marinha italiana.
Nos olhos dos soldados um misto de alívio e preocupação. O atraso na partida dos navios colocava um risco adicional. No alvorecer os navios ainda estariam muito longe da costa italiana e do reforço da segurança na navegação.
Alguém gritou do parapeito:
— E a nossa comida! Estamos com fome!
— A ração de cada soldados será entregue no cais, nos grupos de transferência para o Diocleziano. Aproveitem! A próxima refeição será em solo italiano! — respondeu o oficial italiano dando ordens para organizar a distribuição dos sacos de alimentos já dispostos numa grande caixa no cais.
Cino voltou para o esconderijo para atualizar Enzo dos acontecimentos. Ao chegar no local, a surpresa de não o encontrar. Lembrou a última conversa que tiveram.
"Foi atrás da caixa de primeiros socorros."
Correu para a escada que levava ao porão e não foi difícil encontrar Enzo numa pequena sala e na mesa em sua frente os poucos recursos para um novo curativo.
— Enzo, deixa eu limpar e trocar este curativo. Deite-se na mesa.
Enquanto ele se posicionava, Cino começou a falar das novidades:
— Cino, escutei tudo. Vamos conseguir. Não vai ser agora que a minha bunda vai atrapalhar os planos. É somente um casco de navio, uns vinte metros de altura. Tranquilo. — já deitado de bruços.
O curativo parcialmente destacado e dos mais de dez pontos, a metade estava abrindo ou já aberto. Cino não sábia o que fazer com os poucos recursos e o local que não permitia uma proteção adequada. Não gostou do que viu. Toda a região do ferimento estava muito vermelha e infeccionada. Precisava limpar e proteger novamente.
"Álcool ou qualquer coisa parecida...." e saiu procurando no local onde encontrara a caixa de primeiros socorros e na despensa de alimentos. Nada. Até encontrar vinagre e retornar para a mesa:
— Vamos fazer o máximo de limpeza com o que temos. Após o vinagre, vamos passar o mercurocromo dos croatas. Colocar um pano limpo. E aguentar até a Italia para uma solução definitiva. Vai melhorar muito, fique tranquilo.
— Vou aguentar... — balbuciou Enzo, suportando a dor no ferimento enquanto seu amigo limpava e refazia o curativo.

Domenico Cesare é engenheiro, gaúcho de Porto Alegre, 67 anos. Após uma vida profissional pautada no relacionamento e gestão de grandes equipes, decidiu investir suas experienciais pessoais e familiares contando histórias. Em especial, escrever a sobrevivencia de sua familia italiana nos anos conturbados que antecederam a segunda guerra mundial até seu desfecho. Participando do Curso de Formação de Escritores estreia com seu conto - Os orixás disseram não - na Coletânea Toda Forma de Amor 2025.