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SPALATO: RENDIÇÃO E FUGA BIS BIS

SPALATO: RENDIÇÃO E FUGA BIS BIS

por Cesare Arturo Domenico Bianchini

Decidiram unirem-se ao grupo de soldados, pois o primeiro desembarque estava próximo. Algumas lideranças no barco que conheciam os soldados designados para o Risagno decidiram por ordenar o desembarque por ordem alfabética. Um mínimo de organização garantia a descida dos primeiros soldados.  Seis grupos de trinta soldados.

Cino seguiria no segundo e Enzo no terceiro. Após uma conversa com uma liderança, Cino convenceu pela troca com um companheiro e seguiu com Enzo . Temia pela escalada pelas cordas no costado do Dioclesiano.

— Podem descer os primeiros trinta! — ordem recebida do cais.

Num intervalo que parecia infinito, mas que não durava mais de 30 minutos, os grupos foram descendo. Entre pisar no cais e entrar na embarcação, o saco de papel recebido com um pedaço de pão, um pedaço de salame e uma fatia de queijo foram devorados. Instantaneamente.

 Quando Cino e Enzo entraram no barco de pesca já era noite. O navio Dioclesiano não estava muito longe, levariam cinco minutos de navegação. O barco jogava bastante com os trinta soldados, todos com olhos fixos naquele costado de navio. Na medida que se aproximavam a impressão que era uma fortaleza, uma parede de aço imensa para a escalada. Pouca iluminação, a cordoalha balançando no costado . E um desafio :não cair no mar. Não atrasar a operação.

Num italiano rudimentar, o barqueiro gritou para os soldados quando estava quase encostando no casco e na cordoalha:

— Subam rápido, não vou ficar aqui a noite toda. Quem cair na água tem uma corda mais comprida para uma nova subida. Vou ficar um minuto parado aqui! Saiam rápido do meu barco para trazer os outros! — entre gritos e os primeiros soldados já em pé para agarrar a cordoalha.

Enzo foi rápido e começou a subir os quase vinte metros. Cino logo abaixo dele. Os demais espalhados em outras cordas e escadas lançadas pelo costado. O motor do barco acelerou e retornou para uma nova viagem.

No corrimão do costado, o incentivo dos companheiros para um esforço adicional, algumas cordas adicionais foram lançadas. Enzo avançava com muita dificuldade pela dor que irradiava seu ferimento em toda a perna.

 

 

Cino, já a seu lado ,gritou :

— Não largue por nada a corda! Segure nela como fosse a sua mãe que está agora lhe protegendo! Não largue a corda!

Iniciou uma rápida subida até encontrar uma corda que era presa no parapeito e com alguns soldados prontos para ajudar na escalada.

Gritou para os soldados que precisava uma corda maior e logo estava segurando a ponta de uma corda que salvaria Enzo. Voltou ao amigo que estava abraçado na cordoalha. Era o último que balançava naquele costado.

— Enzo, vou amarrar para os soldados içarem. Vamos conseguir!

A operação de içamento com diversos braços puxando-o levou alguns segundos. Cino acompanhou a subida do amigo e ao voltar o rosto para o porto de Spalato ficou imóvel. Como hipnotizado, o leve balanço do costado e a brisa do mar.

"Conseguimos.... vamos embora deste inferno!"

— Soldado, está precisando de ajuda? — alguém gritou do parapeito.

Com um aceno que estava tudo bem, iniciou a subida até pular o parapeito e abraçar os companheiros. Ao olhar Enzo encostado junto ao corredor apinhado de soldados, abraçou-o:

— Missão cumprida! Daqui a pouco estamos partindo para Italia!

Num esforço para responder, quase sem folego e apertando o braço de seu amigo:

— Cino, muito obrigado por tudo! Estou aqui pela sua teimosia em não me deixar...não sei como agradecer.

— Descanse e amanhã estaremos em Bari.

Foi ao parapeito e a quarta trnasferencia estava chegando. Perguntou o horário.

"Nove da noite. E ainda faltam dois barcos. Não vamos sair daqui as vinte e três".

Já era meia-noite e a transferência do Risagno tinha concluído, mas nada de partir. Uma inquietação tomou conta do navio com mais de 1.300 soldados. Pelo sistema de som, o aviso que estavam organizando a frota para os seis navios e as duas guarnições da marinha cruzarem com segurança a navegação entre as ilhas de Solta e Brac. Corria a notícia que algumas posições de defesa do exército alemão nas costas das mesmas não tinham sido neutralizadas pelos partisans.

Cino olhava seu amigo que dormia, deitado ao chão. E uma grande mancha de sangue na sua nádega. Precisava procurar algum recurso no Diocleziano para melhorar o curativo.

Eram mais de três da manhã do dia 24. Os motores começaram a movimentar lentamente o navio, como que colocado na liderança da frota. Os demais e as guarnições da marinha italiana igualmente estavam se reposicionando.

 Precisava resolver o problema do curativo. Foi para a torre de comando do navio e ao chegar na escada de acesso foi barrado por um imediato da tripulação:

— Alto lá soldado! Acesso proibido! — pelo sotaque era um tripulante espanhol que esforçava um italiano minimamente compreensível.

— Estou com um companheiro ferido e preciso refazer o curativo. Onde é a enfermaria para levá-lo?

— Ferido? Impossível! As ordens do comando aliado foram de expressamente proibida a evacuação de feridos! Este é um navio mercante e não temos enfermaria nem pessoal a bordo para primeiros socorros.

— Preciso de ataduras e material para limpeza... eu mesmo farei o curativo.

— Caro, temos mais de 1.300 soldados neste navio e uma travessia que deveria ter começado há mais de 4 horas. Nossa preocupação é cada vez maior e não vamos poder atender qualquer pedido que não seja aquele das forças aliadas: todos os soldados embarcados em Spalato serem entregues sãos e salvos em Bari. Nada mais!

Num aceno mandou Cino sair imediatamente da sua frente.

Neste momento um apito do Dioclesiano confirmou :a travessia tinha iniciado.

Perguntou o horário: " 3.20"

Do parapeito pode ver as luzes de Spalato ao longe, as luzes da ilha de Brac a esquerda e a ilha de Solta a direita. Os demais navios seguindo o Diocleziano. Levavam 3.000 soldados num mergulho escuro da noite no mar Adriático. Deixaram na Iugoslávia mais de dois anos de juventude, talvez no melhor momento de suas vidas.

Ao seu lado, um companheiro fumava e ao compartilhar com Cino um cigarro perguntou:

— Parceiro, já decidiu o que fazer ao pisar na Italia? Vai alistar-se nas Forças Aliadas?

Após um breve silencio, olhando para o horizonte escuro na frente deles, respondeu com uma voz cansada:

— Não sei ainda...a minha vontade é não servir a mais ninguém nesta vida.

Agradeceu a foi descansar ao lado de seu amigo Enzo. Que dormia.

Estavam voltando para a Italia. Era certo. O que faria depois? Não sabia, ainda.

Fechou os olhos, encontrou uma posição para relaxar o corpo. Estava cansado, o som do motor, das ondas quebrando no costado do navio que embalavam o seu sono. Antes de adormecer totalmente:

— Adeus Iugoslávia.

Cesare Arturo Domenico Bianchini
Cesare Arturo Domenico Bianchini
Porto Alegre/RS

Cesare Arturo Domenico Bianchini

Domenico Cesare é engenheiro, gaúcho de Porto Alegre, 67 anos. Após uma vida profissional pautada no relacionamento e gestão de grandes equipes, decidiu investir suas experienciais pessoais e familiares contando histórias. Em especial, escrever  a sobrevivencia de sua familia italiana nos anos conturbados que antecederam a segunda guerra mundial até seu desfecho. Participando do Curso de Formação de Escritores estreia com seu conto - Os orixás disseram não - na Coletânea Toda Forma de Amor 2025.