Após um longo dia de trabalho na Vila das Flores, uma "villa" centenária na cidade de Bari no sul da Italia, os empregados recolhiam-se aos seus dormitórios no início da noite. A governanta Yomna, Elvira uma velha cozinheira e Vitória, adolescente de quatorze anos , responsável de todos os demais serviços da mansão.
Os proprietários da Vila Flores eram de família aristocrática de gerações de latifundiários. Sabiam adaptar-se aos tempos e não diferente deste, regime fascista de Mussolini, multiplicaram seu patrimônio. O atual patriarca, Comendador Fulvio, tinha engendrado acordos e fornecimentos de todo tipo de insumos ao exército italiano. Não era um membro do partido, mas gozava de alto prestígio.
No piso inferior da mansão, um labirinto de quartos, depósitos e outros ambientes típicos de porões funcionais. Vitória concluindo sua higiene no banheiro antes de dormir. Noite quente do verão de 1941. Uma leve brisa entrando pelas pequenas janelas de cada dormitório. Somente uma tênue luz de velas. Os tempos de guerra obrigavam rotinas de segurança adicionais, impostas rigorosamente pelos proprietários.
Já no dormitório, deitada em sua cama lembrou que era terça-feira. Era o dia que sua colega Yomna recebia alguém no seu quarto, um mistério que alimentava a imaginação de Vitória. Todas as terças feiras, desde o início da primavera.
Olhando a dança das sombras da vela no teto, no calor que tornava ainda mais úmido o seu dormitório, Vitoria não colocava limites nas hipóteses sobre as visitas misteriosas. O sono foi suplantado pela excitação de descobrir o segredo de sua governanta. Não conseguia dormir pensando o que governanta fazia em seu quarto com seu misterioso convidado.
Todas as terças feiras, ao redor das dez horas da noite , a linda representante da Africa nilótica escorregava seus pés pelo corredor rumo a porta de acesso ao pátio. Como uma pantera numa floresta, sem um único ruído, sem um estalar de madeiras do piso do corredor. Destravava e ficava esperando. Quem entrava não era tão silencioso e cuidadoso como Yomna .Deixava rastros vistos no corredor ao amanhecer. Pareciam botinas ou algum calçado pesado. Um homem.
Vinda da Eritreia conquistada no projeto colonialista italiano, Yomna era uma negra de corpo escultural. Beleza única, educada nas melhores escolas italianas em Asmara era governanta encarregada da organização e serviços de toda a Vila das Flores. Vitória sabia perfeitamente qual o perigo de bisbilhotar a vida pessoal de sua governanta. Mas, a curiosidade de adolescente de 14 anos, a figura enigmática de Yomna - foi a primeira mulher negra que Vitória viu na vida – fantasiavam a sua imaginação. Um homem? O que fazem no quarto? Será também um homem negro? Nunca vi um homem negro.
Neste momento escutou no corredor um ruído que vinha da porta do quarto de Yomna. O coração de Vitoria começou a bater forte e não teve dúvida: iria descobrir o segredo de Yomna.
Abrindo uma pequena fresta de sua porta, pode ver o corpo esguio de sua governanta, de pés descalços, como que flutuando numa camisola em direção ao acesso do pátio externo. Vitória continha a respiração, seus olhos fixos em direção a porta do dormitório de Yomna para ver quem retornaria com ela.
Nem um minuto passou até que o ruído metálico, curto e seco do batente da porta externa permitisse a entrada de seu convidado semanal. A luz de uma vela que iluminava o corredor foi suficiente para identificar o vulto que entrava. Alto, corpulento, com uma boina na cabeça. Abraçou e beijou Yomna longamente. No movimento de seus braços, o fuzil que estava em seu ombro escorregou tocando no solo, num ruído inesperado.
Ficaram imóveis, esperando movimento de alguém que tivesse escutado a batida do fuzil no piso do corredor. Após alguns instantes, Yomna conduziu o homem para seu dormitório, parando novamente para outro beijo e carícias recebidas de seu amante. Sim, este homem era seu amante apaixonado.
Vitória acompanhou cada passo do casal até a porta do quarto de Yomna fechar lentamente.
Vitória fechou a porta de seu dormitório. O coração batendo acelerado, a boca seca. Nunca tinha visto uma cena de paixão ardente e foi tomada por uma sensação de prazer nunca sentida.
— Vitória, chega desta aventura! Você descobriu que sua governanta recebe um homem, com um fuzil, pode ser um soldado, sei lá! Vamos parar por aí.
Fechando os olhos, lembrou de seu pai quando ensinou um truque para retomar a tranquilidade em momentos de pressão, medo ou angústia:
— Vitória, inspire e expire lentamente, no mínimo dez vezes. Repita até seu coração voltar a bater regulamente com paz! E aí volte a pensar no problema! —
Não precisou chegar na quarta respiração para saber o que tinha que fazer.
Contar tudo para seu patrão.
Mas contar exatamente o que? O que estão fazendo? Qual o perigo que estamos sofrendo? E Yomna, perderia o emprego? Desde minha chegada há três anos, ainda uma menina, foi como uma segunda mãe para mim!
Lembro quando entrei pela primeira vez na biblioteca do Comendador Fulvio. Foi ela que interpretou o brilho de meus olhos. Com paciência e dedicação para atender minhas dúvidas nos textos, foi permitindo o contato com romances de D'Annunzio, as poesias de Ungaretti ou os textos de Pirandello.
Mas se eu não contar e o Comendador Fulvio descobrir sozinho? Se me perguntar se eu sabia? Vou mentir? Se eu perder o emprego? Se me devolverem para a casa de meus pais no front de guerra muito mais perigoso? Sem este salário de empregada aqui em Bari, como vou sobreviver?
Quando se deu conta, estava com o ouvido na sua porta, tentando captar algum som vindo do quarto de Yomna. Uma força que não tinha como controlar, levou-a a abrir lentamente a porta e escorregar pelo corredor até a porta de sua governanta.
E aí viu que, provavelmente pela pressa, Yomna não tinha trancado a porta. Estava entreaberta.
Coração acelerado , começou a suar, os sons vindos do quarto, a respiração apressada de Yomna e de seu amante, uma luz tênue vinda de dentro do quarto, tudo girava na sua cabeça.
Lentamente empurrou a porta o suficiente para ver sua governanta empurrar a cabeça de seu amante para junto aos seus seios. As pernas abertas, completamente nua, aquela pele completamente negra. Sobre ela, arfando e já sem roupas, aquele homem, por inteiro, dizendo coisas no ouvido de uma mulher completamente entregue ao seu homem.
Numa manobra que combinou força, carícia e virilidade ele virou o corpo de Yomna como fosse cavalgá-la . Ela o obedeceu , totalmente entregue. Apoiando-se no espaldar metálico de sua cama, como que esperando o ataque final de seu amante, murmurou algo como uma ordem.
Vitória acompanhava cada movimento, sem piscar os olhos, quase sem respirar num êxtase, paralisada e segurando a porta para deixá-la entreaberta o suficiente para ver toda a cena de sexo e paixão.
Neste momento, o homem ao posicionar-se para atender o desejo de sua amada deixou exposto, mesmo na parca luminosidade de uma vela, todo o seu membro que apontava para Yomna . Em estado ereto, grande. E tudo que veio na sequência foi para Vitória uma revelação nunca imaginada, como que num sonho do mais profundo de prazer e luxúria.
Quando o clímax atingiu o casal de amantes, dois corpos se contorcendo abraçados como fosse um só, Vitória usou a mão para evitar que qualquer som saísse de sua boca. Nunca tinha presenciado dois corpos fazendo sexo e a visão daquilo aflorou sentimentos, calores, dormências, tonturas nunca experimentadas.
O casal imobilizado na cama, exaustos, sem um movimento senão carícias com as pontas dos dedos de Yomna no rosto de seu homem.
Vitória encostou-se na parede junto a porta entreaberta, recuperando o folego, como tivesse participado igualmente naquela ardente entrega de sua governanta. Tinha sentido em sua pele, parecia loucura, mas sim, parecia ter sentido todo o prazer de Yomna, toda a sua energia e alegria.
— Vitória, um dia você vai também experimentar esta louca paixão, o prazer, ter seu homem. Yomna é uma mulher de muita sorte! Tem seu homem, mesmo nestes tempos de guerra, que lhe dá o carinho e alegria de continuar a pensar em dias melhores. Quando chegará a minha vez? Será em breve? Com quem?
Tão absorta em seus pensamentos, não escutou que o homem já tinha se levantado da cama e estava vestindo suas roupas, calmamente, num ritual acompanhado pelo olhar apaixonado de Yomna .
Vitória acompanhando a cena, observou que os últimos objetos que o homem pegou foram sua boina e na sequência o seu fuzil. Olhando com mais atenção, enquanto ele se despedia com mais um longo beijo em sua amada, entendeu em toda a sua figura imponente no centro do quarto de sua governanta, que ele não era um soldado. E sim, um partigiano , membro da temível resistência aos fascistas. Ao exército italiano. Aos soldados alemães.
Segundo o Comendador Fulvio, a região estava infestada de partigiani caçados constantemente por toda a força militar e policial. Os atentados a propriedades, sequestros, crimes e explosões com autoria da resistência arregimentava cada vez mais voluntários para suas fileiras. Deveriam ser identificados e capturados a qualquer tempo e qualquer lugar.
O primeiro passo do homem para a porta, interrompido por mais um beijo, permitiu que Vitória escorregasse para seu quarto, fazendo em tempo para entrar e apagar a vela. Imóvel, suada, entorpecida encostada na sua cama.
Escutou todos os movimentos da saída do companheiro de Yomna e o retorno desta ao seu dormitório. Em poucos minutos, um silêncio absoluto tomou conta do porão da Vila das Flores. Na cabeça de Vitoria, ao contrário, ecoava como uma banda de mil instrumentos, os sons de prazer daquele casal ao atingir o clímax e estes tinham um poder nunca sentido pela adolescente.
— Yomna recebendo a visita de um amante partigiano dentro da casa do Comendador Fulvio! Preciso contar para ele!
Sentada no chão do quarto, recostada na cama, lembrou novamente das dez respirações....
Podia antever o roteiro, como numa sequência de cenas previstas em tempo guerra.
O partigiano seria emboscado e preso. Na tentativa de extrair uma confissão ou delação, aquele homem seria submetido a todos o tipo de torturas até o limite da insanidade humana. Já tinha escutado as barbáries a respeito.
Yomna seria presa e julgada como cumplice. Igualmente seria torturada, seviciada e estuprada nas masmorras dos quarteis militares. Pela cor de sua pele, uma imigrante da colônia italiana, seria tratada como um animal. Após toda sorte de horrores, seria atirada morta em qualquer vala da cidade.
Por fim, ela. Seria marcada pelo exército da resistência vivendo o pavor a cada minuto. Poderia ser sequestrada, violentada ou simplesmente morta por ter delatado o partigiano amante de sua governanta. Mesmo depois de terminar esta maldita guerra, correria o risco de milícias que buscam ex-colaboradores, delatores e outros que ajudaram os fascistas. Para sempre, ou um bom tempo, uma permanente insegurança.
— E não teria mais as terças feiras ....
Aquilo que viu naquela noite virou a cabeça dela, como participado de uma festa, ter aberto um portal de emoções nunca sentidas. Queria entender mais, queria falar e confidenciar com Yomna que sabia de seu segredo. Buscar em sua governanta todas as respostas para este sentimento. Ter nela uma tutora para ensiná-la na arte do amor, do sexo, da paixão.
Delatando os encontros de Yomna qual a chance de ter as respostas? Com quem? No tempo que vivia e pela evolução da guerra que se arrastava para um conflito de destruição, hoje estava viva. Amanhã poderia estar morta, talvez se perguntando, como numa última palavra: "Por que eu não vivi uma paixão?"
Aconchegando seu corpo na cama, olhou para a pequena janela como que implorando por uma brisa fresca. Fechou os olhos, respirando pausadamente.
— Partigiano, até terça feira que vem....
Domenico Cesare 23.6.26
Domenico Cesare é engenheiro, gaúcho de Porto Alegre, 67 anos. Após uma vida profissional pautada no relacionamento e gestão de grandes equipes, decidiu investir suas experienciais pessoais e familiares contando histórias. Em especial, escrever a sobrevivencia de sua familia italiana nos anos conturbados que antecederam a segunda guerra mundial até seu desfecho. Participando do Curso de Formação de Escritores estreia com seu conto - Os orixás disseram não - na Coletânea Toda Forma de Amor 2025.