Era uma manhã de primavera nas colinas no entorno da cidade de Tarzo, ao norte da Italia , na região do Veneto, depois de um inverno rigoroso do ano de 1937. O frescor da manhã, a calma quietude da zona rural de uma pequena cidade onde Vitória morava com sua família. Somente a orquestra do canto dos pássaros, dos animais que estavam no estábulo, galinhas, patos, o ruído do motor muito longe que providenciava o bombeamento da água da parte mais baixa da localidade até a sua casa.
Uma das maiores alegrias de Vitória nesta época do ano era abrir pela manhã todas as janelas do humilde lar onde morava, cantando numa melodia alegre:
— Abrindo as janelas para um novo Sol, é primavera, tempo de flores e amores!
As janelas emolduravam permanentemente a imponência e beleza da cadeia das montanhas Dolomitas, seus picos com neve eterna banhadas pelo Sol matutino num quadro admirável da força da natureza.
Vitória, já com seus onze anos, recordava o quanto gostava de ficar no colo de seu pai Mario na parte mais alta da propriedade, escutando as histórias de sua experiência nas montanhas alpinas durante a Grande Guerra, as cidades que conheceu, curiosidades e mistérios daquelas paredes cinza claro de rochas e neve.
O abrir das janelas, respirar o ar puro da manhã, cantar a sua canção favorita e admirar as Dolomitas. Este ritual reforçava todo o seu ser para, ao retornar seu olhar para o interior da casa, saber das tarefas que a esperavam. Mesmo tendo somente onze anos , a carga de experiencias e maturidade colocavam-na como responsável de muitas atividades impensáveis para uma menina.
Seu pai não era proprietário da sua casa e de seu lar. Era arrendatário, trabalhando num regime de mezzeria ou seja, metade de toda produção era do dono da casa e do sítio de três hectares. Do seu trabalho diuturno buscava os recursos para o pagamento do aluguel da casa e alimentar sua família: sua esposa Maria e sete filhos, sendo cinco meninas e dois meninos.
Quando Vitória olhava para o interior da sua casa via uma família com dificuldades como muitas famílias que conhecia em sua vizinhança. O alimento escasso para uma família numerosa, sempre foi a maior preocupação de Mario. Outro compromisso e preocupação era o incentivo que todos seus filhos terem o estudo fundamental completo, ainda mais no período vigente da doutrinação fascista que impunha a obrigatoriedade de todos os filhos na escola.
As irmãs de Vitória colaboravam nas tarefas diárias, tanto para gerar recursos para as despesas de seus pais ,como na manutenção da casa e cuidados com os irmãos menores.
—Quando olho para a imponência das Dolomitas, todos os problemas que tenho que enfrentar ficam tão pequenos! – assim pensava Vitória, fortalecendo seu espírito na doação de seu tempo e energia na ajuda aos seus pais onde fosse necessário.
Assim, nesta manhã de primavera, num sábado onde não teria que ir ao colégio lá embaixo no povoado, estava totalmente disponível para ajudar seu pai nas tarefas no pomar.
— Vitória! Vamos colher o máximo de cerejas e pêssegos que estão maduros e prontos para vender amanhã no mercado de Tarzo – disse Mario levantando-se da mesa após a frugal refeição matinal de polenta e um pedaço de salame.
Ansiosa para ajudar seu pai nas tarefas que sabia importantes para o sustento da sua família, já tinha separado as cestas de vime para a coleta das frutas.E como numa prontidão ao seu comando:
—Papai, estou pronta! Precisamos somente buscar a escada para colher nos ramos mais altos! Já não sou tão pequenina para ficar sobre os seus ombros! —exclamou Vitória, enquanto corria para o galpão buscar os cestos já limpos e reservados.
Lembrava, quando pequena, Mario colocava-a sobre seus dois metros de altura – tinha servido na Grande Guerra em batalhão que requeria esta mínima estatura para alistamento - e como uma brincadeira, permitia a Vitória alcançar os frutos que estavam nos ramos mais altos.
Estava feliz, adorava ajudar seu pai ainda mais numa atividade no pomar que permitia a visão das Dolomitas, do ar puro, do Sol e ver lá de cima a cidade e seu burburinho cotidiano.
Mas não seria uma manhã de primavera como as outras, infelizmente.
Chegando ao pomar, decidiram começar a colher as cerejas que estavam prontas para a sua venda. Não era um pomar muito grande, um pouco mais de vinte cerejeiras. Mario deixava as cerejas dos ramos inferiores para Vitória e colhia nos ramos superiores. Estimava um mínimo de dez quilos por cerejeira. Era uma safra muito boa. Sabendo que metade da venda seria entregue ao proprietário como acordo de mezzaria. Assim era e deveria ser. Tempos duros que levaram muitos amigos de sua família a imigrarem para países longínquos.
—Papai, esta cerejeira está bem carregada, vamos conseguir quase 15 quilos – exclamava Vitória radiante na sua alegria e Mario igualmente feliz com a perspectiva de uma colheita maior que a prevista.
Mario tinha poucos prazeres pela combinação da austeridade e ser um homem e chefe de família que colocava os deveres e princípios acima de escolhas pessoais. Mas fumar o seu cachimbo, hábito que vinha da adolescência, eram sagrados e numa cadência entre duas e três horas estava ele acendendo o "pequeno forno" onde, em silêncio, queimava os seus muitos pensamentos.
E foi numa dessas paradas para fumar seu cachimbo que vi lá do alto do pomar, na pequena estrada de terra que serpenteava do povoado até sua casa, um carro subindo lentamente.Mas suficiente para levantar uma poeira que era levada pelo vento matinal.
— Quem está vindo aqui, num sábado? —. A sua visão cansada de homem de seus 40 anos, boa parte passados em condições de sobrevivência extrema nos cinco anos da Grande Guerra, tentavam identificar o tipo de veículo.
— Não é o Fiat cabriolet da Senhora Dal Ponte! —. A Senhora Dal Ponte era proprietária da terra, herdeira de família nobre da região veneta.
— Não é nem mesmo a semana da cobrança do aluguel e das vendas! Reconheço os grandes faróis do seu carro a centenas de metros e não é o carro da Senhora Dal Ponte - murmurou Mario.
O carro continuava subindo e agora chamava a atenção de Vitória pelo inusitado de um carro subir até a sua casa. Ainda mais num sábado. Viu ao longe seu pai largando baforadas de fumo de seu cachimbo, protegendo com a mão seus olhos do Sol na busca de uma melhor visão do carro que vencia as últimas curvas antes do pátio da sua casa.
Mario logo identificou que era um FIAT Balila, preto, muito utilizado no serviço de taxi da estação de trem da cidade de Vitorio Veneto, próxima da cidade de Tarzo. Como num relâmpago das noites de tempestade de verão tudo ficou claro instantaneamente. Ele ligou aquele carro do serviço de taxi ao seu passageiro e qual a conversação teria em poucos minutos.
—Por que tão cedo? Por que agora? disse para si Mario.
Enquanto com seu calejado polegar da mão esquerda buscava apagar a brasa de seu cachimbo, imprimia uma caminhada ao pátio .O carro já tinha avançado na área privada, estacionando em frente à mesma.
Tinha esquecido completamente de Vitória. Voltou-se para orientar sua filha para continuar a colher as cerejas vermelhas e maduras, mas a visão da menina paralisada, com seu cesto de cerejas caído, escorrendo aquelas bolinhas vermelhas uma a uma na relva ainda úmida do orvalho. Ficou sem palavras, sem ação e impotente pelo que deveria enfrentar.
O motorista do FIAT Balila desligou o motor. Um silêncio profundo se fez no local, um silêncio estranho, nada de cantos de pássaros, nenhum pato grasnou, nenhuma vaca mugia, nem as folhas das cerejeiras em movimento.
Vitória entendeu, aterrorizada, quem era o visitante. Olhou seu pai e começou a chorar.
Abrindo a porta traseira do Fiat Balila, já saindo do interior do pequeno carro que o tinha levado da estação de Vitorio Veneto até aquela humilde localidade, avistando Mario que se aproximava a passos largos, exclamou:
Senhor Mario! Bom dia! Que manhã maravilhosa para vir encontrá-lo!
Este confirmou toda a sua apreensão ao identificar o Dr. Vico com seus quase um metro e noventa centímetros de altura. Imenso para um carro tão pequeno como o Fiat Balila.
Dr. Vico era importante advogado na cidade de Bari, ao sul da Italia. De família influente há gerações, construiu as relações necessárias para adaptar-se aos momentos atuais da Italia. Herdando contatos duradouros do tempo de seus pais nas colônias africanas do império italiano, em especial a Eritreia, onde viveu toda a juventude. Seguiu carreira como eminente advogado na região da Puglia. Com o advento do fascismo soube, como todas as famílias sobreviventes à diversas mudanças e humores de quem governa, adaptar-se. E seguir representando os interesses, seus em especial, e da comunidade empresarial e aristocrática de Bari.
Casado e com numerosa família e seus 5 filhos, buscava uma solução para organizar os trabalhos em sua casa, com uma diretriz: serem colaboradores de fora da sua localidade. Reputava que um ajudante copaesano – da mesma cidade - tinha uma série de vícios e não era produtivo. Eliminaria a preocupação quanto a segurança de sua família com a presença de ajudantes locais em sua casa, num tempo de convulsão política e social.
Decidido a buscar no norte italiano os ajudantes para a manutenção de sua casa ativou seus contatos nos órgãos governamentais. Buscava famílias que estivesses em situação vulnerável, encontrando a família de Mario e seus sete filhos inscritos num programa de ajuda governamental.
Através do programa governamental ocorreu o encontro entre Dr. Vico e Mario. Celebraram acordo de ter uma filha a cada vinte e quatro meses na sua casa na cidade de Bari. Elas seriam levadas à Bari no verão de cada ano, que coincidia com o término do ano escolar. A cada novo ciclo, ocorreria a troca com uma nova filha de Mario.
As filhas por ordem de nascimento eram Alba, Rita, Maria, Vitória e Lisa. Precisariam estar com o ensino fundamental concluído, uma idade entre 11 ou 12 anos. Trabalhariam em serviços gerais na sua casa com a tutela de sua esposa e de uma governanta, não sendo exigido nenhuma atividade que uma menina da idade delas não pudesse realizar.
E neste acordo entre as partes, o envio mensal de pagamento em dinheiro. Quantia muito importante para o sustento da família de Mario, garantindo para os demais filhos muitas vezes o mínimo necessário para uma refeição digna e urgências de toda sorte de um grupo familiar numeroso.
A primeira filha que foi para Bari foi Alba no verão de 1936, com previsão de retorno no verão de 1938.
Esta era a preocupação de Domenico, ao olhar o imponente Dr. Vico na sua frente.
— Ele está aqui um ano antes!
Impecavelmente vestido, com um cappotto escuro (mesmo que não fizesse tanto frio) e o indefectível chapéu Borsalino , olhando o horizonte para as Dolomitas e respirando profundamente o ar fresco da manhã.
Meu Deus! Não canso de repetir, toda vez que venho aqui! Senhor Mario, ter o privilégio deste horizonte é para poucos!
Mario, limpando-se como pode, cumprimentando-o com um aperto de mão. Atarantado pela chegada do Dr. Vico, vestido com uma roupa surrada e suja de trabalho no campo não pode segurar o sentimento de vergonha e humilhação em receber, naqueles trajes, uma pessoa muito importante para sua família.
Somente neste instante pode observar na porta da casa a sua esposa Maria que já estava na soleira da porta rodeada dos seus dois filhos pequenos Antônio e Luigi que insistiam em sair para ver o Fiat Balila , curiosos como todos os meninos ao ver um carro bem perto.
Mario então ordenou:
Maria, por favor, organize a mesa e as cadeiras junto ao parreiral para acomodar o Dr. Vico e seu motorista. Faça um café e leve para nós e não deixe as crianças saírem de casa para nos importunar, disse em tom enérgico
Neste momento o motorista do Fiat Balila , ao sair do carro, no seu dialeto vêneto da região, e entendendo que a chegada não tinha sido programada, falou:
Senhor Mario, esteja tranquilo, vou esticar as pernas e respirar um ar puro. Não se preocupe com o café e no final de sua conversa, pode chamar os meninos que vou mostrar o carro para eles! Será um prazer! disse o motorista em tom alegre
Agradeceu ao motorista, olhou para o Dr. Vico que já tinha retirado seu cappotto colocando-o no banco traseiro do carro. Convidou o visitante para sentar-se abaixo da parreira. Maria já tinha concluído a limpeza no local para uma melhor recepção ao ar livre permitindo, ao menos, que as decisões daquele encontro terem uma sombra e o ar fresco como cumplices.
Senhor Mario, combinei com minhas reuniões aqui em Milão nesta semana uma vinda aqui para falar com o senhor. Desculpe por não ter enviado um telegrama avisando de minha chegada.
— Dr. Vico, peço desculpas pelos meus trajes, estava colhendo cerejas e estou envergonhado em receber o senhor assim.
Senhor Mario! Aprendi nesta vida que as vestimentas, a roupa, a educação refinada e tantas outras demonstrações externas de uma pessoa não traduzem aquilo que é o mais importante! O caráter, a ética, o patriotismo! Tenho no senhor um exemplo de homem, pai de família, cidadão íntegro, combatente da Grande Guerra com honras e reconhecimento!
E procurando uma posição mais cômoda no seu assento, uma cadeira de vime já bastante usada, aproximou-se mais de Mario para, em voz mais baixa e cuidando das palavras, iniciar a conversa que o tinha levado da cidade de Bari até ali:
Senhor Mario, somos muito gratos por ter conhecido o senhor e sua família e a possibilidade de uma ajuda mútua em nossas necessidades! Ter a sua filha ajudando em nossa casa, menina com educação e responsabilidade, que vem de berço, é coisa rara hoje.
Entre surpreso e preocupado com a menção do "somos muito gratos"
Dr. Vico, por favor, aconteceu algo com a minha filha Alba em sua casa? Fez algo errado?
Não! Não! A sua filha Alba é uma menina exemplar, muito inteligente, respeitosa e o senhor só tem que se orgulhar! Realiza seus afazeres com diligência e não temos em que reclamar! —
Mario, como que voltando a respirar:
Fico contente em escutar e aliviado em saber que Alba nada fez de errado—.
Senhor Mario, tenho pouco tempo para falar com o senhor pois meu trem para Veneza parte em menos de três hora. Não aconteceu nada com a Alba, nada fez errado.—
Fez uma pausa, e olhando nos olhos de Mario disse:
Mas precisamos fazê-la retornar mais cedo que o previsto.
Um turbilhão de pensamentos passou pela mente de Mario, deixando-o levemente tonto. Com um movimento automático buscou seu cachimbo no bolso como um "apoio" psicológico, uma muleta para sustentar suas emoções num momento agudo como este. Mas desistiu de acendê-lo.
Dr. Vico, o que a Alba fez! Me diga! Seja sincero! —
Dr. Vico entre surpreso com a reação de não estar acreditando que nada de errado a Alba tinha feito, colocou a mão sobre o ombro de seu anfitrião e falou em tom fraternal, serenamente:
Senhor Mario, acredite. Sua filha Alba não fez absolutamente nada que o envergonhasse. O senhor vai entender o porquê, pois estamos falando como pais que tem filhos, as surpresas que eles nos apresentam e decisões que temos que tomar. —
"Surpresas?" pensou Mario em crescente agonia
Caro Mario, tenho um filho, David, tem 16 anos não sei se está lembrado quando na primeira vez que estive aqui a quase três anos. É, faz tempo ... ele cresceu mais rápido que podemos esperar, está quase pronto para seguir a carreira militar em breve. —
Sim, lembro do David, um jovem bem robusto para sua idade— respondeu em voz baixa.
Pois bem e sem rodeios ... Alba também cresceu! Ela foi para Bari ainda tinha treze anos, mas agora está perto dos quinze anos e já uma moça muito bonita! —
Mario congelou.
Dr. Vico vendo a sua reação na suposição que algo tivesse já acontecido buscou socorro imediato em esclarecer que nada tinha ocorrido. Começava a tranquilizá-lo quando, sem se aperceber, viu a Senhora Maria chegando com a bandeja de café com um bule, duas xícaras e torrões de açúcar.
Fez-se o silêncio.
Um pai impedido em informar que seu filho não tinha injuriado uma jovem moça.
Um pai sofrendo com a imagem de sua filha sendo injuriada por um jovem rapaz.
Após os agradecimentos de praxe pelo serviço de café entregue, ambos acompanharam cada passo da senhora Maria até a porta de sua casa. Pareciam passos muito lentos, demorados, uma eternidade visto a ânsia de retomar a conversação. Quando o trinco fez o ruído do batente fechando, como num grito ambos ao mesmo tempo se olharam e falaram
O que seu filho fez com a Alba! —
Não aconteceu nada entre os dois! —
Até o motorista do taxi que estava a uns vinte metros de distância virou-se para os dois com surpresa, sem ter entendido bem o quanto falavam.
Senhor Mario, nada ocorreu e este o motivo da minha presença aqui! Repito que nada ocorreu e foi somente pela nossa permanente vigilância e controle que antecipamos aos fatos inevitáveis! —
Dr. Vico, peço desculpas por pensar mal de seu filho David, mas fiquei muito preocupado que estes dois tivesses feito aquilo que não deveriam nem pensar. —
Senhor Mario, não levo como ofensa o seu pensamento em relação ao meu filho. Sei da preocupação de ser pai, entendo e respeito a sua aflição. —
Dr. Vico, agora mais tranquilo, o senhor comentou que "teve decisões a tomar". Quais seriam? —
— A decisão mais acertada é fazer retornar a Alba imediatamente e a troca com uma outra filha de sua família. Se possível a mais jovem que tenha concluído os estudos fundamentais, reduzindo todos os riscos que o senhor possa entender— disse Dr. Vico sem hesitar uma palavra.
Sorvendo o café, olhando o relógio e para o taxi com certa preocupação Dr. Vico levantou-se em frente a um Mario ainda aturdido. Num gesto de amigo ajudou-o a levantar da cadeira, concluindo:
Senhor Mario, a Alba será acompanhada por um ajudante de minha casa na semana próxima de Bari até aqui. Ele retornará para Bari com a filha que o senhor designar, para um período de 24 meses conforme nossos acordos. Não duvido que a sua próxima filha terá o mesmo conjunto de valores que só o senhor pode ter dado aos seus filhos— olhando para seu relógio com certa aflição.
Mas a próxima ainda não concluiu os estudos— balbuciou Mario pensando como resolver o problema inesperado
Senhor Mario, tenho que ir e sei que o senhor encontrará a solução e por oportuno, já me despedindo, lhe entrego isso como um bônus pelo nosso acordo de mútua assistência. —
Retirou do bolso interno do casaco um envelope pardo, entregou nas mãos de Mario, apertou sua mão como pode e seguiu para o taxi.
Antes passou junto a porta da casa e agradeceu o café para a senhora Maria que retribuiu com um aperto de mão. Olhou para seu marido que ainda se encontrava no parreiral como que imobilizado, em pé, olhando para o Dr. Vico entrando dentro do carro. Segurava numa mão um envelope pardo. Na outra o seu inseparável cachimbo que já tinha retirado do bolso da calça.
O taxi manobrou no pátio com os meninos olhando muito próximos e correndo atrás do Fiat Balila que começava a descer a longa estrada de terra para Tarzo e, dali, para a estação de trem de Vitorio Veneto.
Neste momento, Mario sentou na cadeira, olhou para sua taça de café . Já estava frio, mesmo assim tomou lentamente. Tirou o fumo e fósforos de um pequeno saco de tecido. Carregou o seu cachimbo, acendeu o seu "pequeno forno" onde queimava os pensamentos. Entre uma baforada e outra buscou a solução de como falar com sua filha Vitória.
Ela, sentada à sombra de uma cerejeira, como que paralisada tendo visto e escutado tudo. Olhava para o céu azul, sem nuvens, como que profundamente cansada. Se forças, entregue ao seu destino, esperou o pai lhe chamar.
DOMENICO CESARE
Abril 2025
Domenico Cesare é engenheiro, gaúcho de Porto Alegre, 67 anos. Após uma vida profissional pautada no relacionamento e gestão de grandes equipes, decidiu investir suas experienciais pessoais e familiares contando histórias. Em especial, escrever a sobrevivencia de sua familia italiana nos anos conturbados que antecederam a segunda guerra mundial até seu desfecho. Participando do Curso de Formação de Escritores estreia com seu conto - Os orixás disseram não - na Coletânea Toda Forma de Amor 2025.